Histórias sobre a arrogância

Publicação: 2019-12-08 00:00:00
Paulo Coelho
Escritor - paulo@paulocoelho.com.br


A arrogância do poder

Mestre e discípulo conversavam numa esquina, quando uma velha os abordou:

"Saiam da frente da minha vitrine!", gritou a velha. "Vocês estão atrapalhando os fregueses".O mestre pediu desculpas, e mudou de calçada.

 Continuaram a conversa, quando um oficial aproximou-se.

"Precisamos que o senhor se afaste desta calçada", disse o oficial. "O conde irá passar por aqui daqui a pouco".

"Que o conde use o outro lado da rua", respondeu o mestre, sem se mover. Depois se virou para seu discípulo:

"Não esqueça: jamais seja arrogante com os humildes. E jamais seja humilde com os arrogantes”.



A arrogância da santidade

O monge zen passou dez anos meditando em sua caverna, procurando descobrir o caminho da Verdade. Certa tarde, enquanto orava, um macaco aproximou-se.

O monge tentou concentrar-se.O macaco, porém, aproximou-se de mansinho e pegou a sandália do monge.

- Macaco danado! - disse o ermitão. - Por que veio perturbar minhas orações?

- Estou com fome - disse o macaco.

- Vá embora! Você atrapalha minha comunicação com Deus!

- Como deseja falar com Deus, se não consegue comunicar-se com os mais humildes, como eu? - disse o macaco.

 E o monge, envergonhado, pediu desculpas.



A arrogância da força

A aldeia estava ameaçada por uma tribo de bárbaros. Os habitantes foram abandonando suas casas, e fugindo para um local mais seguro. No final de um ano, todos haviam partido - exceto um grupo de jesuítas.

O exército bárbaro entrou na cidade sem resistência, e fizeram uma grande festa para comemorar a vitória. No meio do jantar, um padre apareceu.

“Vocês entraram aqui, e afastaram a paz do lugar. Peço por favor que partam sem demora.”

"Por que você ainda não fugiu?", gritou o chefe bárbaro. "Não vê que eu posso atravessá-lo com minha espada, sem piscar um olho?"

O padre respondeu calmamente:

"Não vê que eu posso ser atravessado por uma espada, sem piscar um olho?".

Surpreso pela serenidade diante da morte, o chefe bárbaro e sua tribo abandonaram o lugar no dia seguinte.



A arrogância da inveja

No deserto da Síria, Satanás dizia aos seus discípulos: "o ser humano está sempre mais preocupado em desejar o mal aos outros, que em fazer o bem a si próprio".

E para demonstrar o que dizia, resolveu testar dois homens que descansavam ali perto.

"Vim realizar seus desejos", disse para um deles. "Pode pedir o que quiser, que lhe será dado. Seu amigo receberá a mesma coisa - só que em dobro".

 O homem permaneceu em silêncio por longo tempo.

Finalmente, disse:

 "Meu amigo está contente, porque terá sempre o dobro, seja qual for meu desejo. Mas consegui preparar-lhe uma armadilha: o meu pedido é que você me deixe cego de um olho".