Importações crescem mais de 100%

Publicação: 2011-01-30 00:00:00
Sílvia Ribeiro Dantas - Repórter de Economia

O Rio Grande do Norte fechou o ano de 2010 com déficit de US$ 34 milhões (aproximadamente R$ 57 milhões) em sua balança comercial, como resultado de um incremento superior a 100% nas importações, enquanto as exportações cresceram 10%. Mas, apesar de o cenário parecer desfavorável ao estado, o intenso crescimento na entrada de produtos estrangeiros reflete uma modernização da indústria local, incluindo um “boom” de investimentos em parques eólicos.

De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), desde 1997 essa foi a primeira vez que o estado terminou um ano com déficit.

O grande carro chefe das importações do Estado em 2010 foram equipamentos para geração de energia eólica,  que corresponderam a mais de 60% do que foi compradoPara o diretor do Curso de Relações Internacionais da Universidade Potiguar (UnP), André Lemos, 2010 foi um ano atípico, com o grande acréscimo nas importações tendo sido provocado por um motivo bastante pontual. Isso porque as importações foram principalmente de equipamentos voltados à geração de energia eólica, que correspondeu a mais de 60% da pauta e nem era realidade no estado até 2009. “Esse movimento não deverá se repetir em 2011 e as exportações devem voltar a ser maiores do que as importações. A não ser que os investimentos em energia eólica continuem bastante significativos, ou que surja outro setor com tanta necessidade de investimentos do mesmo tipo”, prevê.

De acordo com Lemos, o crescimento de 10% das exportações, apesar de pequeno é um sinal positivo, uma vez que foram vendidos praticamente os mesmos produtos em 2009 e 2010, mas com incremento nos volumes. E isso é importante, por mostrar uma manutenção do mercado. “Vemos que em 2009, a exportação de banana rendeu ao RN um total de US$ 13 mil, enquanto em 2010 a venda de banana para o exterior fez com que entrassem US$ 17 mil dólares no Rio Grande do Norte”, exemplifica.

Em relação ao câmbio, como atualmente o real está forte em relação às principais moedas utilizadas no mercado financeiro internacional, André Lemos explica que a situação é desfavorável para as exportações brasileiras, pois o cenário faz com que a compra de produtos brasileiros fique desinteressante para empresários de outros países. Além disso, se os brasileiros começarem a importar demais, a indústria nacional ficará enfraquecida, uma vez que não terá para quem vender os seus produtos. “Mas essa é uma questão com a qual os empresários precisam aprender a conviver, pois dificilmente o dólar voltará a valer R$ 4 e exportar será tão rentável como era no início dos anos 2000. Uma solução é aumentar a competitividade dos produtos, reduzindo os custos ao máximo, já que o preço é estabelecido pelo mercado”, sugere.

Dificuldades

A coordenadora do curso de Comércio Exterior do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRN), Elisângela Meireles, considera que os principais gargalos para o fortalecimento das exportações do estado são a competitividade, a infraestrutura e a logística. Para ela, é preciso direcionar melhor os investimentos que já são feitos pelo poder público, como o desenvolvimento da obra do Aeroporto de São Gonçalo do Amarante. “Com um aeroporto do porte do que está para ser construído, será necessário abrir novas rotas, buscar novos parceiros e oportunidades comerciais, fazendo com que esse equipamento não seja apenas uma porta de saída para os produtos potiguares, mas que também haja a distribuição de produtos que vêm de outros estados e assim melhoraria tanto infraestrutura quanto logística”, conclui.

Importação permite modernização

O crescimento de mais de 100% nas importações do Rio Grande do Norte foi impulsionado pela indústria, que aproveitou o momento de força do real frente ao dólar e ao euro para se equipar, comprando equipamentos para melhorar a produção e a produtividade.

De acordo com o presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), Flávio Azevedo, o grande volume de importações é um movimento positivo, uma vez que permite a modernização das empresas. Ele diz que nos próximos anos, a indústria potiguar deve comprar menos de outros países, uma vez que a fase de modernização industrial é limitada. “A indústria está importando matéria-prima e máquinas, devido ao câmbio favorável, para melhorar a produção e a produtividade. Dessa forma, daqui para a frente, elas podem trabalhar com mais qualidade e maior inovação tecnológica”, avalia Azevedo.

Entre os setores, o principal setor importador ao longo de 2010 foi o de energia eólica. Com o primeiro leilão voltado exclusivamente ao setor tendo ocorrido no final de 2009, no qual o Rio Grande do Norte foi o estado com maior volume contratado, o ano passado foi marcado pela instalação de parques geradores desse tipo de energia. “Foi preciso importar bastante, pois o Brasil só possui duas fábricas de equipamentos eólicos. Daqui para a frente, se houver uma contratação média de 2 MW (megawatts) por ano, esse será um mercado bastante significativo e daria consistência às políticas para o setor”, analisa o diretor da região Norte e Nordeste da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Pedro Cavalcanti.

