História se repete: há 100 anos, epidemia parou Campeonato Potiguar

Publicação: 2020-03-22 00:00:00
A+ A-
Ícaro Carvalho
Repórter

Os amantes do futebol do Rio Grande do Norte e de vários estados do País estão tendo de conviver com a paralisação dos tradicionais campeonatos estaduais em virtude da pandemia do Covid-19, o novo coronavírus, que vem atingindo todas as camadas e segmentos da sociedade, incluindo o esporte mais popular do Brasil. No entanto, poucos sabem que, há pouco mais de cem anos, o Campeonato Potiguar de Futebol foi paralisado por um motivo semelhante ao vírus vindo da China: uma gripe.

Créditos: ArquivoA equipe do América de 1919 conquistou o título do Rio Grande do Norte, um ano depois do Campeonato Estadual ter sido interrompido antes que houvesse a finalA equipe do América de 1919 conquistou o título do Rio Grande do Norte, um ano depois do Campeonato Estadual ter sido interrompido antes que houvesse a final

Na semana em que o Campeonato Potiguar parou em virtude da pandemia do coronavírus, a reportagem da TRIBUNA DO NORTE ouviu pesquisadores para saber quando o Estadual também foi afetado por  por motivos alheios à disputa.

O caso ocorreu em 1918, ano do primeiro Campeonato Estadual de Futebol no Rio Grande do Norte, quando sequer havia a Federação Norteriograndense de Futebol (FNF), entidade que representa os clubes e rege o futebol local. Naquele ano, o mundo foi afetado pela gripe espanhola, uma pandemia do vírus Influenza que durou entre janeiro de 1918 e seguiu até dezembro de 1920. Cerca de 27% da população mundial da época foi afetada e o presidente do Brasil, Rodrigues Alves, morreu da gripe.

“Foi o primeiro campeonato daqui do RN. Tínhamos apenas três participantes. Foram desenvolvendo os jogos, faltava apenas um para acabar, justamente um clássico entre ABC e América. Mas em 1918 começou a gripe espanhola, uma das mais letais do mundo e o RN também foi afetado”, recorda à TRIBUNA DO NORTE Marcos Trindade, pesquisador do futebol potiguar. Ele acrescenta ainda que o torneio era chamado pela imprensa de “Campeonato Natalense” ou “Campeonato da Cidade”.

À época, quem cuidava do campeonato era a Liga de Desportos Terrestres do Rio Grande do Norte, fundada em 14 de julho de 1918. Além de ABC e América, o Centro Esportivo Natalense, que liderava a disputa, jogava o campeonato. Posteriormente, o clube viria a se tornar o Clube Atlético Potiguar. “A precaução foi não realizar esse jogo [ABC e América] porque seria num lugar que aglomerava muita gente. Era num campo onde hoje é a Praça Pedro Velho (Praça Cívica)”, recorda Trindade.

Créditos: Acervo/Marcos TrindadeEm trechos de jornais impressos de Natal, à época, mostram as decisões governamentais em meio a gripe espanhola, que paralisaram o Campeonato Potiguar de 1918Em trechos de jornais impressos de Natal, à época, mostram as decisões governamentais em meio a gripe espanhola, que paralisaram o Campeonato Potiguar de 1918

Quem também relembra sobre esse campo de futebol é o  pesquisador e jornalista Eduardo Alexandre Garcia,  que conta a história de como o local se transformou em terreno de partidas de futebol. Antes, os jogos em Natal aconteciam na Praça André de Albuquerque e no terreno onde hoje é a Catedral Metropolitana, na Cidade Alta e em Petrópolis.

“Depois que foi criada a cidade nova, foram planejadas duas praças: uma para Petrópolis e outra para Tirol. A do Tirol era a da praça onde foi construída a Catedral, onde funcionava uma vacaria. A de Petrópolis é onde é a Pedro Velho de hoje, que já nasceu com esse nome”, conta.

“O primeiro jogo oficial de futebol em Natal foi na Praça Pedro Velho, onde se chamava o ground da Praça. Natal Football Club e ABC, 3 a 1 para o Natal Football Club. Esse jogo foi realizado na Praça Pedro Velho no dia 19 de setembro de 1915. Durante muito tempo o futebol oficial do Rio Grande do Norte, as partidas da Liga, foram disputadas ali na praça, até que em 1928 se inaugurou o Estádio Juvenal Lamartine”, conta.

Créditos: ArquivoNo ano de 1918 o América (foto) disputou a competição contra o ABC e o Centro Esportivo NatalenseNo ano de 1918 o América (foto) disputou a competição contra o ABC e o Centro Esportivo Natalense

O pesquisador Marcos Trindade tem pelo menos 30 anos de pesquisa sobre o futebol potiguar, com estatísticas, números e recordações do futebol local. Já o jornalista e também pesquisador Eduardo Alexandre Garcia estuda a cidade de Natal desde 2002, com livros, recortes de jornais e documentos históricos guardados em seu acervo. Ambos já tiveram suas histórias contadas em edições nas páginas da TRIBUNA DO NORTE.

Pesquisador guarda principais registros da época
O pesquisador Marcos Trindade guarda registros da imprensa local da época do primeiro campeonato potiguar de futebol. Em recortes do jornal “A República” e “A Imprensa”, do acervo de Trindade, os relatos eram de que o Centro Esportivo Natalense era o mais cotado a vencer o torneio.

“O Centro estava na liderança e faltava apenas um jogo, entre ABC e América, para o término da competição. Além dessa privilegiada posição, possuía uma boa equipe, motivo pelo qual foi antecipadamente apontado como provável campeão de 1918”, relatavam os jornais impressos.

