Instituto Câmara Cascudo completa dez anos de portas abertas exibindo a obra e a memória do etnógrafo potiguar

Publicação: 2020-01-15 00:00:00
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Ramon Ribeiro
Repórter

O Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo, museu sobre um dos mais importantes personagens da história potiguar, localizado justamente na casa em que ele morou, completou neste início de 2020 dez anos de fundação. É um feito importantíssimo, levando em consideração que se trata de uma entidade cultural mantida sem apoio público, apenas pela própria família.

Créditos: Emanuel AmaralResidência onde Câmara Cascudo viveu mantém o ambiente, os objetos e as memórias do mestreResidência onde Câmara Cascudo viveu mantém o ambiente, os objetos e as memórias do mestre
Residência onde Câmara Cascudo viveu mantém o ambiente, os objetos e as memórias do mestre

Diretora do Instituto, Daliana Cascudo, neta do patrono da casa, faz um balanço detalhado da primeira década de funcionamento do museu. Um dos projetos principais posto em prática nesse período foi a digitalização do acervo de correspondências de Câmara Cascudo, disponível para consulta no local desde 2013. A ação permitiu a ampliação das pesquisas sobre as várias áreas de estudo do intelectual, bem como a de alguns de seus colegas, como Mário de Andrade, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre e Monteiro Lobato.

Daliana lembra ainda que toda a biblioteca particular de Cascudo, com mais de 10 mil livros, também está disponível para consulta. Nesse ponto, ela destaca a produção acadêmica desenvolvidos com o auxílio do rico acervo do Ludovicus, citando alguns trabalho publicados, como “O poeta Câmara Cascudo: um livro no inferno da biblioteca", de Dácio Galvão, “Câmara Cascudo, O 'Provinciano Incurável': Desvendando os caminhos de História da Alimentação no Brasil", de Mariana Corção, “Alguns compassos - Câmara Cascudo e a música (1920/1950)", de Cláudio Galvão, e “Câmara Cascudo e a Argentina intelectual: um joio na seara latino-americana", de Joatan David Ferreira de Medeiros.

Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Daliana lista outras ações importantes desenvolvidas pela Instituto. Entretanto, sem dúvida, o que lhe dá mais orgulho é olhar para trás e ver que nesses dez anos, não importa os perrengues, a casa sempre esteve de portas aberta.

“Temos uma visitação constante, com destaque para o público oriundo das escolas, tanto privadas como públicas”, diz a diretora, ressaltando que apesar da necessidade da cobrança de ingresso (R$ 10) para a manutenção do museu, escolas públicas e projetos sociais são isentos de cobrança, e demais estudantes pagam apenas meia entrada apresentando a carteira. “Infelizmente não temos uma visitação turística tão relevante como gostaríamos, talvez oriundo do fato de não possuirmos em nossa cidade um roteiro cultural estabelecido”.

Sobre os desafios para deixar o lugar em pleno funcionamento, Daliana diz que reside na manutenção do prédio, que, por se tratar de edificação tombada, requer cuidado especial. Outro ponto é na manutenção da própria instituição, uma vez que preciso arcar, mensalmente, com despesas de pessoal, água, luz, internet e segurança eletrônica.

Um dos pontos que a diretora lamenta é a pichação recorrente da fachada. “Realizamos anualmente a pintura interna e externa do prédio, inteiramente com recursos próprios, o que consome um montante razoável de recursos financeiros. Mas temos uma batalha perdida contra a pichação da nossa fachada, algo que acontece de forma recorrente e que provoca um gasto adicional para nós”, comenta.