De acordo com Cavalcanti, para o setor continuar crescendo é preciso que o poder público dê consistência ao processo de contratação de longo prazo, ao mesmo tempo em que promove o fortalecimento da infraestrutura e a capacitação da mão de obra. “O RN está recebendo investimentos da ordem de R$ 4,5 bilhões, apenas na construção dos parques eólicos e o estado não pode ignorar um negócio que gera tanta riqueza. Há também o desenvolvimento social, pois quando o investidor chega a uma localidade, faz com que proprietários de terras afastadas de grandes centros tenham uma receita anual e há contratação de mão de obra do próprio município”, enfatiza.

Camarão e frutas perdem espaço nas exportações

Entre os 20 principais produtos exportados pelo Rio Grande do Norte, estão as frutas e o camarão, dois setores nos quais o estado vem perdendo representatividade ao longo dos últimos anos. “Para que a participação desses produtos diminuísse, foram decisivos fatores como a infraestrutura logística, organização e incentivo tributário. Nesses aspectos, o RN fica atrás de estados vizinhos e isso é ruim para a nossa economia”, explica o professor André Lemos.

Para se ter ideia da redução no volume exportado, o camarão, que em 2009 obteve US$ 16 mil com a exportação, em 2010 obteve US$ 6 mil. Em um ano, a queda foi de 62%.

O presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Camarão, Itamar Rocha, conta que 98% da produção do estado em 2010 foi vendido dentro do Brasil. Na avaliação dele, o mercado interno está ávido pelo produto e a produção continuará a crescer ao longo de 2011, mas para fortalecer o comércio exterior, é necessário que o poder público disponibilize ferramentas capazes de deixar o setor competitivo. “Em 2003, o Brasil exportava 21,7 toneladas de camarão para os Estados Unidos e em 2010, passou para zero. Graças a Deus, temos o mercado interno”.

Já em relação à fruticultura, o setor continua como um dos principais destaques da pauta de exportação potiguar. Segundo o presidente do Comitê Executivo de Fitossanidade do Rio Grande do Norte (Coex), Francisco de Paula Segundo, o governo do estado vem buscando meios de fortalecer a atividade e dar incentivos capazes de fazer com que deixe de ser vantajosa a exportação através dos estados vizinhos, principalmente o Ceará. Além disso, para driblar os efeitos da crise financeira mundial, os fruticultores promoveram uma redução de 10% nas exportações e um aumento nas vendas para o mercado interno em torno de 25%, para tentar conseguir um preço melhor lá fora, considerando a lei da oferta e da procura. “A nossa expectativa é de que agora possamos voltar a aumentar a quantidade enviada para a Europa, de forma gradativa”, diz Segundo.

bate-papo: » Elisângela Meireles Coordenadora no IFRN

Que análise pode ser feita do comportamento da balança comercial do RN em 2010?
O déficit na balança não pode ser observado sem que sejam analisados os motivos que levaram a isso. O cenário atual do Brasil é de crescimento nas importações advindas do boom chinês e tratando especificamente do Rio Grande do Norte, o incremento nas importações se deve a equipamentos, bastante voltados à produção, inclusive sendo comprados equipamentos para a energia eólica e extração mineral. Assim, a situação é bastante distinta do último déficit visto no estado foi em 1997, que se deu por causa do algodão. Agora, mesmo comprando bastante de outros países, o RN estava modernizando a sua produção.

O que pode ser feito para equilibrar a balança comercial do Estado?
É preciso comprar internamente, aquilo que podemos produzir. Mas é importante dizer que continuar comprando de outros locais é imprescindível, principalmente em relação aos produtos que incentivam o nosso setor produtivo, como ocorreu em 2010.

Em relação às exportações, que fatores fizeram com que o Estado saísse de um déficit de 25% em 2009, para um crescimento de 10% em 2010?
Acredito que tenha sido uma junção de fatores. Em 2009, as exportações caíram por causa da crise financeira mundial, que diminuiu o poder de compra daqueles que importam a partir do Rio Grande do Norte, como Estados Unidos e países da Europa. Já em 2010, o quadro mudou devido ao surgimento de novos produtos, como a energia elétrica, que hoje vendemos para os nossos vizinhos do Mercosul.

O crescimento nas exportações poderia ter sido maior, se o real não estivesse tão forte frente ao dólar e ao euro?
Certamente. O câmbio sempre influencia, por ser uma variável muito importante nas negociações. Precisamos que a nossa moeda esteja interessante para quem está fora do país comprar os nossos produtos, ao mesmo tempo em que os brasileiros precisam ter poder de compra para importar.