Histórias da velha Faculdade de Direito

Publicação: 2018-03-07 00:00:00 | Comentários: 0
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No final dos anos 50 uma decisão da Assembleia Legislativa do RN revoltou os potiguares, levando o movimento estudantil às ruas. Tratava-se da aprovação em benefício próprio do aumento dos subsídios mensais dos deputados. Num ato de total repúdio aos deputados, alunos da antiga Faculdade de Direito de Natal foram à sede do poder legislativo na calada da noite e raptaram o busto do jurista potiguar Amaro Cavalcanti (1849-1922), patrono da Assembleia. Na manhã seguinte a estátua estava muito bem instalada no salão de entrada da Faculdade, à época sediada na Ribeira. O Diretório Acadêmico da Faculdade, que leva o nome do jurista, assume a autoria da ação, justificando que a memória de Amaro Cavalcanti seria melhor preservada entre os estudantes do que entre aqueles deputados.

Livro traz recortes de acontecimentos que marcaram os primeiros anos da escola de Direito
Livro traz recortes de acontecimentos que marcaram os primeiros anos da escola de Direito

O inusitado episódio é apenas uma das várias passagens que marcaram a história da Faculdade de Direito de Natal, cuja rica trajetória foi registrada em 1988 no livro “Faculdade de Direito de Natal – Lutas e Tradições (1949-1973)”, do escritor, pesquisador e advogado Gileno Guanabara. Três décadas depois, a obra ganha uma segunda edição, revista e ampliada, que sai pela editora Sebo Vermelho. O lançamento do novo livro acontece nesta quarta-feira (7), às 18h, no Temis Clube Balcão Bar (Sede do América F. C).

De acordo com Gileno, a história da Faculdade de Direito em grande parte se mistura com a história do Movimento Estudantil potiguar. Mas ele ressalta que a pluralidade de correntes ideológicas no Brasil da época também se traduzia entre os alunos. “Havia desde as correntes de pensamento mais conservadoras até as mais radicais, passando por movimentos da juventude católica”, diz em entrevista ao VIVER.

“A gente se divergia, mas ninguém atacava ninguém. Havia respeito. Entre todos da faculdade existia o entendimento de que as contradições são algo natural da sociedade”, conta o autor, que na juventude participou do movimento estudantil e integrou o PCdoB. Ele lembra também que embora houvesse divergências, os estudantes convergiam em pontos comuns. “Eleições Diretas, Anistia, Assembleia Constituinte, todos esses movimentos eram defendidos pela maioria dos alunos. Era uma época de muito altruísmo e romantismo”.

Segundo Gileno, foi durante o Regime Militar que a Faculdade de Direito viveu seus anos mais difíceis. “Com a Ditadura a Faculdade sofreu bastante. Vários alunos penaram. Lembro muitos daqueles jovens que estiveram na mira dos militares”, conta o autor. Um caso emblemático do período foi por ocasião do primeiro concurso do corpo docente da Faculdade, em 1964. Concorreram à vaga para professor da cadeira de Teoria Geral do Estado cinco candidatos, dentre eles, Luís Inácio Maranhão Filho, irmão de Djalma Maranhão, ex-prefeito de Natal.

“Era um homem muito inteligente, mas com o Golpe Militar foi preso por estar ligado aos comunistas. Sua prisão foi dias antes da avaliação para o concurso. Outro candidato, o Túlio Fernandes, ainda tentou adiar a prova para dar tempo da soltura de Luís Maranhão, mas ele continuou preso até o fim do ano”, lembra Gileno.

O livro não fica apenas nos episódios da militância estudantil. No livro o leitor percorrerá a história da Faculdade de Direito de Natal desde as circunstâncias que levaram a sua criação, os primeiros anos de funcionamento, no Atheneu de Petrópolis, sua fase áurea na Ribeira, no prédio do antigo Grupo Escolar Augusto Severo, com registros do primeiro vestibular, do corpo docente, do quadro de disciplinas e da biblioteca, até o fatídico ano de sua incorporação ao Centro de Ciências Sociais Aplicadas da UFRN, em 1973, quando a faculdade se transforma em curso de Direito.

Serviço: Lançamento do livro “Faculdade de Direito de Natal”, de Gileno Guanabara. Dia 7 de março, às 18h. Temis Clube Balcão Bar (Sede do América, av Rodrigues Alves, Tirol). Preço: R$ 50


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