Instituição do carnaval natalense, bloco As Kengas completa 37 anos de irreverência

Publicação: 2020-02-23 00:00:00
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Tádzio França
Repórter

Foi num carnaval em Salvador, no ano de 1977, que Lula Belmont foi impactado pela imagem de um bloco formado só por homens vestidos de mulher. Eram as Mariposas da Bahia. O clima de deboche, irreverência e alegria era bom demais para ficar num lugar só. De volta a Natal, a ideia de criar um grupo local parecido já estava instalada. Algo que só aconteceu em 1983, com a fundação do bloco das Kengas,  uma instituição do carnaval natalense que do alto de seus 37 anos ainda encontra inspiração para renovar a fantasia,  retocar a maquiagem, dançar, e resistir. As eternas 'queens' da folia natalense.

Créditos: Alex RégisPara o carnavalesco Lula Belmont, as Kengas estão para Natal assim como o Galo da Madrugada está para Recife, “guardadas as devidas proporções, claro”Para o carnavalesco Lula Belmont, as Kengas estão para Natal assim como o Galo da Madrugada está para Recife, “guardadas as devidas proporções, claro”

“Eu costumo dizer que as Kengas estão para Natal assim como o Galo da Madrugada está para Recife, guardadas as devidas proporções, claro”, afirma Lula Belmont. Ele tem conhecimento de causa para falar. Lula acompanha as ondas do carnaval natalense desde os anos 60, os altos e baixos, o momento de cada década. Antes das Kengas entrarem em cena, ele conta que alguns mais corajosos já se “montavam” na Bandagália, em 1979. “Natal já teve o terceiro melhor carnaval do Brasil nos anos 60, perdeu pra Recife nos 70, e agora nos 2000 está de volta com tudo. E as Kengas sempre lá”, diz.

Nascidas na boate

O berço das Kengas foi a Broadway, uma boate gay pioneira que ficava na rua Felipe Camarão,  Cidade Alta. “Foi lá que eu e um grupo de amigos resolvemos criar o bloco. O produtor Marcos Sá deu a ideia do  nome, porque era engraçado, bem regional, e tinha a questão do duplo sentido. E já nasceu 'com k' mesmo, para chamar atenção e vender o nome mais rápido. Tinha que causar”, conta Lula.

No primeiro ano a festa rolou na rua em frente à boate, embalada pela batucada de uma xaranga, e já com a escolha da Kenga mais bonita – que na ocasião foram três: Luciano Morais, que tinha um personagem chamado “Chapéu”, Joe Maravilha, e o empresário Eclésio, já falecido. Segundo Lula, a primeira festa juntou 300 pessoas naquele domingo de 1983. Saiu  matéria na TV Universitária, e muitas notas em jornais nos dias seguintes. Em 1984 a festa se mudou para a rua Vigário Bartolomeu, por ocasião da abertura da nova boate de Belmont, o Vice-Versa. Já havia percurso e saída com orquestra, mas com os desfiles ainda no chão.

O ano de 1988 marcou outro momento chave na vida das Kengas: o baile. O primeiro aconteceu no Centro de Turismo, com direito a uma campanha de marketing pesada. “Conseguimos uma parceria com o Motel Tahiti, que na época era famoso por suas faixas – algumas bem polêmicas. Eles deram um 'banho' de faixas na cidade pra divulgar o baile. As Kengas iam invadir todos os pontos históricos da cidade. Foi um boom! Tivemos que fechar as portas do Centro, pois não havia mais condição de receber a multidão que estava do lado de fora”, conta. O público médio do bloco passou de mil para quatro mil pessoas no domingo de carnaval.

Foram cinco edições no Centro de Turismo até o lugar ficar pequeno para o público. O baile foi para o clube do América, no Tirol, e viveu outra grande fase. “A festa era tão grande que se formaram duas na mesma noite: uma no salão e outra na rua, na Rodrigues Alves. Eram quatro mil pessoas dentro do América e mais uma multidão na rua”, conta. Foram 15 anos no clube, até questões técnicas de som levarem o baile a procurar outros lugares. A festa passou pela Assen, pela boate Vogue, e até pela rua Chile, na Ribeira. Mas o povo gostava mesmo era do glamour no América.

“Em 2013 ainda fizemos um baile no América, mas foi no ano da tragédia na boate Kiss e a fiscalização de segurança nas festas estava alta. Os bombeiros quase embargaram a festa, foi um estresse danado. Então resolvemos parar com os bailes, os tempos estavam mudando”, conta Lula. Sem os bailes, o bloco resolveu turbinar a feijoada, que sempre rolou, mas passou a ser uma prévia cada vez mais animada. Desde o ano passado se tornou uma “feijoada baile”. Neste ano, colocou 500 pessoas no Solar Bela Vista. 