Créditos: Acervo/Marcos TrindadeRecorte do jornal A Imprensa mostrava que o Centro Esportivo Natalense era o mais cotado a vencer o torneio de 1918, paralisado pela pandemia da gripeRecorte do jornal A Imprensa mostrava que o Centro Esportivo Natalense era o mais cotado a vencer o torneio de 1918, paralisado pela pandemia da gripe

Se o coronavírus está causando temor nas pessoas e sendo menosprezado por outras, o Governador do Estado à época, Joaquim Ferreira Chaves, conforme cita os impressos,  pediu o fechamento temporário dos estabelecimentos de instrução, cinemas, teatros e cancelamento de missas. O jornal relatou: “obteve também, junto à Liga, a paralisação do campeonato. A Taça oferecida pelo sr João Baptista Rosseli ficou para ser disputada no ano seguinte. O campeonato foi paralisado e não teve prosseguimento”, recorda.

Na opinião de Marcos Trindade, o Centro Esportivo Natalense deveria ser qualificado como o campeão potiguar em 1918, uma vez que o clube estava na liderança do torneio com 5 pontos, contra 3 do ABC e 2 do América. Aliado a isso, o Centro Esportivo Natalense tinha um saldo de nove gols positivos, enquanto que o ABC tinha um gol negativo de saldo e o América seis gols negativos. Confira os jogos e a tabela ao final da reportagem.

“Eu considero. Pois em outros anos o campeonato foi disputado apenas a metade, nos casos de 1927 e 28, e teve o vencedor do 1º turno declarado campeão”, relembra. “Outro exemplo é o campeonato de 1936, que teve poucos jogos e o ABC foi considerado campeão pelo fato de liderar. O caso de 1918, faltou apenas um jogo. Nada mais justo que considerar o Centro campeão”, opina.

Em 1919, as três equipes se enfrentaram novamente no Campeonato Potiguar e o América de Natal se sagrou campeão. 

De acordo com o pesquisador Marcos Trindade, o campeonato de futebol do RN foi paralisado em outras situações. Em 1928 e 29, o torneio só teve o 1º turno, os quais o ABC foi declarado campeão nesses dois anos.

“O motivo dessa paralisação foi porque a Seleção Potiguar iria participar do Campeonato Brasileiro de Seleções. Tinha uma história de preservar o gramado do JL e não realizaram os jogos do Potiguar. Pararam o campeonato, não continuou mais. Em 28 e 29 só tivemos o 1º turno”, diz.

Ainda de acordo com as pesquisas de Trindade, o torneio voltou a parar em 1936, desta vez por questões políticas entre os clubes e a entidade que regia o torneio. Em 1942, o torneio teve entre oito e dez partidas e a Segunda Guerra Mundial, além da participação da Seleção Potiguar em um torneio nacional, também motivaram a suspensão do torneio. “O campeonato de 42 não tem campeão definido”, disse.

Outra paralisação, segundo Trindade, foi em 1949. No início do ano, Rui Barreto de Paiva assumiu a presidência da FND (Federação Norteriograndense de Desportos). Ligado ao América, ele convocou os clubes em maio para organização do torneio. Houve resistência por parte de algumas equipes, como o ABC e o Santa Cruz de Natal.

No final de junho, houve uma intervenção na entidade e o campeonato parou. Novas eleições foram convocadas e Carlos Bezerra de Miranda assumiu em agosto de 1949. Todos os jogos iniciados em maio foram anulados e uma nova convocação foi feita.

“Como não havia datas suficientes para realização dos dois turnos, os clubes combinaram que seria realizado apenas um turno e o campeão seria o detentor do título de 49. Curiosamente o América foi campeão com uma campanha brilhante”, relata Trindade.

Naquele ano, de acordo com estatísticas do portal  Rec.Sport.Soccer Statistics Foundation (RSSSF), oito times disputaram o torneio: América, ABC, União, Atlético, Santa Cruz, Potiguar de Parnamirim, Alecrim e Riachuelo. O Alvirrubro foi campeão com seis vitórias e um empate, marcando 22 gols e sofrendo cinco.

Potiguar 2020: clubes param até mês de abril
Todos os clubes de futebol que disputam o Campeonato Potiguar 2020 anunciaram a suspensão de suas atividades após a decisão da paralisação do Estadual. A medida foi tomada pela Federação Norte-riograndense de Futebol (FNF) na última terça-feira (17), após recomendação da CBF.

Num primeiro momento, chegou-se a cogitar partidas com portões fechados. América vs Globo e Força e Luz vs Assu estavam com jogos marcados para a última quarta e quinta, respectivamente, mas com o anúncio, os jogos foram remarcados.
Neste primeiro momento, o Campeonato Potiguar está paralisado por 15 dias. A Copa do Nordeste, que tem a participação de ABC e América, foi suspensa por tempo indeterminado.

Campeonato Potiguar de 1918

PRIMEIRO TURNO
18 de agosto
ABC 2x0 Centro

01 de setembro
Centro 6x0 América

15 de setembro
América 3x0 ABC

SEGUNDO TURNO
29 de setembro 
Centro 0x0 ABC

13 de outubro
Centro 3x0 América

ABC x América. Jogo não realizado

Obs.: Até 1995, uma vitória no futebol valia 2 pontos e o empate 1 ponto. Após isso, um triunfo passou a valer 3 pontos e o empate permaneceu valendo 1 ponto. A FIFA aplicou a regra após testes e estudos da Football Association (FA).

Fonte: Marcos Trindade