Inovação é essencial para empresas se manterem vivas, diz especialista

Publicação: 2020-05-31 00:00:00
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

O futuro da economia nacional e mundial é uma incógnita diante da pandemia do novo coronavírus. Enquanto países da Europa e da Ásia que saíram do pior momento da infecção e que hoje retomam, paulatinamente, o dia a dia com pessoas nas ruas e fábricas produzindo, o Brasil contabiliza cada vez mais mortos em todos os cantos do país.
Créditos: CedidaAnanery Alessandra Silva, Mestre em Administração e Professora da Faculdade Estácio de NatalAnanery Alessandra Silva, Mestre em Administração e Professora da Faculdade Estácio de Natal

O desafio será imenso para recolocar o Brasil de volta nos trilhos do desenvolvimento. Sem dinheiro para investimentos, os governos estaduais terão que recorrer à União para manterem o mínimo possível. O aumento no desemprego, que já é uma dura realidade após dois meses de fechamento de comércios e redução na produção das fábricas, tende a piorar a situação.

A seguir, a Professora Ananery Silva, mestre em Administração e Professora da Estácio Natal, analisa o atual momento da economia nacional e aponta possibilidades de saída para essa nova crise.

Do seu ponto de vista, qual o principal impacto da pandemia de coronavírus na economia? Por quais motivos?

A economia do Brasil, e de todo o mundo, está passando por um momento extremamente delicado, um dos mais difíceis da história. A pandemia paralisou a economia colocando o País em recessão, pois para conter a Covid-19, a população e as empresas, na sua grande maioria, foram submetidas às medidas de isolamento, engessando assim o fluxo econômico. Existem vários impactos negativos dentro da perspectiva econômica. Entre eles, eu poderia citar a alta do dólar, que superou (pela primeira vez na história) o patamar de R$ 5,70; a Bovespa, que chegou a acumular queda de mais de 40% em 2020; a queda de 5,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil neste ano, conforme prevê o Fundo Monetário Internacional (FMI); as empresas listadas na bolsa de valores, que estão perdendo valor de mercado, dentre muitos outros. Mas, prefiro citar, como especialista nas áreas de Gestão de Negócios e de Pessoas, que o principal impacto é e será o aumento disparado do desemprego, em detrimento do desafio - para não dizer sufoco -, que as organizações estão enfrentando. Esse desafio gira em torno dos grandes questionamentos: o que fazer para equilibrar as contas, continuar gerando lucros e manter os colaboradores ativos em suas funções? O que fazer para continuar sobrevivendo no mercado?

A partir das mudanças impostas pela pandemia, como serão as relações de trabalho a partir de agora?

A principal “nova” forma de trabalho, ou de relação de trabalho, é o home office. Essa modalidade de trabalho já era uma tendência antes mesmo da pandemia, mas que infelizmente era visto por alguns apenas como “moda”, ou algo que não daria certo em alguns segmentos, caso fosse aplicado. Nem se pensava na redução de custos que essa relação estreita de trabalho versus casa traria – ainda havia uma resistência sobre o tema. Essa realidade, que era distante para muitos gestores, chegou de forma obrigatória e deve permanecer - até mesmo como forma estratégica para conter ou evitar custos operacionais e outras despesas após o isolamento social. Cito ainda relação do empregador versus empregado. Ambos terão o grande desafio de amadurecer os laços de confiança. Os líderes também entram neste rol, pois o que era “cara a cara” agora será “cara através de vídeos”. Isso sinaliza que a relação de confiança entre os stakeholders deverá aumentar, pois uma das características do trabalho a distância é a autonomia que o colaborador tem de gerir o seu tempo e ainda assim mostrar resultados.

A senhora acredita numa reversão do modelo de trabalho em casa ou ele deverá ser aprimorado e mantido? O que justifica isso?

Não vou ser taxativa afirmando que haverá ou não reversão, pois isso depende da realidade do negócio. Por exemplo: muitos restaurantes que estão atendendo os clientes através do delivery voltarão a abrir quando essa turbulência passar. Isso quer dizer que para alguns ramos de negócios haverá uma diversificação na forma de trabalho, onde parte do trabalho será realizada em casa e a outra parte será realizada no ambiente corporativo. Em um ponto eu posso ser taxativa e afirmar sem medo: nada será como antes, todas as empresas, independentemente do seu ramo, sentirão a necessidade de se reinventar. Como citei anteriormente, o modelo do trabalho feito de casa entrará também como estratégia para reduzir custos operacionais. O home office deverá ser aprimorado sempre, como tudo no âmbito da administração de empresas, e deverá ser mantido com certeza, pois para muitas instituições, não é, e nem será uma escolha, mas uma questão de sobrevivência. Deverá ser aprimorado, porque a implementação desta modalidade de trabalho pegou muita gente de surpresa, empresas e pessoas. Muitos ajustes precisam ser feitos, pois alguns trabalhadores ainda estão trabalhando de casa de maneira improvisada, algumas residências não estavam preparadas para receber o home office. Isso sem falar no aprimoramento da tecnologia. Por falar em tecnologia, ressalto que esta é uma grande aliada para o sucesso do trabalho realizado a partir do lar. Como especialista da área, eu costumo dizer que as formas de trabalhar e os modelos de gestão devem ser revisados sempre, com o intuito de trazer conformidade junto aos novos desafios que surgem diariamente no mundo corporativo, seja em relação às mudanças de comportamento organizacional, de gerações e do consumidor, ou dos avanços tecnológicos que impõem novas formas de trabalho, novos modelos de gestão.

