Homem é espancado e morto em Porto Alegre

Publicação: 2020-11-21 00:00:00
Um homem negro foi espancado e morto por dois homens brancos em uma unidade do supermercado Carrefour no bairro Passo D'Areia, na zona norte de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, na noite de quinta-feira, 19, véspera do Dia da Consciência Negra. Um dos agressores era segurança do local e o outro, um policial militar temporário. A vítima, João Alberto Silveira Freitas, tinha 40 anos. A Polícia Civil do Estado investiga o crime. Os dois homens foram presos em flagrante. O segurança, da empresa Vector, permanece no Palácio da Polícia de Porto Alegre, enquanto o policial foi encaminhado para um presídio da Brigada Militar (BM). 

Créditos: ReproduçãoImagens divulgadas nas redes sociais mostram o espancamentoImagens divulgadas nas redes sociais mostram o espancamento

Assim como o norte-americano George Floyd, João Alberto Freitas pode ter sido morto por asfixia, conforme indicou o primeiro resultado da necropsia realizada pela perícia em Porto Alegre. João Batista Rodrigues Freitas, de 65 anos, lamentou a morte de seu filho. "Nós esperamos por Justiça. As únicas coisas que podemos esperar é por Deus e pela Justiça. Não há mais o que fazer. Meu filho não vai mais voltar", disse.  

À reportagem, o pai descreveu a vítima como um homem tranquilo. "Eles (Freitas e a esposa) frequentavam o mercado quase todos os dias. Ele até me incentivou a fazer um cartão do mercado", lembrou. 

Em nota, o Carrefour disse que considerou a morte "brutal" e que "adotará as medidas cabíveis para responsabilizar os envolvidos". Afirmou também que vai romper o contrato com a empresa responsável pelos seguranças e que o funcionário que estava no comando da loja durante o crime "será desligado".

 O grupo acrescentou que a loja será fechada em respeito à vítima e que dará o "suporte necessário" à família da vítima.

Em vídeo nas redes sociais, o governador gaúcho, Eduardo Leite (PSDB), disse que o caso deixa a todos "indignados" pelo "excesso de violência que levou à morte de um cidadão, negro". "Todas as circunstância em que esse crime aconteceu estão sendo apuradas para que sejam punidos os responsáveis. Os inquéritos policiais estão sendo levados adiante, com muito rigor", acrescentou. 

Créditos: DivulgaçãoUm dos agressores acusados de participação no espancamento e morte é preso em Porto AlegreUm dos agressores acusados de participação no espancamento e morte é preso em Porto Alegre

Na mesma gravação, a chefe de Polícia do Estado do Rio Grande do Sul, delegada Nadine Anflor, diz que os dois homens gravados nas agressões responderão a homicídio triplamente qualificado. "Por asfixia,  por impossibilidade de resistência da vítima. As imagens são muito chocantes", comentou. Ela também se refere ao caso como de racismo. "A Polícia Civil hoje dá uma resposta a essa intolerância que aconteceu ontem".

Comandante da Brigada Militar, Rodrigo Mohr Picon, destacou que um policial militar temporário (função exercida por um dos agressores) somente pode realizar funções administrativas e não participativa de policiamento nas ruas. "Ele deve ser retirado da corporação e responder civilmente pelo crime."

Imagens 
Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram parte das agressões e o momento que o cliente é atendido por socorristas. Em uma das gravações, o homem é derrubado e atingido por ao menos 12 socos. Ao fundo, uma pessoa grita "vamos chamar a Brigada (Militar)".

Uma mulher vestindo uma camisa branca e um crachá, que também seria funcionária do supermercado, aparece ao lado dos agressores, filmando a ação. 

Ela já foi identificada e será ouvida. Outro registro  mostra a vítima desacordada, enquanto há marcas de sangue no chão. O vice-governador do Rio Grande do Sul e secretário estadual da Segurança Pública, Ranolfo Vieira Júnior, disse  ter ficado chocado com as imagens de agressão. "Sou delegado da Polícia Civil, tenho experiência de 30 anos na área de segurança e os vídeos pra mim falaram por si só. Aquelas imagens são horripilantes. É a denominação que eu tenho para aquilo. Embora tenha experiência, estou chocado, tive dificuldades para dormir", afirmou.

Ele informou que foi comunicado sobre o crime às 22h20 desta quinta e que acompanhou de maneira remota – por estar com covid-19 – a prisão, investigação e o flagrante. "Ficou determinado a apuração absoluta dos fatos. Já tem dois indivíduos recolhidos, perfeitamente identificados; já houve a atuação em flagrante pela prática de homicídio triplamente qualificado", afirmou.

Para Vieira Júnior, nada justifica a ação dos agressores. "Nós estamos apurando ainda o que ocorreu dentro do mercado. Parece que houve um desentendimento entre a vítima e funcionários do mercado, que de qualquer forma não justifica em nada a ação como um todo", disse.

Segundo o vice-governador, foi instaurado um processo administrativo disciplinar em relação ao caso do policial militar temporário. "É um processo sumário em razão dessa precariedade do contrato com base exatamente no flagrante. No máximo em 10 dias já temos a solução desse caso. Mas acredito que vai ser demitido sumariamente", disse Vieira Júnior.