Potiguar Fernando Mendonça fala sobre a estreia de Super Drags

Publicação: 2018-11-09 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

“Vai ter desenho de viado na Netflix sim”, diria Vedete Champagne, uma das personagens da série “Super Drags”, que estreia hoje (9) na plataforma de streaming mundial. A personagem é a chefe de um serviço secreto que conta com um trio de drag queens heroínas comprometidas com a missão de defender a comunidade LGBTQ das forças do mal – mas sempre com muita irreverência e glamour. A produção tem classificação indicativa para maiores de 16 anos.

Diretores, produtores e elenco de Super Drags reunindos: inspiração veio da veterana Silvetty Montilla, que dubla na série, assim como Pabllo Vittar e Suzy Brasil
Diretores, produtores e elenco de “Super Drags” reunindo: inspiração veio da veterana Silvetty Montilla, que dubla na série, assim como Pabllo Vittar e Suzy Brasil

Primeira animação brasileira da Netflix, “Super Drags” é uma produção do Combo Estúdio e foi criada por Anderson Mahanski, pelo dublador e roteirista de animações potiguar Fernando Mendonça e Paulo Lescaut, com produção executiva de Marcelo Pereira.  A série traz ainda dublagens de Pabllo Vittar como a personagem Goldiva e Silvetty Montilla como Vedete Champagne. Vittar também assina a trilha sonora.

A trama gira em torno dos amigos Patrick, Donizete e Ralph. Durante o dia eles trabalham em uma loja de departamento com clientes irritantes e um chefe exigente. Mas no cair da noite os três liberam suas divas interiores para se tornar nas super poderosas Lemon Chiffon, Safira Cian e Scarlet Carmesim (interpretada por Fernando Mendonça).

Uma das inspirações dos autores para o roteiro foi a pioneira drag Silvetty Montilla. O trabalho também contou com a consultoria da Suzy Brasil, uma das drags cômicas mais respeitadas do país, que também empresta sua voz para uma das personagens. Nos EUA, a série tem dublagens de drag queens que participaram do reality show RuPaul's Drag Race: Shangela, Willam, Trixie Mattel e Ginger Minj.

Polêmica sem fundamento
Bem antes da estreia “Super Drags” já havia causado polêmica por causa de seu conteúdo. Dentre os que se manifestaram de forma contrária à produção estão o deputado federal Alan Rick (DEM-AC), a Frente Parlamentar em Defesa da Vida e da Família (da Câmara dos Deputados) e a Sociedade Brasileira de Pediatria. Esta, inclusive, chegou a se pronunciar em nota pedindo o cancelamento da série, pois supostamente ofereceria “risco de exposição indevida" de crianças “a imagens e conteúdos com menções diretas e/ou indiretas a situações de sexo, violência, de emprego de linguagem imprópria ou de uso de drogas". Mas nada sobre o roteiro havia sido divulgado pela Netflix.

Lemon Chiffon, Safira Cian e Scarlet Carmesim defendem a comunidade, com muita irreverência
Lemon Chiffon, Safira Cian e Scarlet Carmesim defendem a comunidade, com muita irreverência

De fato o desenho contém linguagem adulta, mas animações voltadas para esse público não é algo recente. “Os Simpsons" e “South Park", por exemplo, eram exibidos na TV aberta sem “mimimi” dos moralistas. E para ir mais fundo, pode-se citar ainda o super-herói colorido “Capitão Gay”, personagem de Jô Soares que defendia os fracos e oprimidos ao lado do “Cabo Suely” e que fez enorme sucesso no início dos anos 80 na televisão brasileira.

Em resposta às polêmicas, a Netflix se manifestou de forma bem humorada por meio de um vídeo em que a personagem Vedete Champagne explica a classificação indicativa da animação. “Tão dizendo por aí que Super Drags é pra criança? Quê? Vocês estão me achando com cara de Galinha Pintadinha?", disse a personagem. “...É só para maiores de 16 anos".

Segundo a Netflix, “Super Drags” não estará disponível nas contas infantis da plataforma. Para limitar o acesso dos filhos aos conteúdos, a empresa lembra que o controle dos pais pode ser ativado no menu “conta", no qual é possível ajustar a classificação indicativa permitida para o usuário, para apenas programas “livres", de 12, 14, 16 ou 18 anos de idade.