Madrinhas que causam

O baile de 88 também marcou o surgimento de outra figura importante entre as Kengas: a madrinha. A primeira nacional foi a cantora e atriz Tânia Alves; e a local foi Quinha Costa, escritora e atriz que mora atualmente na Europa. No primeiro baile do América a convidada foi Monique Evans, a modelo brasileira mais badalada da época. “A ideia era impactar, e a Monique estava no auge. A madrinha era uma atração à parte”, diz. No mesmo rol de celebridades vieram ainda Zezé Motta, Elke Maravilha, Maria Alcina, Cissa Guimarães, Preta Gil, Watusi, entre muitas outras.

Madrinha deve causar. Algumas, até demais. Até hoje Lula lembra da confusão causada na apresentação de Baby Consuelo, em 2016. À certa altura do show a cantora declarou que “Apesar das Kengas, todo homem pra mim é homem. O que talvez tenha faltado é uma boa mulher”. As vaias vieram na hora e a repercussão nas redes no dia seguinte foi grande. “Foi uma faca de dois gumes, pois ao mesmo tempo que irritou muita gente, repercutiu tanto que deu um ibope nacional pra gente, o Brasil todo falou”, diz Lula, rindo, sem nenhum ressentimento de Baby – que pediu desculpas depois.

A jornalista Ceci Oliveira, madrinha de 2020, afirma que este é um bom ano para o papel. “Estou muito feliz de celebrar a Danuza, que eu adorava ouvir no rádio com o seu 'oi, amor', e também por estarmos vivendo um momento de repressão à arte. Ser Kenga é resistência e acho isso simbólico demais”, diz.

Danuza eterna

O tema do bloco em 2020, “I Love Kenga”, é uma celebração à cultura drag e em especial a uma pioneira em Natal, Danuza D'Salles, personagem vivida pelo artista Arruda Salles, falecido ano passado aos 64 anos. Lula afirma que desde o ano passado o bloco vem procurando se renovar e trabalhar a questão do que é “novo”. “Em 2019 fizemos o 'Kengas Conectadas', sobre o impacto da internet e das redes sociais no mundo. E neste ano, baseado na homenagem a Danuza, destacamos o luxo da cultura drag, que é nossa base antes mesmo de se falar disso no Brasil”, explica.

Segundo Lula, mesmo sem levantar bandeiras, o bloco sempre abordou questões sobre gênero, travesti, drag, trans, cis, crossdesser, etc., antes mesmo disso tudo receber a visibilidade que tem hoje. O produtor conta que, pessoalmente, nunca gostou de rótulos. “Por que eu teria que rotular mais ainda o que todo mundo já rotula? As Kengas nunca venderam a questão sexual de ninguém, a gente vende o carnaval, a fantasia, o lúdico. Eu considero que mesmo assim a gente é político, mas de uma forma divertida, debochada”, analisa.

A nova fase do carnaval de Natal também é vista com alegria por Lula. “Acho ótimo, a gente sempre esteve aqui pra somar. E agora temos até concorrência, né?”, brinca. Segundo ele, a luta agora é destacar o pólo do Centro Histórico como o “mais fantasiado e irreverente” de Natal. Segundo ele, uma vocação natural da área. “Ano passado o Beco da Lama se manteve os quatro dias lotado. Aqui tem vários gêneros musicais, pessoas fantasiadas, etc. A gente trabalha isso mas sempre foi dessa forma. O bloco inclui todos os segmentos da sociedade, acho que é o único que consegue unir todas as classes sociais”, diz.

Lula adianta que as Kengas estão preparando uma celebração especial de seus 40 anos. “Será lançada uma revista, e as bonecas de todas as madrinhas. O projeto já foi aprovado pela Lei e estamos correndo atrás da captação”, diz Lula.

Programação
DOMINGO, 23.02

Shows

Polo Petrópolis
18h - Banda Submarino Amarelo
19h30 - Andiara Freitas (19h30)
21h30 - Roberta Sá

Polo Ponta Negra
20h - Priscila Braw (20h)
22h - Monobloco (22h)

Polo Centro Histórico
14h - Acorda Clubber
16h - João Batista do Fama
18h - Desfile das Kengas
20h - Glória Groove

Polo Redinha
(Palco Cruzeiro)                                          
19h - Isaque Galvão
21h - CPI da Folia

(Palco Buiú)                                              
20h30 - Nara Costa
22h30 - Babado Novo

Polo Oeste
18h - Robson Paiva
20h - Som e Balanço
22h - Capilé

Polo Praia do Meio
15h - Banda Detroit (Pranchão)

Polo Ribeira
20h - Desfile das Escolas de Samba do Grupo A

Blocos
PETRÓPOLIS
Bloco Submarino Amarelo (16h)

CENTRO HISTÓRICO
As Kengas (14h)

ROCAS
Bloco Língua Ferina (18h)
Pinto Pelado (21h30)

PONTA NEGRA
Se Brincar Eu Pego (17h)
Suvaco do Careca (15h30)

PRAIA DO MEIO
Bloco Carnapraia (15h)
Banda Detroit e Rildo Lima

REDINHA
As Kengas de Tambores (11h)
As Raparigas (12h)
Sem Preconceito Eu Vou (16h)
Do Seu Boga (15h30)
Banda do Siri (16h)







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