Horário de Verão teria acabado sem deixar saudade por acabar

Publicação: 2020-02-19 00:00:00
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Cassiano Arruda Câmara

 Se tivesse sido observado, este ano, o Horário de Verão, já teria terminado no último domingo. - Você lembrou-se disso?

Provavelmente, não.

Mas, não deve ser motivo de preocupação para ninguém. O Horário de Verão acabou sem deixar saudade.

Nem mesmo o Operador Nacional do Sistema Elétrico lembrou-se disso. Sem Horário de Verão, em 2020, o consumo de energia foi menor do que em 2019, quando o horário foi observado. Sem ninguém mexer nos ponteiros dos relógios, o consumo reduziu-se. Em janeiro desse ano, o consumo de energia em todo o Brasil ficou na casa dos 70 gigawatts, enquanto em Janeiro de 2019 – com toda a perda de tempo para mudar os hábitos dos brasileiros – registrou o consumo de 73 gigawatts, desmoralizando a lógica de que com uma hora a mais de luz solar no fim da tarde, as pessoas demorariam mais a acionar os interruptores.

UM POUCO DE HISTÓRIA
Estabelecido no Brasil por decreto, de 1931 (por Getúlio Vargas), ainda que de forma descontínua, suas origens na verdade remontam à Inglaterra do ano de 1907. Foi lá que um construtor londrino, membro da Sociedade Astronômica Real, chamado William Willett (1856-1915) deu início a uma campanha para diminuir o consumo de luz artificial ao mesmo tempo que estimulava o lazer dos britânicos.

O horário de verão no Brasil foi adotado pela primeira vez em 1 de outubro de 1931, através do Decreto 20.466, abrangendo todo o território nacional.

Houve vários períodos em que este horário não foi adotado, porém de 1985 até 2018 o horário de verão foi mantido anualmente. Até 2007, a duração e a abrangência geográfica do horário de verão eram definidas anualmente por decreto da Presidência da República. Em 8 de setembro de 2008 foi publicado o decreto n° 6558 que definiu regras para as datas de início e término do horário de verão no Brasil.  Nesse tempo a abrangência (inicialmente nacional) foi reduzida sucessivas vezes. Até 2018, em sua última configuração, o HV foi adotado nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Consta que a divisão foi determinada para o Governo Militar atender a uma reivindicação de Deputados do Nordeste.

Resumo da ópera: Ao longo desses 89 anos, o horário de verão foi adotado em 35.

CORAGEM PARA MUDAR
Ainda no começo, o Governo Bolsonaro já  caracterizava-se por desistir de muitas das iniciativas que anunciava. E  um decreto para ser cumprido só sete meses depois de firmado? Pouca gente  fez fé de que seria adotado de fato.

Em 25 de abril de 2019, o presidente Jair Bolsonaro assinou esse decreto que colocava fim do horário diferenciado no Brasil, com a alegação de que a medida não se justificava mais, uma vez que já não representava o principal argumento para a sua adoção: economia de energia.

Além disso, segundo o Ministério de Minas e Energia, o horário de maior consumo de energia passou do período da noite para o meio da tarde.

O Decreto não apenas foi mantido como terminou sendo totalmente observado, sem merecer qualquer movimento contra. Ao contrário.

Até parecia que a população brasileira já esperava por esse decreto  há muito tempo. Sem contestação.

SEM SAUDADES
Num Estado como o Rio Grande do Norte, onde praticamente não existe mudança nos horários do nascer e do por do sol,  a imposição de uma mudança de hábitos imposto por um novo critério de aferição do tempo começa sem provocar mudanças aparentes significativas.

Aqui, de forma geral, mudanças negativas. Porque ficando fora do horário do centro sul, onde ficam as decisões e cujo horário determinava inicio e fim da abertura dos bancos, por exemplo; ou o início e fim das viagens de avião; ou ainda a exibição da programação das redes de televisão, criando um problemão para quem regulava seu relógio biológico pela tv (tipo “vou depois do Jornal Nacional”).

Tanto que o período em que o horário de verão passou, sem que ninguém – que eu me lembre – tenha feito qualquer comentário, tipo, hoje deveria começar o horário de verão; ou, se ainda existisse, o  horário de verão teria terminado ontem.

Não  conheço um só grupo que tenha lamentado por não ter havido o horário diferente este ano.

SEM  VOLTA
O fato do Brasil não ter adotado o HV não foi sentido nem  pelo setor elétrico, confirmando a justificativa do governo para acabar com o regime que vigorava há 35 anos. Esse era o principal argumento para a antecipação de uma hora dos relógios todos os anos, na metade do país, sempre em busca da redução do consumo de energia.

Prevalecia a lógica de que, com mais uma hora de luz solar no fim da tarde, as pessoas demorariam mais a acionar os interruptores. Mas o consumo de energia em janeiro desse ano desmentiu essa ideia. Mesmo sem mexer no ponteiro dos relógios gastaram menos energia que no ano passado, último ano do HV.

Restabelecida a verdade dos fatos, só se engana quem quiser, podendo adotar a desculpa que lhe convier, menos que o Brasil, felizmente, desistiu de adotar o HV para reduzir o consumo de energia.






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