Conhecido pelas vozes de personagens famosos como o Timão, de Rei Leão, Hortelino, da turma do Pernalonga, e Limão Grab, da Hora de Aventura e a canção tema de Moana, o areiabranquense Fernando Mendonça fez da paixão de criança por desenhos animados seu ganha-pão - um ganha-pão bem divertido por sinal. Aos 29 anos, e vivendo há quase 10 no Rio de Janeiro, ele dá um novo passo na carreira com o lançamento da animação adulta “Super Drags", co-dirigida por ele e os parceiros Anderson Mahanski e Paulo Lescaut. Nesta entrevista por e-mail, Fernando conta ao VIVER um pouco das histórias por trás da série.

Como surgiu a ideia de Super Drags?
Fernando Mendonça - Anderson [Mahanski] e eu estávamos indo para a casa de uns amigos nossos e comecei a pensar: “Tem algumas vozes características na cena gay. Tem aquela voz mais empostada, a mais barraqueira e tem a de moça”. Aí o Anderson falou: “Que legal isso aí! Imagina se tivessem três heroínas com essas vozes, mas de drag, super drags”. Aí, a gente começou a bolar a série na nossa cabeça. A gente ligou para o Paulo [Lescaut], passou o briefing todo e ele também foi dando ideia. Quando a gente olhou, as drags já estavam vivas. As drags, a série inteira, tudo o que a gente fez na série, a gente já passou ou conhece alguém que passou. As salas de roteiro eram tipo sessões de terapia!

O potiguar Fernando Mendonça é dublador e um dos criadores da série Super Drags, com estreia nesta sexta-feira na plataforma Netflix
O potiguar Fernando Mendonça é dublador e um dos criadores da série “Super Drags”, com estreia nesta sexta-feira na plataforma Netflix

Quais são os principais desafios que as drags enfrentam na série? Preconceito em casa, nas ruas, homofobia, violência física?
Super Drags é uma animação adulta que, com um humor ácido e muita ousadia, trata de temas importantes da comunidade LGBTQ. As drag queens no papel de super-heroínas estão aí para combater a drag queen Lady Elza, com irreverência, glamour e muito highlight. O restante seria spoiler. Então tem que assistir ao show.

Gostaria que você falasse um pouco das suas personagens, Donizete e Scarlett Carmesim.
Donizete é aquela personagem tipo “Escreveu, não leu, o pau comeu, meu amor!”. Ela tem um senso de justiça que é a sua qualidade. Acho que é legal falar sobre o que cada uma representa: temos o coração, que é a Safira; o cérebro, que é a Lemon; e tem a força, que é a Scarlet. [Para criar as personagens] A gente vai se inspirando não só nas pessoas que a gente conhece, mas também pelo o que elas estão passando no momento.

Agora uma reflexão. Quem seriam as heroínas e vilões da comunidade LGBT na vida real?
Heróis e vilões. Isso é algo realmente interessante sobre esse show. Ninguém é apenas bom ou mau. Essas heroínas lutam entre si, cometem erros, não são perfeitas. Nem mesmo a Lady Elza, nossa antagonista, é toda má. Nós construímos esses personagens com muito coração e sendo honestos que todos nós temos um pouco de ambos. E acho que muitas pessoas vão se relacionar com esses personagens de certa forma. Eles são tão reais que você acredita que eles poderiam existir.

A série conta com a participação de Pabllo Vittar, Silvetty Montilla e Suzy Brasil, nomes importantes da cena drag do país. Como foi trabalhar com elas?
Estamos felizes em ter a Pabllo não só como voz original da Goldiva, mas também cantando a nossa trilha sonora original. Esperamos que ela seja capaz de levar mensagens positivas para um público que vá além da comunidade. Fizemos a personagem Vedete completamente inspirada na Silvetty Montilla. Ela representa uma geração tradicional e importantíssima de drag queens no Brasil e é uma honra tê-la como voz original de “Super Drags”. Sua participação é também uma homenagem às suas conquistas e pioneirismo na cena LGBTQ do país. E Suzy Brasil, uma das drags cômicas mais conceituadas no Brasil, é a nossa parceira de roteiro. Além disso, ela é a voz de Juracy – um homem gay comum que está prestes a ficar famoso com seu rebolado. Foi desafiador montar o time da sala de roteiro porque a gente queria encontrar pessoas que fossem do meio LGBT, fizessem comédia e entendessem de animação.

 A série também ganhou versão em inglês com dublagem de drag queens famosas que passaram pelo programa RuPaul's Drag Race. Como foi saber que o desenho já estrearia atingindo o público internacional?
A gente se preocupou em fazer uma série que funcionasse em qualquer lugar do mundo. Super Drags é universal; tem uma alma brasileira, mas eu acho que muita gente, em qualquer um desses países, vai se identificar.




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