Histórias e vivências de 'uberistas'

Publicação: 2019-07-21 00:00:00 | Comentários: 0
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A primeira experiência de reportagem colaborativa da TRIBUNA DO NORTE traz algumas vivências e histórias que marcam a rotina de motoristas de aplicativos em Natal. Oito profissionais descrevem a rotina de trabalho, que inclui muitas horas de trabalho ao volante e medo por causa da insegurança. Mas há também relatos do dia a dia com passageiros, as viagens que muitas vezes têm como destinos lugares indesejáveis e outras que entram para uma espécie de anedotário da categoria contadas a outros passageiros ou através de redes sociais como os grupos de whatsapp.

Rafhael Wilkyson, 28 anos, é músico percursionista e técnico de áudio (sonoplasta). É motorista de aplicativo há 4 meses.
Rafhael Wilkyson, 28 anos, é músico percursionista e técnico de áudio (sonoplasta). É motorista de aplicativo há 4 meses.

- Moço, tô com pressa. Vou para a Zona Norte. Você não vai ficar com raiva se eu lhe dizer uma coisa? (a pergunta foi feita por uma passageira já acima dos 40 anos ao motorista)

- Não (respondeu o motorista de aplicativo)

- Todo homem só presta pra levar chifres! (exclamou a mulher)

A descrição do diálogo acima foi feita pelo motorista de aplicativo Rafhael Wilkyson, 28, que também é músico percursionista e técnico de áudio (sonoplasta).

Rafhael disse que recebeu a chamada do bairro de Tirol, Zona Oeste, com destino a um bairro da Zona Norte via Ponte Newton Navarro. Uma viagem tortuosa com cenas de choro compulsivo, ameaça de se atirar da ponte por parte da mulher que também revelou o desejo de matar o marido.

O motivo da fúria teria sido uma possível traição. “Ela me disse que tinha ligado para o marido e quem atendeu foi a ex-mulher dele”. Quando passou pela ponte ela disse que queria se jogar e eu fiquei com medo, afirmou o motorista. Segundo ele, quando chegou na rua, ela mandou parar o carro na esquina e foi correndo para casa. Raphael comentou que passou na frente da casa e ouviu o casal discutindo alto mas preferiu não saber o resultado.

Rafhael disse que jamais imaginou passar por uma situação como a descrita acima mas como motorista de aplicativo já se acostumou a coisas “inusitadas” por parte dos passageiros.

Casado, pai de filha de 4 anos, formou uma banda com dois primos, e hoje, sua atividade principal é a música. Com o Uber consegue R$ 1.500,00 por mês trabalhando das 6h às 18h que complementam a renda de música que chega a R$ 1.000,00 dependendo do período do mês.

Mas nem tudo é maravilha no Uber. Ele disse que a violência assusta e já sofreu tentativa de assalto, além ter como passageiros pessoas que “não eram boas”.

Paulo Henrique de Morais, 28 anos, trabalhava no setor de  indústria de energia eólica. Há dois anos, atua como Uber.
Paulo Henrique de Morais, 28 anos, trabalhava no setor de indústria de energia eólica. Há dois anos, atua como Uber.

Paulo Henrique de Morais, de 28 anos, foi um dos primeiros a começar a trabalhar como motorista de Uber, assim que o aplicativo chegou à capital potiguar, há cerca de dois anos. Natural de São Paulo mas residindo em Natal há 20 anos, Paulo trabalhava no setor de compras para a indústria de energia eólica quando optou por trocar sua fonte de renda para o aplicativo. O objetivo, de acordo com ele, era ter mais flexibilidade nos horários e, assim, poder passar mais tempo com a esposa, que estava no final da gravidez.

Dois anos depois, afirma que a escolha se mostrou positiva. “Consegui manter o mesmo nível salarial que eu ganhava antes”, conta. A possibilidade de regular seus próprio horário de trabalho, para ele, continua sendo o ponto mais positivo do aplicativo. Ele trabalha entre 8h e 10h por dia, preferencialmente durante a manhã e a tarde, por questão de segurança.

Apesar de seus rendimentos como motorista de Uber serem quase equivalentes ao seu salário anterior, conta que não investe, ainda, na previdência. “Pela nova regulamentação, vamos ser obrigados a pagar, mas a princípio eu não fazia. De certo modo eu acho positivo, porque vou estar contribuindo mesmo sem muita perspectiva de me aposentar”, diz Paulo.

