Infantil (?)

Publicação: 2019-12-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Dácio Galvão - QQ COISA
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São diversos os discos compactos digitais, os conhecidos CD’s, que registram textos para o público infanto juvenil. Chico Buarque de Holanda verteu do italiano a adaptação da fábula “Os Músicos de Bremen”, dos Irmãos Grimm, Jacob (1785-1863) e Wilhelm (1786- 1859). Os Saltimbancos ou I Musicanti, é peça teatral ou musical que inclui canções com escritos de Sergio Bardotti e música de Luis Enríquez Bacalov. A versão brasileira ganhou canções adicionais do compositor carioca. O então jornalista Nelson Motta, do jornal O Globo, salientou o que pode ser estendido para outras criações do gênero. Observou que "Embora criado para crianças, Os Saltimbancos pode perfeitamente se inscrever entre os melhores espetáculos para adultos em cartaz na cidade". O espetáculo trouxe trilha sonora assinada por Buarque com arranjos de Edu Lobo. Ficou tão boa que logo assumiu uma configuração autônoma dissociada da premiadíssima representação dramatúrgica. Alegoria da divisão de extratos sociais a Galinha é a representante da classe operária; o Jumento dos camponeses; o Cachorro, simboliza os militares e a Gata, os artistas. O Barão, contraponto aos animais generaliza a classe dominante.

Os poemas do escritor-diplomata Vinícius de Moraes oralizados nas vozes de Walter Franco, Ney Matogrosso, Elis Regina, Alceu Valença, Milton Nascimento... Com arranjos de Rogério Duprat formam os dois discos da “Arca de Noé”. Eles invadiram audições em todas as faixas etárias e promoveram a ruptura quanto ao enquadramento do encantamento que os textos-canções provocam. Crianças, jovens, adultos e idosos o assimilaram no mesmo embalo, na mesma curtição. Quem não se seduz escutando o repovoamento de animais na terra depois do dilúvio?

O traço de intensidade da literatura veiculada em trilhas e difundidas em discos é inconteste. Alguns desses registros estão marcando gerações: O Sítio do Picapau Amarelo que perpassa a produção de Monteiro Lobato entre os anos de 1920 e 1947, é um deles. A alteridade fazendo a imaginação voar nas histórias fantásticas do Saci, Peter Pan, Narizinho, Emília, Tia Anastácia... O Pirlimpimpim foi o desdobramento do projeto da obra infantil de Lobato quando dos seus 100 anos de nascimento. Se construiu graças a força dos seus personagens. Teve a participação fundamental de Charles Gavin, baterista dos Titãs. Foi ele que recuperou esse material sonoro dos escaninhos de uma gravadora e deu nova vida. Artistas da calibragem de Jorge Bem Jor, Dona Ivone Lara, Angela Ro Ro, Baby Consuelo, Zé Ramalho participam e concedem corpo e alma ao imaginário provocando viagens maravilhosas.

Adriana Calcanhotto faz opção pelo heterônimo de Adriana Partimpim (apelido paterno) e penetrou também nesse universo onírico ilimitado. Gravou dois Cd’s. Arregimentou um timaço (Arnaldo Antunes, Paula Toller, Péricles Cavalcanti, Domenico Lancellotti ...) colocou em campo e soltou a fabulação extravasada em cantos. Eis a palavra da compositora e violonista sobre o Partimpim 2: “Uma das coisas que me movem é fazer música para que as crianças se divirtam e os adultos também.” A meta é subverter categorizações chancelando o ideal de alcançar a tudo e a todos. Não só crianças. Mas fundamentalmente envolver adultos-crianças assim como ela própria. Calcanhotto que ano passado deu aulas de literatura brasileira na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Portugal, sabe muito da poesia modernista, concreta e tropicalista. É apaixonada por Mario de Sá-Carneiro e leva a efeitos influxos literários que lhe atravessam a trajetória.

