Hilda & Zélia & Marize

Publicação: 2017-11-09 01:59:00 | Comentários: 0
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“A liberdade áspera” e “a verve tão feminina e forte”, claramente presentes no poema “Dez chamamentos ao amigo” de Hilda Hilst, são algumas das características que fazem com que a cantora Zélia Duncan tenha, antes de mais nada, uma relação de paixão com a obra da escritora. Paixão esta que a levou a participar hoje (9), ao lado da jornalista Marize Castro, da mesa redonda “A poesia de Hilda Hilst”, na Tenda dos Autores, dentro do FLIN, que ocorre na Praça Augusto Severo, na Ribeira, a partir das 19h.

Poeta, dramaturga, ficcionista: Hilda Hilst viveu intensamente a literatura e suas possibilidades e será tema da Mesa 1, hoje no FLIN, na Ribeira
Poeta, dramaturga, ficcionista: Hilda Hilst viveu intensamente a literatura e suas possibilidades e será tema da Mesa 1, hoje no FLIN, na Ribeira

Abordando temáticas como amor, sexo, ações humanas e indagações metafísicas, Hilst foi, e é até hoje, referência na literatura feminina nacional. Para Zélia, a autora é um dos últimos amores no quesito poesia. “É lindo ver uma mulher se ‘desavergonhar’ assim”, afirma e continua: “Lustrando as próprias asas, ela nos leva junto, nos encoraja, nos mostra diante de umespelho de aço”, explica Zélia ao falar sobre a admiração que sente pela escritora paulista.

Sobre o convite para participação num festival literário não apenas na área musical, ela conta que acha “delicioso”, porque as palavras lhes “são o motivo de cantar”, confessa. Para Duncan, a intersecção entre literatura e linguagem musical é algo “fundamental” e “extremamente natural”.

Feminista assumida, Zélia acredita que a luta para a produção artística feminina continua dura como sempre foi, mas que as artistas estão mais cúmplices, com uma arte que reflete tanto a luta, quanto o olhar para as questões da mulher.

Hoje terá show de Zélia Duncan
Hoje terá show de Zélia Duncan

“Ser mulher é uma dificuldade a mais sempre. Cantei muito à noite, estava exposta a todo tipo de assédio e passei por eles”, conta afirmando que hoje em dia, o que se sente é “mais uma constatação profunda e cotidiana” dos sintomas do machismo. “Feminicídio, misoginia, desdobramentos dessa doença chamada machismo, isso tudo está nos nossos dias, infelizmente e se acontece com uma, acontece com todas, como temos dito”, diz a cantora.

A fusão de gêneros da autora em foco é um dos pontos altos para a jornalista e poeta Marize Castro. “Sou leitora de Hilda desde os anos 1980, quando li seu livro A Obscena Senhora D. e me assombrei. De onde vinha tanta miséria, tanto mal-estar, mas também tanta entrega, tanta visão? É poesia sem ser poema. Umas das características dela era fundir os gêneros, o diálogo entre ficção, poesia e teatro é uma constante na obra de HH. Para mim, falar e ouvir sobre ela é sempre um contentamento, mas também é um assombro. Um assombro que me lembra o que é primordial nesta vida”, diz a poeta.

Inquieta e provocadora, Hilda Hilst deixa em seus leitores um traço de frescor e, na opinião de Marize, a escrita da autora nascida em Jaú (SP) é permanente: “O livro A Obscena Senhora D é tão eterno quanto Ulisses, de Joyce. Aliás, ela era leitora dele. Ambos, ao lado da Gertrude Stein, para mim, são a elite da transgressão na literatura. É a turma dos visionários”.

A jornalista e poeta, Marize Castro
A jornalista e poeta, Marize Castro

Marize diz que ainda não conhece Zélia pessoalmente, mas sabe do interesse dela por literatura e que essa característica a distingue na música popular que é feita no Brasil. “Não conversamos. O que virá dela será surpresa para mim, e vice-versa”.

Depois tem show
Além de participar da discussão sobre o legado de Hilda Hilst, Duncan solta a voz no palco às 22h. Há dois anos divulgando o álbum “Antes do mundo acabar”, ela conta que o gênero já fazia parte de seu “universo musical” e que exercita muito para que ele seja ampliado.

Apesar das boas críticas recebidos por seu último trabalho, Zélia afirma que o artista nacional

ainda precisa de reconhecimento. “Trabalhamos muito e nem sempre ele vem”. Agradecida,ela afirma que “curtiu” o momento em que recebeu prêmios em três categorias na 27a edição do Prêmio da Música Brasileira. Zélia adianta ao Letras & Ideias que na próxima semana lança o álbum “INVENTO+”, interpretando músicas de Milton Nascimento acompanhada do som de um violoncelo, com o mestre-maestro Jaques Morelenbaum.


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