Instrumento social: série destaca a Rabeca e sua importância cultural

Publicação: 2020-06-03 00:00:00
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Tádzio França
Repórter      

Há séculos a rabeca faz a trilha sonora dos sertões, das áreas rurais, do interior, da cultura brasileira profunda. O ancestral do violino ainda embala festas e tem muita história pra contar. E essa contação de histórias na forma de prosa, verso e música é uma missão que o ator, compositor e rabequeiro Caio Padilha tem levado à frente com “Memória da Rabeca Brasileira”, uma série de debates virtuais que ele está apresentando mensalmente via Youtube e Facebook. Em cada episódio Padilha recebe convidados, analisa a rabeca, e demonstra importância do instrumento como patrimônio cultural.   

Créditos: DivulgaçãoCaio Padilha comanda uma série de debates virtuais com “Memória da Rabeca Brasileira” via Youtube e FacebookCaio Padilha comanda uma série de debates virtuais com “Memória da Rabeca Brasileira” via Youtube e Facebook


“Memória da Rabeca Brasileira” é um debate em sete partes sobre a música de rabeca e sua conservação enquanto patrimônio imaterial da cultura brasileira. Para a conversa Caio Padilha convoca outros rabequeiros, artistas, escritores e estudiosos de todo Brasil. O debate tem mediação do fotógrafo e professor Marcuse de França, e traz um tema diferente a cada edição. “Quem acompanha os debates vai perceber que apesar do nome rabeca estar protagonizando o título, as questões vão para muito além do instrumento em si”, ressalta o músico. A série é transmitida sempre na última quinta-feira do mês.

Caio Padilha afirma que a série não é só para interessados especificamente em cultura popular, mas também em cultura brasileira e na própria história do Brasil. Ele exemplifica com o episódio de lançamento, “O agreste de Fabião das Queimadas”, levado ao ar em abril. A história do escravo potiguar que através da rabeca juntou dinheiro para comprar sua liberdade, juntamente com a da mãe e da prima, com quem se casou. Para Caio, isso tem uma simbologia enorme.

“A história da rabeca no Rio Grande do Norte nasce com Fabião das Queimadas no agreste do século 19. Um rabequeiro preto e escravizado, que comprou sua própria alforria tocando rabeca. Isso mostra que a rabeca na cultura brasileira está ligada aos ideais de liberdade e de afirmação do povo preto brasileiro”, explica. Padilha ressalta que lembrar disso é ainda mais importante em tempos nos quais se vê reaparecer manifestações de supremacia branca e flertes com o autoritarismo no Brasil e no mundo.

O novo episódio da série, programado para 25 de junho, também é um dos mais aguardados, segundo o rabequeiro: "Fronteiras entre o Violino e a Rabeca" vai discutir as diferenças e similaridades entre os dois instrumentos irmãos. “Vamos discutir uma série de dualidades importantes para entender o Brasil. O moderno e o arcaico, o popular e o erudito, o estrangeiro e o nacional. São muitas questões transversais em torno da memória da rabeca brasileira. Quando você se dá conta não está falando mais de rabeca, está falando de Brasil”, afirma. Participarão do debate violinistas, rabequeiros e pesquisadores. Entre eles, o músico Ricardo Herz, um dos mestres do chamado violino popular.

No vídeo, músicos e pesquisadores debatem da forma mais harmônica que os encontros on-line permitem. “A dinâmica entre os convidados é muito nova, para todos nós artistas que estão vivendo esses tempos de quarentena e descobrindo essa maneira de dialogar com as conferencias de vídeo”, diz Padilha. No entanto, ele afirma que o melhor do debate é a troca de idéias. “O fato de chamar pessoas de outros estados para conversar sobre esses temas tem trazido muito aprendizado para todos nós, e muito contentamento em poder, mesmo à distância, manter esse diálogo com os nossos pares, pessoas preocupadas com a preservação dessa cultura”, afirma.

A série terá ainda como temas “Dançares e Cantares da Rabeca Brasileira", "Mulheres Rabequeiras no Brasil", "A Rabeca no Cinema Brasileiro", e encerrando com "Panorama da Lutheria de Rabeca no Brasil". Cada debate tem em si discussões sobre processos de colonização, de processos culturais, políticas públicas, e uma série de questões relacionadas. Os episódios serão editados também em áudio para formarem uma série de podcasts que deverá ser lançada já a partir de agosto deste ano.                
  
A importância da rabeca na cultura nacional também se reflete na percepção pessoal de Padilha como artista. O instrumento surgiu em sua vida em meio a uma crise vocacional. “Eu estava com 19 anos, era um ex violinista mirim aposentado, e tinha acabado de passar para meu curso superior na UFRN, estava meio em crise com a música. A rabeca foi uma chave fundamental para reanimar meu interesse pela música, agora por um viés mais identitário, uma busca mais subjetiva, mais emocional, da minha história e a do povo brasileiro”, diz.

A própria idéia da série surgiu de uma inquietação do artista diante do pouco interesse atual pela cultura no Brasil. “O projeto surgiu a partir do meu descontentamento com as políticas de preservação do patrimônio imaterial. A gente vive um momento em que o ministério da cultura foi extinto, o Iphan e a secretaria de cultura estão sendo sucateados. O artista precisa tomar as providências para manter o patrimônio imaterial brasileiro vivo, e como sou rabequeiro, achei que poderia dar a minha contribuição em torno da preservação da memória da rabeca brasileira”, conclui.        

Serviço:
Série “Memória da Rabeca Brasileira”, por Caio Padilha. 

Todas as últimas quintas do mês no Youtube e Facebook. 








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