Tom Zé em parceria com o artista Elifas Andreato, propagado por ter ilustrado capas de discos importantes de Martinho da Vila, João Bosco, Paulinho da Viola e tantos mais fez o CD de repertório infantil "Sem Você Não A". Destila em dez composições variantes de rotas, na tentativa de no conjunto construir a história do alfabeto. Dos nossos sinais gráficos aplicados a escrita. Uma pedagogia de sinais arbitrários para adentrar no mundo livre da criança. Narrativa de aventura protagonizada entre duas personagens (Silêncio e Curiosidade) que se articulam para saber e descobrir a maior palavra do mundo! Uma órbita estimuladora, de apreensões e expectativas para uma filologia pueril. De tanto, passa a atrair a astúcia do homem maduro abolindo as idades por interesses.

Escritores reconhecidos dentro e fora do país do porte de Edward Lear (1812-1888) e Lewis Carroll (1832-1898), em transcriações do poeta Augusto dos Campos, estão disponíveis para o universo infantil no CD, Criança Crionças, do compositor Cid Campos. O escritor curitibano Paulo Leminsk está repertoriado junto de Haroldo de Campos e Walter Silveira. Tetê Espíndola musicalizou Jaguadarte (Jabberwocky, de Lewis Carroll, do livro Alice no País das Maravilhas) no seu primeiro álbum, Pássaros na Garganta no crivo da extradução de Augusto: “Era briluz. /As lesmolisas touvas / Roldavam e reviam nos gramilvos / Estavam mimsicais as pintalouvas”. No álbum Qualquer Coisa, de Caetano Veloso, ele faz releitura de Drume Negrita, numa tradução livre, não literal de comovente acalanto cubano de autoria do baterista Ernesto Grenete. Na verdade, é uma tremenda canção de ninar popular afro-cubana. Algo acontecido na proporção de densidade encontrada em Acalanto, de Dorival Caymmi. Calcada na fórmula alquímica da textualidade somada a literatura oral: “É tão tarde / A manhã já vem / Todos dormem / A noite também / Só eu velo / Por você, meu bem / Dorme, anjo / (,,,) O boi pega neném! Boi, boi, boi / Boi da cara preta / Pega essa menina / Que tem medo de careta!” Zeca Baleiro que musicalizou poema do vanguardista e, e. cummings, de Fernando Pessoa, de Souzândrade...   Fez dois trabalhos na linha infantil: “Zoró, bichos esquisitos” e “Zureta”. Trouxe convidados especiais desfiando vozes para todos os cardápios: Fernanda Abreu, Alzira Espíndola, Diogo Franco, Carlos Careca... Criadores do selo “Palavra Cantada”, Sandra Peres e Paulo Tatit, produziram um emblemático CD: “Canções de Ninar”. Dele, participam diversos compositores e intérpretes de relevância artística na dimensão de José Miguel Wisnik, Akira Ueno, Ná Ozzetti, Mônica Salmaso, Virgínia Rosa e Suzana Salles. O multiartista Antonio Nóbrega fez Cantigas de Roda, Coco da Largatixa, Coco da Bicharada...

Está claro desde a sonoridade brasileira recolhida por Heitor Villa-Lobos que há um acervo lítero-musical constituído dentro do processo evolutivo contínuo de formação cultural brasileira. Pedagogia original de fruição não controlada por mecanismos formais. O grande barato é constatar que ela perpassa o amálgama do saber popular imbricado ao da academia gerando um suprassumo refinado e identitário. Vamos consumir! Nesse período natalino a dica é Noite Feliz - Histórias de Natal, de Tatit e Peres ou ainda colocar a criançada para ouvir o “Presente de Papai Noel” de Elino Julião. É interpretada pelo próprio e Elba Ramalho no CD Canto do Seridó, selo Projeto Nação Potiguar da Fundação Helio Galvão e do Escritório Cadinha Bezerra. Não precisamos de fortuna crítica para tal atitude. Nesse tempo turvo é mais que necessário celebrar a felicidade e a capacidade transformadora que a cultura brasileira é capaz de promover por si. Superar a exceção, excrecência, extremos... Vamos à luta! Por portas de entradas ou dos fundos. 

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