Incubadora do DoSol impulsiona quatro novos artistas

Publicação: 2019-09-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Na rua Neuza Farache, em Capim Macio, existe uma casa cujo inquilino principal é a música. Há pelo menos 10 anos o negócio lá é assim. A música está em todos os cômodos, paredes, jardim, na conversa das pessoas, no quartinho dos fundos, nos cartazes de shows emoldurados nas paredes. A casa é onde funciona o escritório, estúdio de gravação e produtora audiovisual do combo Dosol. Bandas alternativas do Rio Grande do Norte – e do Brasil – já passaram por lá. E o lugar onde geralmente todos se encontram quando estão por ali é o quintal, um espaço agradável, verde, não à toa batizado de “Sede Campestre do Dosol”.

No estúdio e incubadora DoSol, a banda Sourebel foi uma das selecionadas da Incubadora em 2018
No estúdio e incubadora DoSol, a banda Sourebel foi uma das selecionadas da Incubadora em 2018

“Ficou conhecido assim justamente por ter essa vibe de jardim que você está vendo e todo mundo adora”, diz a moradora da casa, a produtora e baixista Ana Morena (Camarones Orquestra Guitarrística e Talma&Gadelha). Manda chuva do Dosol ao lado do sócio Anderson Foca, Morena recebeu a reportagem da TRIBUNA DO NORTE para contar as novidades do projeto Incubadora Dosol – iniciativa que age diretamente na formação de novos artistas e bandas, prestando auxílio em todas as etapas da produção musical, artística e executiva que envolve o lançamento de um novo trabalho.

Neste ano quatro artistas e bandas terão discos novos produzidos pelo projeto. São eles, o duo Hell Lotus, de Mossoró, o projeto Aiyra, da percussionista e compositora Maíra Soares, o rapper Cazasuja e a banda Plutão Já Foi Planeta, que lançará um álbum de composições só de artistas potiguares. Tudo está sendo conduzido com patrocínio da Oi, e culminará no Festival Dosol, entre os dias 23 e 24 de novembro, no Beach Club – com exceção do disco do Plutão, previsto apenas para o final do ano.

“O Plutão é uma banda que tenho muito respeito. Enxergam além do próprio umbigo. Estão morando em São Paulo, tocando bastante, mas sempre preocupados em dar visibilidade pra música daqui. Eles tinham essa proposta de um disco só composições de artistas potiguares, algumas bem conhecidas. Vão dá a versão deles. A ideia casou direitinho com a Incubadora. A banda está chegando em Natal agora em setembro pra entrar no estúdio”, comenta Ana Morena.

Sobre os outros projetos, a produtora do Dosol conta que se tratam de bandas bastante distintas entre si, o que vai fazer todos saírem de suas zonas de conforto, mas de uma maneira criativa. “O Hell Lotus vimos tocar em Mossoró, a guitarrista Vitória, tem uma coisa... ficamos doidos para gravá-los. É o primeiro disco deles. Estão se descobrindo. A produção é de Yves (Fernandes) e Foca. A Maíra (Aiyra) também vai ser o primeiro disco dela. Está num segmento que a gente normalmente não trabalha, que é mais puxado para tambores, meio mpb. É percussionista e canta muito bem, suas letras são atuais, poéticas e bonitas. Mas a ideia é tirar ela um pouco do voz e violão que ela vinha. Por isso foi chamado o Pedras (Luísa e Os Alquimistas, Igapó de Almas) para auxiliar na produção do disco”, diz Morena. Quanto ao rapper Cazasuja, a justificativa é de que é preciso dar mais espaço para uma cena que não para de crescer na cidade. “É um movimento que está muito forte na periferia, com vários coletivos atuando.  Então naturalmente a gente está abrindo espaço. E o Cazasuja tem um trabalho muito bom. Pra dar uma misturada, mas sem quebrar a linha que ele já desenvolve, chamamos o  Gabriel Souto para produzir o disco”.

Oito anos de Incubadora
O projeto Incubadora surgiu em 2011, ano em que o Dosol completou 10 anos de atividades. De lá pra cá, mais de 20 bandas e artistas passaram pelo estúdio da “Sede Campestre”. Nomes como Talma&Gadelha, Fukai, Potiguara Bardo e Red Boots são alguns  que obtiveram grande aceitação de público. Mas o Dosol grava artistas de modo independente desde bem antes, de modo que tamanho conhecimento permite a Ana Morena observar com senso crítico os ciclos musicas da música alternativa potiguar.

Em breve, Plutão Já Foi Planeta gravará no estúdio o álbum de composições de artistas potiguares
Em breve, Plutão Já Foi Planeta gravará no estúdio o álbum de composições de artistas potiguares

“Estamos tendo dificuldade de ter novos artistas. Por escalarmos o Festival Dosol sentimos bem isso. O rock, que era uma área que sempre teve artistas surgindo, agora deu uma estagnada. Isso é uma preocupação que a gente tem, que é o de, de uma forma ou de outra, continuar alimentando essa cena, e principalmente no interior. Faz dois anos que não vamos no interior. Nesse sentido foi legal termos descoberto o Hell Lotus”, comenta a produtora.