Para ele, no entanto, o ponto mais negativo do trabalho é a falta de incentivo. “Sei que a Uber investe muito na questão de manter o sistema mas, na prática, o maior investimento é nosso, dos motoristas, que têm que manter carro, combustível...”, afirma. Desde que começou a trabalhar para a empresa, em 2017, o preço do combustível vem crescendo, sem um crescimento proporcional do valor das corridas oferecidas pelo sistema do aplicativo. “Ainda vale a pena, mas eu preciso trabalhar mais”, conclui.

Lucas Dantas, 25 anos, era auxiliar de cozinha. Trabalha como motorista de aplicativo há dois anos.
Lucas Dantas, 25 anos, era auxiliar de cozinha. Trabalha como motorista de aplicativo há dois anos.

Um acidente de moto, no final de 2017, levou o auxiliar de cozinha Lucas Dantas para trás do volante. Os planos eram outros, bem diferentes, e incluía concluir o curso de Fisioterapia – meta “não descartada, mas adiada”, garantiu. Lucas dirige há quase dois anos com o aplicativo da Uber, tem mais de 3,9 mil viagens no currículo, e contou que fatura em média até R$ 600 reais (livres) por semana. “Como não tenho filho nem aluguel de casa para pagar, não rodo tanto. Tem gente que precisa rodar mais, eu só tenho o carro mais minhas contas particulares”. Ele roda em média 250 km por dia (entre 5 mil e 6 mil km por mês), seis vezes por semana. “Mas têm meses que faço 10 mil km”.

Antes de se aventurar nos aplicativos de transporte, nunca tinha trabalhado como motorista profissional. “Hoje também atendo particular, então às vezes fico desconectado do aplicativo, estou sempre fazendo alguma coisa para ganhar um dinheirinho extra, a flexibilidade no horário é uma vantagem”, garante Dantas, que trabalha como ‘horista’ no restaurante. “Só ganhava se trabalhasse, não podia ficar parado; tinha um carro em casa e acabei entrando no Uber”.

Geralmente trabalha das 7h às 20h, “no máximo até às 22h dependendo do movimento. Isso de segunda à quinta, por que da sexta para o sábado rodo a noite toda, o sábado todo e descanso no domingo”.

Os aplicativos de transporte individual fazem parte de uma realidade recente no Rio Grande do Norte, e Lucas pode ser considerado um veterano dentro desse meio: quando fez o cadastro no aplicativo, a concorrência era quatro vezes menor – em dois anos, de acordo com entidades locais que representam os motoristas de aplicativos, o número de cadastrados saltou de 2 mil para mais de 8 mil. A Uber não revela os números exatos de cadastrados no RN, mas sabe-se que cerca de 50% dos cadastrados estão inativos.

“A concorrência aumentou bastante, mas acredito que só a metade esteja ativa, e a maioria trabalha só nos fins de semana como um bico para complementar a renda. Faço parte do grupo que trabalha o dia e tira a atividade como profissão”.

Entre as dificuldades da profissão, além do desfalque no apurado devido as taxas cobradas pelo aplicativo sobre cada corrida (que varia de 25% a 40%) e do preço do combustível (o carro de Lucas é a gás natural), ele cita a insegurança como maior dificuldade: já sofreu três tentativas de assalto. “Prefiro não rodar à noite, justamente quando tem mais demanda, devido esse risco”.

Marcelo Teixeira, 29 anos, é formado em Redes de Computadores. Trabalha como motorista de aplicativo há 10 meses
Marcelo Teixeira, 29 anos, é formado em Redes de Computadores. Trabalha como motorista de aplicativo há 10 meses

Quando perdeu o emprego há 10 meses, o especialista em Redes de Computadores, Marcelo Teixeira, se viu em “desespero” por causa do filho de 4 anos que tem que sustentar. Deixar currículos e esperar que fosse chamado para um emprego não era suficiente para quitar as dívidas. Desde então viu como alternativa se cadastrar em um aplicativo de transportes. Desde então, essa tem sido a sua única renda.

