Infraestrutura é fundamental

Publicação: 2016-09-04 00:00:00
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A qualidade dos serviços públicos e infraestrutura favorece a ecologia da criatividade. Tanto é que o oficial sênior da Onu Habitat, Alain Grimard, ressaltou  a relevância dos investimentos  saneamento básico e pavimentação em Natal. Durante os discursos de abertura do 28º Seminário Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte os gestores públicos também elencaram essas ações como estimuladoras de uma cidade criativa.
O turismo cultural, um dos retornos financeiros mais visíveis de uma cidade criativa, pode ser inibido quando não há a cobertura de serviços públicos de qualidade
É consenso que não se pode ser criativo se suas necessidades básicas não estão atendidas. Portanto, a pressão para ter espaços públicos dotados de serviços e infraestrutura adequada consequentemente eleva a qualidade de vida de uma população. Por sua vez, a sensível atmosfera para os intercâmbios criativos também é criada. Apesar dos investimentos, o professor Fernando Cruz, do Departamento de Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), acredita ainda há muito o que ser feito pelo poder público.

O turismo cultural, um dos retornos financeiros mais visíveis de uma cidade criativa, pode ser inibido quando não há a cobertura de serviços públicos de qualidade em uma região que, contraditoriamente, pode ser um símbolo cultural. “Não é possível um turista chegar em Natal e você dizer: ‘se você quer ir para a Ribeira ou Cidade Alta, nos eventos culturais, você não deve ir porque é inseguro’”, comentou o pesquisador.

Esse fenômeno é chamado por estudiosos do turismo de “bolha turística”, lugares dotados de atenção do poder público e que proporcionam uma boa experiência ao visitante. Se o interesse do turista for cultural, ele vai se decepcionar. Não raramente, “a bolha” não contém todas as nuances culturais de uma cidade.

Mas não é só o turismo que perde. A criatividade dos cidadãos fica comprometida. As autoridades em cidade criativa pelo mundo defendem que as conexões interpessoais em espaços públicos atraentes é um fator chave para o ambiente criativo. A participação de turistas nesses espaços seriam um potencializador da criatividade, uma vez que eles podem trazer visões e experiências diferentes de mundo. Além disso, quando o turista vai a um espaço público no qual os residentes da cidade estão lá, o visitante tem a sensação de que viajou para a “cidade real”, e não para a “bolha turística”.

Mobilidade e equipamentos
A mobilidade urbana também é um ponto a revisto em Natal. Para ele, não é possível haver estímulo criativo com horários tão limitados do transportes público. “Temos transporte público até as 10h30 da noite. Com os eventos feitos à noite para turistas resta apenas o táxi como opção. Para não falar dos próprios moradores daqui, porque muitas deixam de sair, porque deixam de sair por conta dessa questão”, criticou. Na madrugada, o sistema de ônibus urbano conta apenas com o “corujão”, no qual raríssimos ônibus cortam a cidade numa frequência baixíssima.

O transporte sobre trilhos é outra tragédia. Não funciona nos fins de semana e raramente em feriados. Também não funciona depois das 19 horas em dias de semana. Para completar, não há integração entre os dois modais, nem mesmo perspectiva que isso ocorra.  

Em um estudo de caso sobre o ambiente criativo em Natal, o professor também anotou problemas nos equipamentos culturais, como os museus. Grande parte deles funcionavam no horário comum do serviço público, ou seja, estavam fechados nos fins de semana e feriados. 

Incubadora já atendeu cerca de 1,4 mil pessoas

Como um setor econômica emergente, os empreendimentos criativos também se servem de incubadoras. O governo do Rio Grande do Norte tem na sua estrutura a incubadora RN Criativo. Em dois anos de existência, a incubadora já atendeu a cerca de 1.400 pessoas por meio de cursos ou consultorias. Foram cerca de 50 capacitações a agentes culturais de aproximadamente 40 cidades.
Apesar do pouco tempo de vida, a incubadora já passou por turbulências. Criada em agosto de 2014, ela foi desativada no final daquele ano por problemas na prestação de contas.  Um ano depois foi reativada. Ela nasceu graças a uma parceria entre Ministério da Cultura e a Fundação José Augusto (FJA). A primeira fase de funcionamento tem a previsão de gastos de R$ 1,5 milhão.

Segundo o assessor técnico da FJA Sanclair Solon, ainda restam cerca de 20 oficinas e consultorias para que todo o dinheiro da primeira fase seja aplicado. Elas são nas áreas de direitos autorais, plano marketing, prestação de contas e projetos. A segunda fase da parceria prevê um orçamento de R$ 714 mil, que não necessariamente deve começar quando a primeira estiver encerrada.

“A única questão é como os repasses vão acontecer nesse cenário de incertezas e realinhamento político”, disse o assessor técnico responsável pela incubadora. Conforme Sanclair, ainda não houve interrupção das atividades. No Rio Grande do Norte, há também a Incubadora Tecnológica de Cultura e Arte do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) voltada para estudantes, egressos da instituição e profissionais de Turismo, Multimídia, Eventos, Esporte e Lazer que queiram iniciar uma atividade empreendedora.

Crítica
O formato das incubadoras culturais locais está equivocada. Essa é a avaliação do professor do Departamento de Política Públicas Fernando Cruz, estudioso em cidades e economia criativa. “A incubadora não pode ter apenas uma visão complementar em termos de colocar mais conhecimentos na área técnica. Tem que ter a atitude empresarial. Existem propostas de atuação em diferentes setores culturais e criativos, mas criar essa perspectiva da formação de empresas”.

Raio-x da cultura e setor criativo
É certo que todos  os aglomerados humanos produzem algum tipo de cultura, mas nem todos lugares conseguem transformar isso em renda e emprego. É por isso que o Perfil dos Estados e Municípios Brasileiros na área cultural, publicado em 2014 pelo IBGE, observou quais os objetivos dos Estados brasileiros na área de gestão cultural, a estrutura governamental destina a esse setor e se estimulam a dinamização econômica da produção cultural.

Uma das perguntas das pesquisas aos Estados brasileiros  foi “desenvolve programa ou ação para produção cultural autossustentável?”. O Rio Grande do Norte respondeu “não”. Ao lado do Rio Grande do Norte, mais oito unidades da federação também não têm essa intenção em seus planos estaduais de cultura segundo o IBGE. No Nordeste, estamos acompanhados de Paraíba e Sergipe.
Para o instituto, a economia criativa e autossustentável se baseia “na  capacidade  de indivíduos, segmentos ou grupos, não estabelecidos através de cadeias formais de  produção  ou  serviços,  estabelecerem  um  empreendimento  através  de  uma  formulação criativa, ou seja, de uma ideia, que tenha sustentabilidade, mas que possa ser estimulada, financeiramente ou não”.

Ainda de acordo com o IBGE, o plano estadual de cultura do Rio Grande do Norte, em 2014, não previa como objetivos: “integrar a cultura ao desenvolvimento local”, “dinamizar as atividades culturais do Estado”, “garantir a sobrevivência das tradições culturais locais”, “descentralizar a produção cultural”. 
Outra deficiência do RN é  a ausência de um sistema informatizado de gestão das ações e programas culturais do órgão gestor. O Rio Grande do Norte é um dos nove Estados (Roraima, Pará, Amapá, Maranhão, Piauí, Sergipe, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul) brasileiros que não possuem esse tipo de ferramenta. Essa é a mais recente pesquisa do gênero feita pelo IBGE.