Ana Morena também reflete sobre o novo perfil das bandas. “Mudou bastante. O legal é ver que tem ciclos. Já passamos por vários. Quando começamos as bandas era muito atrapalhadas. A vontade, a disposição, era imensa, mas o resultado não era tão bom. Também não tínhamos um circuito organizado, os shows era feitos de uma forma muito mambembe. Hoje já se vê uma rota de shows segmentada. Os artistas também já entenderam que são trabalhadores. Sempre tem aqueles que ficam doidão mas na hora de tocar estão lá. Acho que muitos desses artistas que mais circulam são porque entenderam isso”.

Uma manhã de gravação
A reportagem acompanhou uma manhã de gravação no estúdio Dosol. Em atividade estava o duo Hell Lotus. Era o terceiro dia de trabalho deles. Na ocasião estavam gravando as guitarras de Vitória. Ela estava bem empolgada, testando pedais, timbres e conversando com o produtor Yves sobre os arranjos. Gil estava sossegado assistindo a performance da colega, às vezes dava uma olhada na paredes do estúdio, repleta de pequena fotos de shows do Dosol, ilustrações  e adesivos de bandas. Sua parte, a bateria, já havia sido registrada de uma tirada só dois dias antes. “Temos um ano de banda, mas viemos tocando direto. Então estamos em forma”, conta Gil. Ele tem experiência no projeto. Por duas vezes lançou trabalhos novos pelo Incubadora Dosol com sua antiga banda, Red Boots. “Isso de poder passar o dia inteiro é muito bom, porque a gente pode discutir o som sem pressa. Dá tempo para o produtor sacar a proposta da banda, dar uns toque mais a ver com a gente, fazer um direcionamento legal, coisa que num estúdio pago não é possível porque cada hora a mais é dinheiro que se gasta”.

Entre poesias e batuques, Aiyra, projeto da percussionista Maíra Sales, chega ao álbum autoral
Entre poesias e batuques, Aiyra, projeto da percussionista Maíra Soares, chega ao álbum autoral

A rotina de ensaio no estúdio começa às 10h da manhã e vai até às 7h da noite, com pausa para o almoço. Isso durante quatro ou cinco dias seguidos. Yves coordena os músicos de modo tranquilo. Baterista do Camarones Orquestra Guitarrística, ele é um cara de cabelão solto, meio chapadão, parece se sentir pleno naquele ambiente. Seu cuidado maior ali parece ser o de captar os instrumentos sem descaracterizar a intensidade e crueza típicas do som da dupla.

“O Incubadora é isso que você está vendo, meio que como uma internação. A gente conversa com os artistas, oferece vários instrumentos e ferramentas de gravação, testa algumas coisas”, conta Yves. “Por exemplo, a gente estava na dúvida em dobrar a guitarra numa das músicas. Porque como eles são um duo, a gente ia precisar de um grave, a dúvida era se gravada uma dobra ou se fazia uma linha de baixo na guitarra. No show ela só poderia ter uma dobra de guitarra. Aqui a gente a gente para, testa as várias possibilidades”.

Vitória Bessa tem 22 anos. Toca guitarra, baixo e bateria. É um dos talentos da nova leva musical de Mossoró, conhecida por dar tudo de si no palco. Além do Hell Lotus, toca na banda Mad Grinder. É também compositora, responsável pela letra de todas as músicas do disco que está gravando. Uma das composições, inclusive, surgiu quando ela estava de bobeira no caixa da padaria do pai. “Tava fazendo nada, fiz uma música”. Embora esteja gostando do processo no estúdio, ela é bem direta. “Sem dúvida me sinto mais em casa no palco”.

Participantes da incubadora 2019: Cazasuja
Cazasuja é o codinome do artista plástico e rapper Otto. Representante da nova geração do rap potiguar, seus versos contundentes trazem muito de sua experiência de vida na periferia de Natal. Tem dois EPs lançados, “Ato I” (2017) e “Entre eles e a morte, eu” (2019). Seu novo disco contará com produção de Gabriel Souto (Dusouto e Luísa e Os Alquimistas).

Hell Lotus
Revelação do rock potiguar, formado há pouco mais de um ano em Mossoró, o Hell Lotus é um duo de guitarra e bateria composto por Vitória Bessa e Gil Holanda, respectivamente. O som é intenso, meio garage rock, stoner e blues. A dupla está produzindo seu primeiro disco, tendo o auxílio de Yves e Foca na produção.

AIYRA
Projeto musical da cantora, compositora e percussionista Maíra Soares. Com passagens pela Orquestra Sinfônica da UFRN, Orquestra Sinfônica do RN, banda Igapó de Almas, além de tocar voz e violão em barzinhos, a artista revela pela primeira vez em disco sua produção autoral. Seu som vai da poesia aos batuques ancestrais, mas, sob os cuidados do produtor Pedras (Luísa e Os Alquimistas, e Igapó de Águas), deve ganhar alguns timbres eletrônicos.

Plutão Já Foi Planeta
Banda potiguar que conseguiu projeção nacional defendendo um som que passeia pelo indie rock, pop e folk. Residentes em São Paulo há alguns anos, eles desembarcam em Natal neste mês para iniciar a gravação de um disco especial, totalmente voltado para composições de artistas do RN, algo como uma ode à música produzida no estado.





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