A sociedade brasileira está preparada para essas mudanças de comportamento? Quais riscos existem embutidos nisso?

Parte da sociedade brasileira não está preparada, parte está se preparando e a outra parte está ainda esperando... Na verdade, o momento é incerto, eu falo aqui de previsões possíveis dentro do contexto da administração de empresas e de pessoas. Nesse contexto, eu aponto como riscos: o aumento do desemprego, que já é uma realidade; a não recolocação profissional, pois como citei, parte das pessoas continua esperando o cenário melhorar e continua resistindo às mudanças. Para essas, o risco de não conseguir sair do lugar só aumenta. Outro perigo é o aumento das doenças ocupacionais, até mesmo da depressão. Também há o risco da oferta de salários incompatíveis com as competências do colaborador, dentre outros, como o risco do aumento da mortalidade das empresas (também já está sendo uma realidade), pois, infelizmente, nem todas as empresas conseguirão se ajustar ou criar flexibilidade suficiente para o enfrentamento da crise.   

Os atuais modelos de gestão de negócios também deverão mudar? Qual perfil de empresário/empreendedor irá se manter ativo com isso?

Na verdade, os modelos de gestão estão mudando há muito tempo. A diferença é que agora essa “remodelação” foi imposta. O momento pediu isso, aliás, impôs. Os modelos tradicionais, finalmente, chegaram ao fim e não tiveram tempo para despedidas. Como profissional da área, eu enxergo isso como oportunidade. Tudo o que gera oportunidade de mudança e evolução é positivo no âmbito das organizações, e das pessoas também. É aquela velha história: “do ruim a gente tem que extrair o que é bom”. Oportunidade para crescer é muito bom. A grande questão é: como fazer isso? Como resposta a essa questão dou duas dicas: criatividade e inovação. Não existe um só segmento que não tenha sido afetado pela pandemia, mas o que se percebe é que algumas empresas agarraram a crise como uma oportunidade e estão se reinventando, outras estão “chorando” e lamentando, sem saber para onde ir. Essa é a grande diferença entre os modelos tradicionais de gestão e os modelos inovadores e contemporâneos de gestão. O contexto atual pede um perfil empresário/empreendedor resiliente, flexível, criativo e inovador. O momento pede, de forma urgente, modelos de gestão inovadores, e isso vai depender de quem está à frente do negócio, da competência em gerir pessoas, de alinhar as competências organizacionais com as competências pessoais. Vai depender da aplicação da pesquisa para o desenvolvimento do negócio. Destaco que os modelos de gestão inovadores são arriscados. Arriscados porque tudo que é novo é arriscado, mas os empresários/empreendedores não tem outra opção.

Quais oportunidades a senhora enxerga na economia num momento tão adverso como o que estamos vivendo?

Sem empresas funcionando bem, a economia não “gira”, fica paralisada. Então, eu vejo oportunidades para as organizações, oportunidade de se reinventarem, de saírem da zona de conforto, de buscarem novas alternativas para o negócio. Acredito que para as organizações que enxergarem o momento não como fracasso, mas como oportunidade de gerar mais lucros, o crescimento é certo e o que já era bom trará ainda mais retorno positivo. É isso que vai salvar a economia, as empresas pensarem “fora da caixinha” e encontrarem as oportunidades certas para o seu negócio, com criatividade e inovação. É uma força tarefa. Neste cenário vão entrar os profissionais excelentes. Para esses, irá surgir boas oportunidades também.

Qual a importância do “reinventar" hoje?

Eu não diria reinventar, mas inovar. Tenho que citar esta palavra novamente porque o mercado está clamando por isso. A inovação é essencial no atual momento. Sem ela, dificilmente as empresas irão conseguir sair da crise. Eu arrisco ainda a dizer que é impossível sair da crise sem criatividade e inovação. Digo isso para empresas e para pessoas, sem distinção. A criatividade e a inovação são dois pontos importantes que deverão estar presentes a partir de agora. Elas andam de mãos dadas. Isso não somente em relação às organizações, mas especialmente para as pessoas, que fazem a organização. Pois, a forma que se trabalhava antes não terá mais o mesmo valor e não será mais suficiente para o mercado. É hora do trabalhador se reinventar, caso contrário perderá o lugar para outro que resolveu não se acomodar. Acredito que o segredo para manter ou conseguir novos empregos diante dessa crise que se instalou e que vai permanecer até que tudo se reestabeleça, está na resiliência, flexibilidade, criatividade e inovação. Trabalhar muito, mas com resiliência e flexibilidade para se adaptar ou se readaptar constantemente, com criatividade e inovação.




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