Histórias colhidas nas miudezas da cidade

Publicação: 2018-06-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Nessa vida corrida, de gente indo pra lá e pra cá enfurnada no carro, vidrada no celular, o contato com a rua se tornou algo diluído. Pequenos acontecimentos do cotidiano, hoje mais do que nunca, passam batido para grande parte das pessoas. Menos para o jornalista e escritor Osair Vasconcelos. Em meio a sua rotina de trabalho, ele encontra brecha para observar o que está em volta. Coisas despretensiosas como a chanana que brota num canteiro, o popular que grita na calçada avisando que a chuva se aproxima, uma manga que cai de madura no chão. Essas miudezas ganham o toque literário e reflexivo de Osair na coletânea de crônicas “Retratos fora da parede”. Publicado pela editora Z, o livro será lançado nesta quarta-feira (13), a partir das 18h, na Galeria Fernando Chiriboga, no Midway Mall.

Autor descreve o burburinho de coisas e personagens reais que circulam pela Cidade Alta
Autor descreve o burburinho de coisas e personagens reais que circulam pela Cidade Alta

Osair acredita que nesses tempos ásperos, de intolerância e raiva, encontrar histórias que fujam de radicalizações e temas pesados está difícil. Mas o escritor defende que elas existem. No entanto, “viraram retratos fora da parede”. Dai o nome do livro.

“Escrevo sobre temas do dia a dia. Histórias que acontecem nas calçadas, praças, ruas. Lugares que as pessoas deixaram de frequentar e observar. São histórias que não estão mais expostas”, conta o autor em entrevista concedida em sua sala no Tribuna de Justiça – onde ocupa o cargo de secretário de comunicação social. Foi justamente da sua sala, olhando pela janela que dá de frente para a praça André de Albuquerque, que muitas ideias de crônicas surgiram. “Olha lá aquele rapaz deitado no banco da praça. às vezes basta isso para uma história iniciar. Começo a imaginar no que ele está pensando e o texto vem”.

Nascido e criado em Macaíba, Osair costuma se inspirar na sua cidade de origem. Obras como “A cidade que ninguém inventou” (2010) e “As pequenas histórias” (2015) traziam memórias da infância e contos que baseados em personagens macaibenses. Mas em “Retratos fora da parede” a cidade ficou de fora. “Não tem Macaíba, salvo à minha alma de macaibense”, afirma.

É em Natal, mas precisamente na Cidade Alta, que as histórias de Osair se desenrolam. Seus textos podem focar num bate papo com um engraxate da praça Kennedy, apelidado de Campeão, ou de um grito de “Lá vem”, que faz todos na rua olharem para os lados até entenderem que se trata da chuva. “Parto de fatos irrelevantes que não acrescentam nada na vida da cidade”, conta.

Algumas crônicas do livro chegaram a ser publicadas no Facebook, mas a maioria do material é inédita. Os textos foram escritos no ano passado, com exceção de dois – “A flor depois da chuva”, feito há 10 anos com a colaboração da filha Louise, criança na época, e “Peixe Pedra”, de três anos atrás.  “A crônica que escrevi com a minha filha tem uma carga sentimental. Estava colocando ela pra dormir, mas quando lhe disse 'bora dormir que a cidade amanhã vai estar cheia de chanana' ela perdeu o sono. Queria que eu explicasse o que era chanana”, lembra o autor.

“Retratos fora da parede” é o quarto livro do autor, sendo o primeiro voltado quase que exclusivamente para crônica, embora o gênero já tenha sido explorado levemente por ele nas obras anteriores e com destaque nos jornais TRIBUNA DO NORTE e Diário de Natal, onde atuou como jornalista. “A crônica é um tipo de texto muito brasileiro, muito ligado ao jornalismo. Mas em certo sentido é o anti-jornalismo”, comenta. Dentre suas referências no gênero, Drummond é uma das principais. “Gosto mais das suas crônicas que das poesias. Acompanhava os livros e os textos no Jornal do Brasil”, diz. Dos autores locais, ele cita Sanderson Negreiros, Vicente Serejo, Dorian Jorge Freire e Berilo Wanderley, de quem foi aluno.

“A crônica é uma coisa muito urbana, é ambientada em cidades de vida mais agitada, em bairros antigos, de alma, onde os personagens vivem a bastante tempo no lugar e são como parte da paisagem”, comenta Osair. É por isso que suas histórias quase sempre surgem no centro histórico de Natal, onde o autor concentra suas caminhadas. “Gosto muito de andar pela Cidade Alta, conversar com as pessoas. Minhas crônicas vêm dessas andanças. Sou de uma geração que a vida estava nas ruas, não na internet”.

A obra traz na capa e na abertura de cada uma das quatro partes, artes de Ângela Almeida. As imagens integraram a exposição “Fingimento das palavras” (2017), no Instituto Histórico e Geográfico do RN, em 2017. A orelha do livro é assinada pelo biólogo e escritor Florentino Vereda, e o prefácio é de Macius Cortez.

Serviço
Lançamento do livro “Retratos fora da parede”, de Osair Vasconcelos

Dia 13 de junho, às 18h

Galeria Fernando Chiriboga (3º piso do Midway Mall)

Trecho da crônica “Entretempos”
“Cruzei com o autor das esculturas gigantescas, cumprimentei-o pela obra da pescadora chantada num porto fluvial distante e ele me mostrou, por essa ilusória janela do mundo que é o visor de um celular, a sua nova criação, David e sua funda, com 5,7 metros de altura, sem contar os sete metros do pedestal, erguida em algum outro porto esquecido, o pequeno herói construído de tal forma que ora ele olha para o mar, ora para a terra, milagres do talento artístico”.


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