Impulsionando a autoestima na terceira idade

Publicação: 2020-11-22 00:00:00
Tádzio França
Repórter

A expectativa de viver mais trouxe às pessoas da terceira idade o desejo de se sentirem ativas, com o corpo e a mente em movimento. Se for levado em consideração que a população acima dos 60 anos tende a dobrar no Brasil das próximas décadas, aumenta a necessidade de se pensar mais atividades, opções e formas de melhorar a qualidade de vida de uma importante parte da população. Seja cantar, pintar ou aprender uma língua nova, nunca é tarde para aprender mais.

Créditos: CedidaHá 22 anos, Isak Lucena rege as vozes de mulheres que compõem o coral Luz do Sol, um projeto vitorioso que está transformando a trilha sonora da vida dessas senhoras que têm entre 60 e 90 anosHá 22 anos, Isak Lucena rege as vozes de mulheres que compõem o coral Luz do Sol, um projeto vitorioso que está transformando a trilha sonora da vida dessas senhoras que têm entre 60 e 90 anos


O Brasil tem mais de 28 milhões de pessoas acima dos 60 anos, representando 13% da população. E esse percentual tende a dobrar nas próximas décadas, segundo a Projeção da População divulgada em 2018 pelo IBGE. De acordo com a pesquisa, em 2043 um quarto da população deverá ter mais de 60 anos, enquanto a proporção de jovens até 14 anos será de 16,3%. O Brasil chegou a ter a quinta maior população idosa do mundo em 2016, segundo dados do Ministério da Saúde. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), idoso é todo indivíduo com 60 anos ou mais.

Abandonar o comodismo ou romper as barreiras que a idade avançada impõe é uma declaração de vida, segundo a professora Deneide Guedes. “Quando o idoso sai de casa para fazer algum tipo de atividade, é porque ele tem a visão de que ainda é uma pessoa que pode aprender, produzir e estar presente na sociedade. Significa que ele não é apenas alguém que já fez, mas que está fazendo”, afirma ela, que também é coordenadora da Universidade Aberta para a Terceira Idade (UnATI), uma ação ligada à UnP que já existe há 26 anos em Natal.

Para Deneide, a boa procura pela UnATI é um reflexo de como os idosos desejam deixar a inércia e aprender coisas novas para se sentirem melhores. “Boa parte dos alunos chega por indicação de outros alunos, colegas ou amigos. Há também filhos e netos que conhecem o programa e trazem os pais ou os avós. Nós temos ainda a indicação médica. Alguns reconhecem a importância do idoso se manter ativo e o encaminha para algum curso específico que pode ajudar no tratamento ou problema que ele possua”, explica.

As atividades são variadas, incluindo informática (interatividade com o celular), desenho artístico e pintura em tela, ginástica com consciência corporal, hidroginástica, línguas (inglês e espanhol), oficina da memória, e música, através do Coral Luz do Sol. A coordenadora ressalta que todos os cursos e oficinas trazem metodologias específicas para a terceira idade.

“Os nossos professores fazem todo o trabalho para desenvolver a capacidade do aluno, além de aproveitar o conhecimento que esse aluno já possui”, afirma Deneide. Cada aluno tem uma bagagem pessoal e a partir daí o professor vai explorar um pouco esse conhecimento e trabalhar a criatividade da pessoa. Quando se trata das atividades físicas, também é observada as limitações físicas. “Dependendo das limitações do aluno, as atividades são feitas numa cadeira, ou no chão, tudo isso é analisado antes de começar”, completa.

A professora ressalta que um dos cursos mais procurados nos últimos três anos é o da oficina da memória. “Embora outros cursos também trabalhem o desenvolvimento da criatividade e ative a memória, é na oficina que é mais trabalhada a parte da atenção e concentração, de uma forma mais específica. E temos observado que os alunos têm obtido resultados bastante satisfatórios com os exercícios”, diz.

