Inovador e ser sustentável

Publicação: 2017-09-24 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

O uso de soluções criativas para viver melhor o cotidiano é uma necessidade que virou tendência. São ideias  e conceitos que ganham forma em nichos de mercado, como a mostra de arquitetura, design de interiores e paisagismo CasaCor, cuja nova edição natalense ficará aberta até 29 de outubro, no Aeroclube, Tirol. Por vários dos 31 ambientes projetados para a ocasião, pode-se ver que sustentabilidade e economia de recursos se tornaram itens a serem valorizados e incorporados ao dia a dia.
Na Elegante cozinha da arquiteta Gladys Fernandes, há espaço para objetos resgatados, como as hélices antigas
Na Elegante cozinha da arquiteta Gladys Fernandes, há espaço para objetos resgatados, como as hélices antigas (foto: Adriano Abreu)

A mostra interage com o mercado ao mesmo tempo em que absorve tendências e as aponta para o consumidor. Economia de energia elétrica, uso de materiais de baixo impacto no meio ambiente, peças de fácil manutenção, e utilização de material descartado são iniciativas trabalhadas por vários arquitetos, designers, artistas e paisagistas em diversas composições vistas na área de 2.200 metros quadrados da CasaCor.

Destacar o essencial e valorizá-lo com criatividade. Foi no que pensaram as arquitetas Mariana Lopes e Nathalia Bocayuva ao elaborar o ambiente de uma sorveteria. “Por ser um espaço comercial, ele teria que ser visualmente atraente e economicamente viável. Mas isso pode ser levado para qualquer ambiente”, afirma Mariana. As profissionais decoraram as paredes apenas com pinturas geométricas: está na moda, são charmosas, dão um clima mais descontraído ao local, e são econômicas.

Para a iluminação, tudo em lâmpadas de LED, que apesar de caras são as mais econômicas, de melhor custo/benefício. As luminárias foram penduradas em eletrocalhas (barra de aço perfurada), que facilitam a manutenção e proporcionam um visual diferente. “A gente quis contrapôr o industrial ao ambiente cor de rosa, eles não se agridem e funcionam juntos”, ressalta Nathalia. Um toque criativo foi o uso de casquinhas de sorvete como luminárias. “A gente não focou em adornos, preferimos materiais acessíveis, até mesmo para adornar”, diz Mariana.

Materiais tidos como rústicos –  e baratos - também puderam ser  encontrados em diversos ambientes. A adega projetada pela arquiteta Débora Farias recebeu composições com tijolos de cerâmica maciça, do tipo encontrável em qualquer loja de material de construção. O resultado é sóbrio e elegante – e pouco dispendioso.

A reciclagem dá o tom na varanda de praia imaginada por Claudiny Cavalcanti. Quem chega ao ambiente logo repara nos suportes para velas feitas de cocos secos. A ideia nasceu no campo. “Ficava incomodada com desperdício de bucha de coco que via na minha fazenda. Pensei numa forma de reutilizar aquilo e veio essa ideia com as velas. Uso o coco, sem verniz ou qualquer material. Tem que ser apenas bem cortado. Já faz sucesso aqui na mostra”, diz.

Além das luminárias orgânicas,  Claudiny projetou uma parede de seixos de pedra, e utilizou material descartado para embelezar o ambiente: uma porta antiga se transformou num estiloso centro de mesa, grades de um portão viraram decoração, e mesmo uma janela do Aeroclube foi utilizada como adorno da sala. “Tiramos cinco camadas de tinta dessa peça até deixá-la no ponto ideal. A madeira de demolição é um item bastante valorizado e bom de trabalhar”, afirma.

Peças em material de reflorestamento também estão bastante valorizadas. Em seu 'living' a arquiteta Lorena Azevedo usou peças feitas no povoado de Aningas, próxima a Extremoz, cuja produção é feita por moradores do local, capacitados por um casal de designers norte-americanos estabelecidos na região. Usa-se apenas madeira de reflorestamento. “A maioria dos clientes pensa mais na economia de energia do que no impacto no meio ambiente. Mas já é uma evolução”, afirma.

