HISTÓRIAS CLERICAIS VERDADEIRAS

Publicação: 2020-07-07 00:00:00
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Valério Mesquita
Escritor

Dom Marcolino Esmeraldo de Souza Dantas, quarto bispo e primeiro arcebispo de Natal, no início da década de 1950, vendo o esforço e a dedicação do professor Ulysses de Góes, recomendou a seus padres que se empenhassem por revitalizar a Congregação Mariana em suas paróquias. Tentando sensibilizar os jovens da sua paróquia, uma sacerdote mais voltado para o escotismo e ação católica, então em moda, desiludido em seu esforço, escreveu esta pérola no Livro de Tombo de sua paróquia. “É impossível organizar a congregação mariana, aqui. Dos velhos congregados: cinco estão caducos, dois malucos e seis moucos. Outros possíveis candidatos e simpatizantes vivem amasiados. Parece não existir donzelos como pretende o arcebispo”. Este ficou raivoso e obrigou o padre a rasgar a folha do Livro de Tombo. “De escoteiro, você não tem nada. Cadê o sempre alerta?”, disse-lhe o velho prelado. 

Cônego Deoclides de Brito Diniz era um sacerdote zeloso, dedicado, piedoso, mas simples e gorducho, obeso e bonachão. Em Jucurutu, sua primeira paróquia, as moças namoradeiras, quando tinham um relacionamento afetivo mais apimentado, falavam em: “dar linha”. Certa feita, do altar, o vigário, atento aos bons costumes e à moral, proferiu um sermão objetivo e realista: “As moças aqui começam a dar linha (e passando as mãos sobre sua barriga saliente e obesa),  depois vêm com o novelo para eu benzer e batizar”!  Desnecessário dizer que, a partir do seu sermão, os pais ficaram mais vigilantes e as jovens rezavam pela saída do vigário.

Cônego Estanislau Piechel, sacerdote polonês, pároco de Florânia e Jucurutu, por duas vezes. Foi ser vigário de Florânia pela segunda vez, após a derrota política de seu colega e amigo Cônego Ambrósio que havia perdido o pleito para Dona Santa Laurentino, mãe do saudoso Padre Sinval. O referido padre polonês era muito rígido quando aos aspectos sociais das festas dos padroeiros. Em Jucurutu, era prefeito Manoel Francisco da Rocha, conhecido por todos como Manoel Gangão, casado com Dona Nita Gangão, anfitriões do pároco. Estava prestes de terminar a festa de São Miguel, a mais animada da cidade. Dona Nita, acolitada de Nelson Queiróz (promotor de justiça da comarca), na sua juventude chegado a uma arrasta-pé, convidou um célebre conjunto de Currais Novos para tocar o baile da festa. Acontece que o conjunto tinha outro compromisso em Caicó, às 23 horas e teria que tocar das 17 às 21.30 h. Nita e Nelson anunciaram o baile, a partir das 17.30 h e queriam antecipar a procissão. Antes da procissão, o revendo fez um sermão desaforado e disse: “Não quero mais ficar nessa paróquia. Esta terra é um GANGO e o prefeito é GANGÃO”. Foi embora antes da procissão e a música rolou, antes da hora. Antes de partir, o padre voltou suas turbinas contra os organizadores, dizendo (referindo-se a Nelson): “Senhor é advogado por correspondência” e a Nita desferiu: “Fique com o seu Gangão”! 

Monsenhor Walfredo Gurgel e Dinarte Mariz eram grandes amigos do velho João Medeiros (genitor de padre João Medeiros Filho). Ambos eram comensais da família jucurutuense. Certo dia, houve um almoço festivo, em honra de São Sebastião. Além dos ex-governadores citados, estavam presentes Stoessel de Brito e Plínio Dantas Saldanha (conhecido por Marinheiro, parente próximo de dona Aparecida, esposa de João Medeiros). O almoço era também uma espécie de despedida de Joãozinho que iria entrar, em breve, para o seminário. O menino estava atento a todas as conversas dos adultos, gravando-as em sua memória privilegiada. Após a sobremesa, no momento do cafezinho, o nosso senador desfere uma pergunta ao monsenhor Walfredo, que degustava o seu cigarro. Dinarte pronunciou: “Walfredo, como padre, qual é a sua maior dificuldade em ser político”? O sacerdote, colocando outro cigarro em sua piteira, respondeu incontinenti: “Dinarte, a maior dificuldade é viver o que prega o ´Evangelho: que o vosso sim seja sim, o vosso não, não´”. E continua: “Quando o político diz Sim, quer dizer talvez, quando pronuncia talvez, significa não e se diz não, é porque não é político”. Dinarte, fitando bem o sacerdote (que apesar de adversário na política nunca deixou de ser seu amigo), pronunciou: “Meu caro monsenhor Walfredo, você não é do ramo. O político é o contrário da moça. Quando esta diz não, quer dizer talvez, e se diz talvez significa sim”. E o velho João Medeiros, arrematou: “E se diz sim, é porque não é mais de nada. Gargalhada geral, Depois tomaram o licor de saída.