Créditos: Magnus NascimentoDaliana Cascudo, diretora do Instituto, diz que apesar dos perrengues, a casa se manteve abertaDaliana Cascudo, diretora do Instituto, diz que apesar dos perrengues, a casa se manteve aberta
Daliana Cascudo, diretora do Instituto, diz que apesar dos perrengues, a casa se manteve aberta

Para os próximos anos, uma das metas do Ludovicus é ter o acervo documental cascudiano digitalizado. Trata-se de um  arquivo composto por material de pesquisa, originais datilografados, separatas, plaquetes, jornais, dentre outras coisas. “É uma forma de contribuir para a sua conservação e para a disponibilização segura à pesquisa destes materiais, dada a fragilidade dos seus suportes físicos”, explica Daliana. Ela também espera ver mais obras de Cascudo reeditadas à nível nacional. Essa responsabilidade está à cargo da Global Editora (São Paulo) desde o ano 2000. A editora já reeditou cerca de 40 títulos do potiguar. Mas vários títulos importantes ainda estão à espera de uma nova edição, tais como “Cinco livros do povo”, “Ensaios de etnografia brasileira”, “Flor de romances trágicos”, “Melegro”, “Geografia do Brasil Holandês”, “Tradições populares da pecuária nordestina”, “Trinta estórias brasileiras”, “Dois ensaios de história”, “Voz de Nessus”, entre outros.

“Nosso grande objetivo é tornar toda a obra cascudiana, composta por mais de 200 publicações, disponível no mercado e acessível a todos os leitores e pesquisadores interessados. Que possamos atingir este objetivo e honrar este legado que muito nos orgulha”, projeta a diretora do Instituto Câmara Cascudo.

Seis momentos de uma década:

Digitalização das cartas
“Nosso primeiro grande projeto foi a digitalização do acervo de correspondências de Câmara Cascudo, no total de 15 mil cartas, executado durante três anos no período de 2011 a 2013, através da contratação da empresa potiguar MaisData. O acervo encontra-se inteiramente digitalizado e disponível para consulta em terminais de computador na nossa sede. Trata-se de um material quase inteiramente inédito, que testemunha os laços de amizade e o diálogo mantido por Cascudo com nomes como Mário de Andrade, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, Gilberto Freyre, Josué de Castro, Monteiro Lobato, entre outros”.

Parcerias Acadêmicas
“Outra iniciativa de sucesso foi o estabelecimento de acordos de cooperação técnico-científica com diversas instituições acadêmicas do nosso estado, tais como a UFRN e a UNI-RN. Estas parcerias institucionais geraram grandes frutos como a reedição de diversas obras de Cascudo e a realização de eventos internacionais, como o 1º Encontro Luso-Brasileiro, realizado em Lisboa, em 2016, através da UNI-RN”.

Grafite
“A realização do projeto 'Grafitti para Cascudo', nos anos de 2012, 2014 e 2016, também é motivo de orgulho para nós. O muro externo, com extensão de 52 metros, foi preenchido com trabalhos de grafite a cargo de uma equipe de grafiteiros potiguares”.

Cascudo na televisão
“Tivemos um papel de destaque como fonte de pesquisa para a série “História da alimentação no Brasil”, produzida em 2017 com direção e produção de Eugenio Puppo e exibida em 13 episódios no canal CineBrasil TV. A série toma por base o livro homônimo de Cascudo e visita diversas cidades do Brasil e de Portugal”.

Exposição em São Paulo
“Em parceria com a Casa da Ribeira São Paulo, o Ludovicus realizou a exposição 'O Tempo e eu (e Vc) – Câmara Cascudo”, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no ano de 2015 (a exposição foi encerrada antes do tempo devido ao incêndio de grandes proporções que atingiu o museu). A exposição teve como principal objetivo aproximar Cascudo e sua obra do grande público, tendo como eixos temáticos: biografia, danças, oralidade, crenças e a cozinha brasileira.

Exposições
“Nossa instituição ainda buscou cumprir o seu papel de fomentadora da arte e da cultura potiguar, sediando inúmeras exposições externas, como a intervenção fotográfica 'Canto de Muro', da artista plástica Ângela Almeida, e lançamentos de obras, como 'Cultura Popular: Vivências e anotações de um pesquisador folclorista', do escritor potiguar Gutenberg Costa, e 'Cascudinho, o menino feliz', de Diógenes da Cunha Lima.