"Hoje, meu maior sonho, é entrar na fila"

Publicação: 2019-04-14 00:00:00 | Comentários: 0
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Ao passo em que a fila para transplante de córnea tende a diminuir e pode chegar até o zero, a fila para o transplante de rins tem capacidade para, praticamente, triplicar de tamanho, caso venha a corresponder à porcentagem recomendada pelas organizações de saúde  sobre acesso de pacientes em hemodiálise à fila.

Juliana Almeida, 33, aguarda ainda sua vez para entrar na fila dos que  esperam por um rim no Rio Grande do Norte
Juliana Almeida, 33, aguarda ainda sua vez para entrar na fila dos que esperam por um rim no Rio Grande do Norte

“Quando a gente tem uma fila grande de pacientes aptos a receber o rim, significa que esses pacientes estão tendo acesso à fila. Existe uma porcentagem que é recomendada pelo regimento de que 30% dos pacientes dialíticos deveriam estar em fila de lista de transplante”, afirma Raissa Marques. Até abril deste ano, 208 aguardavam para receber o órgão no Estado. “Essa fila poderia ter cerca de 600 pessoas, pela quantidade de pacientes que temos fazendo hemodiálise”, afirma a coordenadora da Central de Transplantes.

Alguns fatores contribuem para a dificuldade dos pacientes em acessarem a fila de transplantes. O primeiro, e principal deles, de acordo com a coordenadora, é a centralização do serviço de transplantes na capital. Apenas dois hospitais fazem transplantes renais no Rio Grande do Norte: o Hospital do Coração, particular, e o Hospital Universitário Onofre Lopes, público. Ambos localizados na capital.

“Temos apenas dois hospitais fazendo os transplantes, os dois na capital, mas temos pessoas fazendo hemodiálise em todo estado”, afirma. O processo para conseguir entrar na lista não é simples: é necessário fazer uma série de exames, além de consultar psicólogos e assistentes sociais ao longo do processo.

Muitos, por morar no interior, ficam dependendo dos transportes fornecidos pelos municípios para conseguir fazer os exames na capital, o que nem sempre é disponibilizado. “Há até mesmo uma fuga para outros estados, por exemplo, dos pacientes de Mossoró, que vão para Fortaleza, por ser mais perto de lá e a locomoção ser às vezes mais fácil”, conta Raissa.

Para os que não possuem uma rede de apoio, a situação é duplamente desgastante – e é com Amarildo Nobre, integrante da coordenação da Associação de Pré e Pós Transplantados do Rio Grande do Norte, que muitos contam para lidar com os trâmites burocráticos na capital.

De forma voluntária, Amarildo peregrina pelos hospitais da cidade quase todos os dias da semana – na semana que a equipe da TRIBUNA DO NORTE o entrevistou, já tinha ido três vezes ao HUOL deixar e marcar exames de pacientes do interior. “Quando saí da minha cirurgia, prometi a mim mesmo que ia me dedicar a ajudar quem estivesse nessa situação. Só quem sabe o que é estar nessa situação é quem está preso a uma máquina de hemodiálise, sem poder fazer planos, sem poder viajar, porque se você se afastar, pode morrer”, afirma.

Dez anos e três meses após sua cirurgia, Amarildo conta que encontra-se bem de saúde. “Melhor até do que antes da insuficiência renal, porque passei a me cuidar mais, tomar cuidado em todos os exames, me preocupar mais com minha saúde”, relata.

A melhoria na qualidade de vida é o que motiva Juliana Almeida a buscar uma vaga na fila para receber um órgão. Com 33 anos, Juliana, assim como Amarildo, possui insuficiência renal. Pouco tempo depois de receber o diagnóstico, desenvolveu também diabetes, que levou à amputação de sua perna esquerda. Ela se emocionou ao contar, à equipe de reportagem, sobre seu processo de tratamento.

“Passei por muita coisa, mas graças a Deus estou aqui hoje. Diabetes, hipertensão. Minha perna foi amputada, já entrei em coma. Mas não desisto, e hoje sonho com o dia em que vou entrar na fila”, afirma. Foram oito anos de tratamentos e, três anos atrás, ela contraiu uma bactéria durante a hemodiálise, pelo catéter, e que afetou seu coração.

“Antes eu não ligava para essa história do transplante. Quando eu cheguei na hemodiálise, eu tinha pra mim que aquilo era o fim. Fim da linha mesmo. Muita gente pensa assim, não sabe nem o que é de verdade a hemodiálise.”, relata Juliana, que teve que deixar o trabalho de empregada doméstica para poder fazer o tratamento. Hoje, consegue se sustentar graças ao benefício do INSS.

Aos poucos, no entanto, ela afirma que foi constatando que a vida com a insuficiência renal era dura, porém não impossível. “Você vai vendo que as pessoas conversam, riem, vão se adaptando. Dá pra viver, com limitações, mas dá pra viver e encontrar alegria ainda”, relata.

Três anos após ter contraído a bactéria, feito o tratamento e se curado, Juliana iniciou o processo para fazer os exames necessários para entrar na fila de transplantes. Há alguns meses, no entanto, uma notícia colocou em espera a expectativa: a bactéria voltou, e um novo tratamento seria necessário antes que ela pudesse concluir os exames. A notícia, no entanto, não a desanima.

“Daqui a seis meses vou estar lá fazendo meus exames todos de novo. Foi a força de Amarildo que me inspirou, e é a vida que eu posso ter depois desse transplante que me faz continuar querendo tentar. Minha esperança e meu sonho é esse. Se Deus quiser, vai se realizar. Quero sair, quero viajar, quero viver e ter uma vida melhor".







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