Insônia digital

Publicação: 2017-07-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Tádzio França
Repórter

Perder o sono é fácil diante de tantos estímulos oferecidos pelo cotidiano. Além do estresse diário, a variedade de comunicação e lazer proporcionada pela tecnologia online também tem mantido muita gente acordada por mais tempo que deveria. Crianças e adolescentes são os mais suscetíveis aos apelos dos aplicativos de celular, computadores e redes sociais em geral. Segundo dados de 2016 da Organização Mundial de Saúde (OMS), 40% dos brasileiros disseram sofrer de algum distúrbio do sono. 

Noites mal dormidas podem ter causas variadas, como ansiedade, estresse, depressão, mudanças climáticas, esforços físicos e alimentação em horários indevidos. A insônia é a principal queixa relacionada ao sono. “A privação do sono, seja de qualidade ou de quantidade, provoca uma série de repercussões – incluindo o comprometimento no desempenho cognitivo”, afirma o neurologista Marcos Lima de Freitas, sobre os efeitos dos distúrbios de sono entre os mais jovens.
A adolescente Sarah Medeiros tem dormido cada vez mais tarde, apesar de sua rotina lhe exigir acordar as 6h
A adolescente Sarah Medeiros tem dormido cada vez mais tarde, apesar de sua rotina lhe exigir acordar as 6h

Entre crianças e adolescentes, os efeitos de poucas horas de sono  atuam diretamente em seu cotidiano típico. “Elas podem apresentar, de acordo com a gravidade, queda no desempenho escolar, fadiga, indisposição, sonolência diurna excessiva, aumento no tempo de reação, ansiedade, depressão”, lista. E mais: até o sistema imunológico pode sofrer algum tipo de modificação. “Essa alteração torna o sistema suscetível a infecções, favorecendo o aumento de peso ou descompensando doenças pré-existentes”, alerta. Os efeitos são os mesmos para adultos.

Aos viciados em tecnologia, Marcos Lima que impôr uma certa disciplina é um bom começo para restaurar o sono perdido. “Pelo menos uma hora antes do horário estabelecido para dormir, desconectar-se de tudo. Evitar toda atividade que mantenha o cérebro em alerta nessa última hora. O ambiente de dormir deve ser preservado como indutor do sono. Quando permanecemos na cama 'brigando' para dormir, esse ambiente passa a ser associado ao estado de alerta. Recomendo uma atividade monótona e relaxante para reduzir essa sensação”, explica.

Higiene do sono


Hábitos saudáveis também se referem ao sono. Dentro do que Marcos Lima classifica como uma “higiene do sono”, estão medidas como estabelecer uma disciplina nos horários de dormir e acordar, e mantendo o ambiente (quarto)  adequado, confortável, com baixo grau de ruído, e uma temperatura adequada. Ele também sugere que se evite atividades de vigília no ambiente de dormir, e que, se realizar atividade física regular, que seja distante do horário de dormir. São algumas das medidas mais básicas para melhorar a qualidade do sono. Já os tratamentos são amplos, incluindo desde medicamentos soníferos até terapia cognitiva comportamental.

Acordar com a sensação de sono não reparador é um indício de que a qualidade do sono está comprometida. A sonolência excessiva pela manhã é um desses efeitos. “As causas mais comuns da quebra de sono são os distúrbios respiratórios. A síndrome de apnéia obstrutiva do sono está associada a complicações cardiológicas e neurológicas. É considerado um fator de risco isolado para um AVC ou infarto. De imediado produz sintomas de privação do sono e a longo prazo representa um risco à saúde”, analisa.

A ida noturna à cozinha, sempre discutida quando se fala em dormir bem ou mal, pode ser realizada com bom senso. “É importante não dormir com fome ou com o estômago muito cheio. Mas é bom evitar alimentos estimulantes no período noturno. Para quem apresenta dificuldade para dormir, não se recomenda a ingestão de café, refrigerantes e bebidas alcoólicas. Lembrar que o álcool pode ser indutor do sono, porém compromete sua qualidade”, ressalta.

Dormir tarde, acordar cedo


Sara Medeiros, 13 anos, está dormindo cada vez mais tarde. A mãe, Yanna Medeiros, coordenadora de projetos culturais, vê com naturalidade a mudança de ritmo na vida da filha recém-chegada à adolescência. Uma preocupação previsível. “Ela já foi mais disciplinada nesse quesito. Antigamente dormia sempre as 21h, e agora vai até a meia-noite. Ela fica até tarde vendo séries da internet e lendo seus livros. Isso é bom, mas deve ter um limite”, conta.  

Yanna entende que a filha, assim como todos os adolescentes, se deixam influenciar pelos amigos, entram em grupos, querem fazer as mesmas coisas, partilhar os gostos em comum. “Eu sou de conversar, não de impôr, mas faço questão de acompanhar tudo. As redes sociais, os grupos de Whatsapp. Eu vigio, mas procuro deixá-la à vontade. Não quero que ela crie um distanciamento de mim e dos amigos”, explica. O diálogo facilita a convivência.

Para crianças e adolescentes, o compromisso escolar ajuda na disciplina. “O nosso relógio é programado para as 5h40. A ideia é estar de pé às 6h. Quero que ela durma mais cedo para acordar mais disposta. Já observei que há um desgaste quando ela dorme muito tarde. Quando chega em casa e almoça, quer logo dormir. Aquele horário da tarde pra estudar fica comprometido, pois bate a preguiça da noite mal dormida”, diz. “Mas preguiça para internet não existe”, brinca.

O estudante de engenharia química Hugo Amâncio, 27 anos, se reveza pela manhã, tarde e noite entre estudos e crossfit, mas quando chega em casa, o sono não vem junto. “Eu me sinto cansado, mas não sinto sono. Durmo tarde, acordo na madrugada, e não consigo mais dormir. Aí vou pra internet ou tento ler um livro pra ver se o sono volta”, conta. Ele dorme por dia uma média de cinco horas, no máximo.

Hugo acredita que a base de sua insônia é a ansiedade. Ele afirma que as noites mal dormidas não atrapalham seu dia a dia. “Não deveria, mas já me habituei a isso. Durmo pouco, mas me sinto disposto para tocar minha vida durante o dia”, diz. O estudante supõe que a base de sua insônia é a ansiedade. “Comecei uma terapia recentemente, e vou explorar mais isso na análise”, ressalta.





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