De sucata à cafeteria chique
A reutilização de material descartado é um desafio criativo que muitos arquitetos apreciam. Um dos exemplos mais notáveis na CasaCor pode ser visto na área externa do Aeroclube: a chocolateria e café Silo de Açúcar foi projetada a partir de um velho tonel de óleo de castanha, transformado num moderno e charmoso ambiente pela arquiteta Olga Portela.
Olga Portela, arquiteta, transformou tanque antigo de fábrica em uma cafeteria bem estilosa
Olga Portela, arquiteta, transformou tanque antigo de fábrica em uma cafeteria bem estilosa

“Eu quis partir do zero, criar em cima de algo totalmente fora de uso”, afirma. O tonel estava abandonado num depósito em Macaíba. Olga enxergou as possibilidades da peça, e providenciou o transporte para Natal. “Disseram no começo que era loucura, mas o resultado final valeu a pena”, diz. O silo foi limpo, ganhou um toldo retrátil, e abastecimento por energia solar a cargo de placas fotovoltaicas.

Por dentro, o silo recebeu um balcão para o comércio de doces, mesa com cadeiras, e uma decoração com peças de designers, artistas plásticos e móveis da Green Pallets (em madeira de reflorestamento), tudo colorido e alegre, para contrastar com o visual industrial e metálico do silo. A obra não vai sumir com o fim da exposição. Olga vai levar o silo para um ponto na avenida Hermes da Fonseca, e pôr o espaço à disposição de um empresário que queira investir. “Ainda não sei o que será, mas já temos propostas. Em tempos de containers, o silo é diferenciado e arrojado”, afirma.

A cozinha de Gladys Fernandes e Yeda Leite aposta em materiais práticos, de fácil manutenção, convivendo junto com maquinários modernos. “Providenciamos bancadas feitas de madeira reciclada, sob encomenda, uma opção aos pré-moldados tão comuns hoje em dia, feitos em MDF”, diz. Para decorar, cachepôs de madeira de refugo. Outro material prático é o granito preto, mas resistente e adequado que o mármore.
“Antigamente a moda era o mármore, mas ele não é tão resistente aos produtos químicos de hoje”, explica. Ela indica granito e quartzitos para materias de bancada.

O Aeroclube, que passou por um processo de adaptação e reforma para abrigar a mostra, também forneceu material para ambientações criativas. No 'home office' do empresário projetado por Nadiedja Melo, uma parede com estante ganhou decoração de tacos retirados do velho piso do clube, que estava imprestável para a ocasião.

O visitante da CasaCor já tem uma interessante visão de sustentabilidade logo à entrada do evento: A recepção, projetada pela arquiteta Viviane Teles, usou apenas matérias-primas potiguares na concepção. O piso e o revestimento das paredes foram feitos com argila negra, decorados com esculturas de cerâmica, o balcão de pinho branco (madeira reflorestada) é decorado com arame prensado, e os tapetes e luminárias são de fibras naturais.

Viviane também é ambientalista e elabora projetos que economizam energia e não impactam o meio ambiente há mais de 30 anos. O material de argila, que vem do Apodi, é feito numa olaria que queima o barro com restos de podas de árvores. “A argila fica preta por ter muita matéria orgânica. A emissão de gases na produção é bem menor. E os tijolos ficam lindos em pisos e paredes”, explica.

A arquiteta afirma que algumas iniciativas sustentáveis já foram bem incorporadas aos projetos, como o uso das lâmpadas de LED, mas ainda há muito a fazer. “Na verdade, ainda estamos engatinhando nessas questões. Para que o arquiteto elabore um projeto que como um todo não agrida o meio ambiente, ele precisa de apoio do mercado, e este ainda não está preparado para isso”, analisa. Para Viviane, falta o governo apoiar medidas que conduzam à práticas saudáveis de produção.


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