Humor sem freio

Publicação: 2019-05-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Valério Mesquita
Escritor

01) O Conselho Estadual de Cultura sustenta uma posição firme pela volta dos nomes primitivos dos municípios potiguares. E regozijou-se pelo retorno de Boa Saúde (antigo Januário Cicco), Parnamirim (antigo Eduardo Gomes), etc. Numa das sessões o tema estava novamente sendo abordado quando o saudoso mestre Alvamar Furtado, com seus exageros retóricos e convincentes, passou a criticar: “Rodolfo Fernandes, por exemplo, um município com esse nome não vai prá frente!”. E continuou: “Tenente Ananias, um homem que sequer foi promovido!”. Contra exagero de Alvamar não há argumentos.

02) Esta é antiga, mas boa. Dinarte Mariz, ainda menino em Serra Negra, levava o sugestivo apelido de “Anum Branco”, principalmente quando se banhava no rio Espinharas. Era consolado por Leogevildo Aureliano da Costa, vulgo Preto, que abastecia no rio os barris num burrico. “Não se incomode não, “seu” menino, que você ainda vai apadrinhar eles tudinho”, sentenciava Leogevildo. O tempo passou e a amizade dos dois nunca feneceu. No final do governo, Mariz lembrou-se de premiar “Preto” com alguma coisa. Pediu a Antônio Soares, chefe do Gabinete Civil, um daqueles cargos que tinha certeza que Aluízio Alves não botava a baixo. Era a fase do inventário. Soares já tinha a receita: “Diretor de Divisão, Padrão V”. Dinarte chama Etevaldo, vulgo Galego, oficial de gabinete: “Ô, menino vai chamar ali Preto!”. No Natal Club, onde foi achado, Leogevildo, sem perder a calma pergunta: “O que é que Anum Branco quer comigo?”. E lá se foi. Ao ver chegar aquela desengonçada figura, dona Nani e Ana Macedo, servidoras fiéis e tutelares do Palácio Potengi, foram logo perguntando ao governador: “Mas, o senhor vai mesmo nomear esse homem Diretor de Divisão Padrão V e aposentá-lo em seguida, vai?”. Dinarte olhou fixamente as interlocutoras e respondeu, sem pudor político, mas com ternura humana indescritível: “Ô Nani, esse homem vendeu bicho, loteria, a vida toda. E hoje, só hoje, acertou na milhar”. Papo encerrado.

03) O alagoano Fernando Collor de Melo, muito antes de ser presidente, tinha um vasto circulo de amigos em Natal, entre  jornalistas, cronistas sociais, políticos e empresários. Era o tempo em que se chamava Fernandinho. Quando se elegeu presidente da República a coisa mudou muito mas não para alguns, que se consideravam íntimos como Paulo Macedo, que sempre o tratou de Fernando. Foi aí que veio a reprimenda impoluta e boçal de Collor de Melo: “Paulo, me trate agora de presidente!!” Atordoado com a indelicadeza do amigo, Paulo foi se queixar a dona Leda Collor de Melo. “Mas dona Leda eu não estou entendendo Fernando. Ele não era assim!!”, lamenta o jornalista. Dona Leda, mulher positiva e autoritária, respondeu: “Paulo, o que eu sou dele?”. “Mãe, dona Leda”, responde Paulo com humildade. “Pois ele já determinou que eu o chamasse de presidente!!!, detonou a mãe do imperador. Paulinho, não precisa definir, era a própria imagem do cristão trucidado do novo circo romano.

04) Essa história feliniana, como não poderia deixar de ser, aconteceu na metrópole de Nova Cruz, terra de Diógenes da Cunha Lima. Nas estradas da vida novacruzense emergiu Dolores, fêmea robusta, de fartas pernas generosas. Seu busto-arbusto, parecia marquise de farmácia. Nele se abrigava José Batista, marido ciumento e pastorador de um patrimônio que valia tanto quanto o seu velho mas impertigável caminhão Chevrolet. Na sua cabina vê-los passar triunfalmente, era a cena urbana de cada dia. Mas Dolores era muito areia para o caminhão de Batista. Certa noite, após longas e extenuantes horas de “expediente” obrigatório, Zé Batista morreu em cima da mulher. Dizem as más línguas de Nova Cruz que ele só entrou em orgasmo depois de morto. Nem havia passado o luto, “Intaio”, militar reformado, corpo atlético, surgiu na vida de Dolores. E o caminhão Chevrolet reluzente voltou a desfilar nas ruas novacruzenses, dessa vez com uma buzina astuta que entoava uma musiquinha bem popular, logo traduzida pela verve maledicente da cidade: “Graças a Deus, Zé Batista já morreu, casei com a mulher dele e o caminhão agora é meu”. Aí imaginei o diretor italiano Federico Felini, no set de filmagens, na Rua do Sapo, megafone em punho, sendo assistido pela “prata do Curimataú”: Diógenes, Cassiano, Leonardo, Luiz Eduardo e o nosso marechal Porpa, “expert” em assuntos de bastidores.






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