Créditos: Alex RégisMaria Martins Hermes, 71, feliz pelo curso de oficina da memóriaMaria Martins Hermes, 71, feliz pelo curso de oficina da memória


Aulas remotas
Os 400 alunos da UnATI também precisaram encarar um desafio inesperado: a pandemia. “Foi muito preocupante, ainda mais levando em conta que todos são do grupo de risco. Chegamos a pensar em suspender tudo e esperar até o ano que vem, mas a idéia de deixar os idosos sem fazer nada, parados e só pensando na doença, seria pior pra eles”, diz. Portanto, houve uma junção de forças entre gestores, professores e também familiares dos idosos, que levou à elaboração das aulas remotas via internet.

O ensino online foi outro desafio para a grande maioria dos idosos, pouco acostumados a mexer nos apetrechos tecnológicos. Os alunos tiveram que baixar um aplicativo chamado ‘teams’ para receber as aulas em casa. Filhos, netos e amigos deram uma forcinha. Houve então, ótimas surpresas. “O ensino remoto acabou por revelar o potencial criativo de vários alunos. No curso de pintura em tela, por exemplo, a gente achava que não conseguiriam terminar o trabalho sem professor do lado. Mas foi um sucesso. Fizemos até uma exposição virtual com os trabalhos”, conta.

Vozes e memórias
“Eu cheguei aqui me sentindo com mais de 80 anos, hoje eu tenho meus 71 normais”, afirma Maria Martins Hermes, feliz da vida pelo curso de oficina da memória. Ela conta que foi levada – a contragosto – pela filha, numa época difícil da vida. “Tinha perdido meu marido há três anos, estava alienada pela dor e depressão. Minha linda letra de professora estava horrível, eu não sabia mais escrever. Até que o geriatra indicou alguma atividade que revitalizasse minha memória, e minha filha chegou ao curso”, relata.

Créditos: Alex RégisDenise Rizzi, 63, estudante de pintura em tela há nove anosDenise Rizzi, 63, estudante de pintura em tela há nove anos


Maria começou no primeiro semestre e já sente os progressos na memória, no raciocínio, e também na caligrafia. “A letra já melhorou bastante e voltei a conseguir me comunicar escrevendo. Essa terapia é pra trazer de volta o que você deixou pra trás”, diz ela, que hoje já acorda pensando nos exercícios que antes achava chatos. “Já odiei e agora acho engraçado. Não consigo parar de fazer, é viciante”, diz.

Denise Rizzi, 63, entrou no curso de pintura em tela há nove anos, e recentemente começou a fazer espanhol. Além de gostar naturalmente de pintar, ela ressalta o contato com outras pessoas, e o efeito de terapia ocupacional. Ela conta que não achou difícil se adaptar às aulas remotas. “A distância causou um efeito curioso, pois muita gente se sentiu mais à vontade para se desenvolver fora da sala de aula, recorrendo ao professor apenas para orientações pontuais. É muito bom para desenvolver o raciocínio e a memória”.

Há 22 anos, Isak Lucena rege as vozes de mulheres e homens que estão fazendo a nova trilha sonora de suas vidas. Ele é o maestro do Coral Luz do Sol, um projeto vitorioso que muda vidas. “No começo as pessoas entravam no coral para realizar o desejo de cantar ou só como terapia. Com o tempo nós fomos crescendo, melhorando, e hoje somos levados a sério como um projeto musical de qualidade. Não deixa a desejar para nenhum coral jovem”, diz.

O coral conta atualmente com 26 integrantes, todas mulheres. O número chegou a 56 antes da pandemia. Para harmonizar todas essas vozes, Isak lança mão de uma metodologia adequada às idades do alunos – de 60 até 90 anos. “A voz na terceira idade é diferente, pois envelhece junto com a pessoa. Então fazemos exercícios vocais, repertório adequado, que não força mas mantém a qualidade. Não são ensaios cansativos”, explica. O Luz do Sol é um “impulsionador de autoestima”, segundo o maestro. “Cantar em grupo é algo que transforma a vida da pessoa. Elas ficam mais elegantes, preocupadas com a aparência, e também tem o exercício de memória para decorar as letras”, conclui.