Segundo Marcelo, muitos colegas da mesma emprega – que decretou falência e pegou todos os surpresa – também estão trabalhando como motoristas. Todos os dias, ele trabalha das 7h até bater sua meta, que é de R$ 200 por dia, faz de 20 a 29 corridas. “Com o dinheiro que ganho aqui pago parcelamento do carro, aluguel da casa, manutenção e minhas contas. Em alguns dias consigo atingir a meta trabalhando só durante o dia, em outros tenho que me estender até a noite”, explicou.

A insegurança é um dos seus medos, mas tenta tomar precauções para não ser pego de surpresa. Apesar de gostar do trabalho que exerce, está se organizando para voltar a atuar em sua área de formação. “Gosto de fazer isso, de me comunicar com as pessoas, mas quero voltar a minha área, que também gosto e sei fazer bem”, disse.

Rafael Guilherme, 26 anos, é pintor. Trabalha como motorista de aplicativo há 5 meses
Rafael Guilherme, 26 anos, é pintor. Trabalha como motorista de aplicativo há 5 meses

Dirigir para um aplicativo de viagens foi uma saída que Rafael Guilherme encontrou para complementar a renda do trabalho como pintor. “Gosto da flexibilidade de fazer o meu horário e trabalhar para mim”, explicou. A rotina do motorista é puxada: dirige das 5h da manhã às 22h. O carro que dirige é alugado, e para tirar uma lucro precisa trabalhar muitas horas. “É puxado, mas eu gosto do que faço”, disse Rafael.

A exposição do motorista a criminalidade, como é o caso de assaltos, faz com que o motorista selecione mais os passageiros que irá pegar. “Temos um grupo no whats e sempre nos comunicamos das corridas, se acontecer alguma coisa com algum de nós o pessoal vai ter como saber mais rápido”, frisou.

O motorista também reclamou do assédio de sofre. Em uma corrida, se recorda que teve que ameaçar encerrar a corrida para que um passageiro encerrasse os assédios. “É complicado. Tentamos levar numa boa, eu sou uma pessoa muito tranquila, mas nem sempre a pessoa entende que está na hora de parar”, disse.

José Ribamar Câmara de Medeiros, 69 anos, é professor aposentado. Trabalha como motorista de aplicativo há 4 meses
José Ribamar Câmara de Medeiros, 69 anos, é professor aposentado. Trabalha como motorista de aplicativo há 4 meses

A aposentadoria trouxe ao professor José Ribamar, 69 anos, a “tão sonhado” sossego, mas trouxe também um sentimento que não estava preparado para conviver: a solidão. Quando surgiu o advento do transporte via aplicativo, encontrou um meio para não ficar sozinho e conhecer novas pessoas. “Fico aqui para não ficar sem fazer nada, amo conversar com as pessoas”, disse.

Durante 32 anos foi professor de informática da antiga Febem, que abrigada jovens em conflito com a lei. Lá, viu muitos se perderem para sempre, mas também viu pessoas desacreditas se recuperarem. A esperança de melhorar o dia das pessoas é o combustível que move o idoso. “Lembro de uma vez que uma passageira diagnosticada com câncer maligno entrou no carro chorando, e saiu sorrindo. Ficamos amigos e dias atrás ela me ligou para contar que o câncer regrediu”, contou.

Antes de ser professor, foi linotipista da Tribuna do Norte, Diário de Natal e Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro. “Fui muito feliz nessa profissão, fiz amigos”, disse. O linotipo é uma máquina tipográfica, usada antigamente para formar as frases e textos nas páginas de jornal.

Leonardo Lopes da Silva, 33 anos, trabalhava no setor de vendas externas de serviços e produtos e, há um mês e meio, trabalha exclusivamente como motorista de Uber
Leonardo Lopes da Silva, 33 anos, trabalhava no setor de vendas externas de serviços e produtos e, há um mês e meio, trabalha exclusivamente como motorista de Uber

Leonardo Lopes afirma ser um "novato" no mundo do transporte por aplicativos. Começou a trabalhar como motorista para a Uber há um mês e meio. Antes, atuava na área de vendas externas, levando mercadorias, mas perdeu o emprego há dois meses.

Sua rotina de trabalho é intensa: costuma começar às 6h da manhã, e para por volta das 10h, quando o número de chamadas costuma cair. Retorna ao meio-dia, quando a demanda aumenta novamente, e continua rodando até as 14h30, quando faz um segundo intervalo. Volta às 16h30, e segue trabalhando até as 20h. “Não são todos os dias que eu faço assim, mas essa é a rotina maior”, afirma. A rotina segue inclusive nos fins de semana, que concentram o maior número de chamadas pelo aplicativo, de acordo com ele.

