Indicações de negros ao Oscar ajuda a combater estereótipos, dizem pesquisadores

Publicação: 2017-01-29 12:44:00 | Comentários: 0
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A historiadora e pesquisadora Janaína Oliveira, coordenadora do Fórum Itinerante de Cinema Negro (Ficine), concorda com Motta que o recorde de indicações está relacionado ao bom trabalho dos atores. "Diria até uma resposta ao constrangimento de 2016", disse. Porém, vê nas indicações uma chance de desconstruir estereótipos sobre negros que foram criados ou difundidos por Hollywood.

Nos primórdios do cinema, ela cita o personagem Pai Tomás (Uncle Tom), da adaptação do clássico da literatura a Cabana do Pai Tomás (1909), retratado de uma maneira pejorativa, acomodado e subserviente, e "mammy", a escrava de Scarlet O'Hara, de ...E o Vento Levou (1939), interpretada por Hattie McDaniel (ganhadora do Oscar de atriz coadjuvante). Além de secundária, "mammy" era resignada em relação à sua condição.
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"Das imagens contemporâneas, podemos dar milhares de exemplos de mulheres negras raivosas, barraqueiras, lascivas, de homens negros com uma pulsão sexual incontrolável, que sempre querem a mulher branca como objeto de desejo e, não conseguindo, acaba por violentá-la. Ou como bandido, traficante, aquele que trapaceia. Todos esses estereótipos estão presentes no cinema", afirmou Janaína, que atua também como curadora de mostras nacionais e internacionais de cinema negro.

Por outro lado, com as indicações ao Oscar, a pesquisadora acredita que os filmes com indicados negros, como Cercas, do ator e diretor Denzel Washington, indicado em três categorias (melhor filme, roteiro adaptado, melhor ator para Washington, e atriz coadjuvante para Viola Davis), ainda sem data de lançamento no Brasil, terão mais chance de serem vistos pelos públicos. "Para o mundo, acredito que vai haver contato com produções com protagonistas negros e personagens desenvolvidos", citou.

Com oito indicações ao Oscar, outro longa sobre questões raciais que terá espaço certo é Moonlight: sob a luz do luar, de Barry Jenkins. A trama, sobre os desafios de um jovem negro no subúrbio de Miami foi eleito o filme do ano pela Associação de Críticos de Nova Iorque e de Los Angeles e ganhou o Globo de Ouro de melhor Drama.

Para Athayde Motta, permanece o desafio da Academia de cinema de naturalizar a presença de negros. Este ano, avalia, houve uma combinação de performances de destaque com uma quantidade relevante de filmes bons. "Isso não acontece todo ano nem nas indicações normais. Tem edição em que o Oscar é de filmes muito fraquinhos, mornos", explicou.

De fora do Oscar
Apesar dos recordes, os especialistas lamentam que a academia tenha deixado de fora da competição o aclamado drama O Nascimento de uma nação, do também diretor negro Nate Parker. O longa apresenta uma versão sobre a fundação dos EUA, retratando uma rebelião de pessoas negras escravizadas no sul do país, região marcada pela segregação e pela atuação de supremacistas brancos. Trata-se da versão oposta ao clássico do cinema de mesmo nome do diretor David W. Griffith, de 1915, um marco também do racismo.

"É o primeiro blockbuster de Hollywood. É um filme que é um clássico, traz várias inovações tecnológicas, faz filmagem noturna, planos simultâneos, só que a história da versão de David W. Griffith é o sobre o surgimento da Ku Klux Klan", pontua Janaína Oliveira. No longa, homens negros são tratados de forma bestializada e são hostilizados pela população branca, conforme a pesquisadora.

Documentários
Além das indicações de melhor filme, concorrem na categoria documentário três longas que também tocam na questão racial, de um total de cinco. O I am not your negro, sobre um dos maiores intelectuais americanos, o escritor negro e gay, James Baldwin; A 13ª Emenda, que relaciona o fim da escravidão às políticas de segurança que aumentaram o encarceramento de afrodescendentes e O.J.: Made in America, sobre o julgamento do jogador de futebol acusado de matar a esposa.

Fonte: Agência Brasil

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