Homenagem à França

Publicação: 2019-09-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Ivan Maciel de Andrade                                                                                                           
Procurador de Justiça e professor da UFRN (inativo)

Diante das hostilidades tupiniquins à mulher de Emmanuel Macron, presidente da França, veio-me a vontade de homenagear a cultura francesa. E resolvi fazê-lo na figura do escritor André Malraux (1901-1976). Um intelectual que teve uma vida de ação e suspense comparável à de personagens dos melhores romances de aventuras. Participou da revolução chinesa (responsável pela China que hoje conhecemos), das sangrentas batalhas anticolonialistas na Ásia, da grande mobilização contra o fascismo europeu, da famosa guerra civil espanhola (onde mereceu o reconhecimento de herói) e foi um dos líderes da resistência francesa na luta contra o nazismo e a ocupação alemã. Se fôssemos reproduzir, mesmo através de breves referências, suas incríveis e inimagináveis peripécias pelos lugares mais distantes do mundo, teríamos que escrever uma longa narrativa. Vejam bem, seria uma narrativa que teria de quixotesco apenas o idealismo, pois no mais estaria repleta de violência e de constante desafio à morte, dadas as demonstrações de bravura que lhe renderam fama universal.

Malraux foi ministro de todos os governos do general De Gaulle e o mais importante estrategista político desse mítico governante francês – o mais próximo, o mais influente, o mais prestigiado de seus colaboradores. Era um notável, um extraordinário orador. Tanto assim que ainda hoje é enaltecida nos mais requintados meios culturais franceses e de outros países europeus sua excepcional capacidade oratória (seus discursos foram reunidos na obra “Oraisons funèbres”). Suas peças oratórias já foram comparadas por historiadores literários a espetáculos teatrais que encenaram geniais dramaturgos.

Mas o que há de mais grandioso em Malraux é a sua produção literária. Ele é autor do romance “A condição humana” que, no julgamento de Mario Vargas Llosa, “é uma obra-prima, digna de ser citada junto às que escreveram Joyce, Proust, Faulkner, Thomas Mann ou Kafka.” Há outros livros de Malraux que me impressionam, entre eles “As vozes do silêncio” (“Les voix du silence”), que tenho numa edição em 2 vols da “Livros do Brasil” (Lisboa, 1988). O volume I trata de “O museu imaginário” e de “As metamorfoses de Apolo”. E o volume II de “A criação artística” e de “O preço do absoluto”.    

 Na página 358 do volume II, conta Malraux que escreveu a aventura de um homem que não reconheceu a sua voz gravada, “porque só a nossa garganta nos transmite a nossa voz interior”. A obra de arte não faz mais do que transmitir essa voz interior: “A voz do artista tira a sua força do fato de nascer de uma solidão que evoca o universo para lhe impor a inflexão humana; nas grandes artes do passado, sobrevive para nós a invencível voz interior das civilizações desaparecidas”. Prossegue: “Mas essa voz sobrevivente, e não imortal, eleva o seu canto sagrado sobre a inesgotável orquestra da morte.” É essa voz, somada a outras, que ouvimos em museus e bibliotecas. São as vozes do silêncio que estão nas obras de arte e que ressurgem vencendo contingências de espaço e de tempo. Vozes interiores que são próprias da condição humana e que se sobrepõem aos limites impostos pela morte. Malraux é símbolo da grandeza imortal da querida “douce France”, pátria intelectual da humanidade.




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