Mesmo sabendo que a madrugada pode ser lucrativa para os motoristas, prefere encerrar cedo as corridas. “Não é uma questão de preconceito ou de bairros, mas pela nossa própria segurança”, relata.

Enquanto a falta de segurança é uma de suas principais críticas ao novo trabalho, a possibilidade de fazer seus próprios horários é o ponto mais positivo, de acordo com ele. Mesmo assim, não tem intenção de continuar no serviço. “Não pretendo continuar. É bom, mas é cansativo, e não pretendo continuar no serviço”, afirma. Em um mês e meio atuando na Uber, Leonardo fez mais de mil viagens pelo aplicativo. “Tenho algumas propostas e pode ser que eu volte ao mercado de trabalho. Minha área era de vendas externas, então é praticamente o trabalho de Uber, mas não levo passageiros, e sim visitar locais em que precise vender os serviços ou materiais”, completa.

O motivo para deixar o aplicativo não é salarial, e sim de segurança, segundo ele. “Às vezes paga bem menos que o Uber, mas é mais seguro, e essa questão é a que pesa mais”, afirma.

Uber
Douglas Confessor da Silva, 23 anos, é universitário, concluindo Odontologia este ano. Trabalha em aplicativos há dois anos

Foco nas metas e nada de preguiça! Esse é o lema de Douglas Confessor, que pretende encerrar a carreira de motorista de aplicativos no próximo mês de dezembro. “Meu objetivo é rodar até o fim do ano. Estou me formando (em Odontologia), concluindo o período de prática, então atendo pacientes pela manhã e rodo a partir da tarde. Depois apareçam lá no meu consultório”, disse o rapaz de 23 anos para a equipe de reportagem com segurança.

Segundo o perfil de Douglas no cadastro da Uber, ele fala inglês e espanhol. Trocou o trabalho em um restaurante, que rendia R$ 1,5 mil por mês com carteira assinada, para dirigir o próprio carros pelas ruas de Natal. “Como trabalho muito e não tenho preguiça, chego a fazer (bruto) de R$ 1,8 mil a R$ 2,1 mil por semana. Tirando as despesas com o carro, me sobram uns R$ 1,5 mil por semana. Antes só conseguia pagar as contas e muito mal”, lembrou.

Douglas começou a trabalhar na área há dois anos, e desenvolveu a própria técnica para atender a demanda de três operadoras: “Rodo em três operadoras (Uber, 99 Pop e InDriver), e estou sempre buscando passageiros que me levem próximos de outras corridas”, ensina.

Trabalha cerca de 11 horas por dia, das 14h da tarde até 1h da madrugada, de segunda a quinta (230 km/dia), mas nos sextas e sábados, roda em média 300 km/dia, o expediente termina quando o sol nasce. “Nos dias que trabalho na madrugada, como uma tapioca ‘super-recheada’ de R$ 7 que segura bem a onda. Não adianta deixar o apurado por aí, lanchando e almoçando caro, tem que saber potencializar o rendimento”, frisou.

Ele destaca que “para gostar de trabalhar como Uber tem que gostar de dirigir. Eu gosto. Tenho amigos que reclamam todo dia, por não gostarem de dirigir, por não ter paciência no trânsito. Eu ando tranquilo, média de 50 km/h a 60 km/h na cidade, em baixa rotação para o carro rodar macio e economizar combustível”. Douglas trocou de carro, circula com um sedã médio “mais confortável, que não me deixa fisicamente esgotado no final do dia como antes com um carro menor”.

Para garantir a segurança, costuma buscar os passageiros “de vidro fechado, principalmente em bairros da periferia. Observo de longe, se for suspeito vou embora. Na chuva o cuidado tem de ser redobrado, não dá para vacilar”. Ele acredita que os aplicativos deveriam adotar uma tarifa diferenciada durante a noite, “não é um horário usual, bem mais perigoso”.

Produziram esta reportagem: Aura Mazda, Mariana Ceci, Sílvio Andrade, Yuno Silva, Alex Régis, Magnus Nascimento e Lenart Veríssimo









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