Insuperáveis “leis” de mercado

Publicação: 2020-09-24 00:00:00
Alcyr Veras
Economista e professor universitário            

O escocês Adam Smith, o inglês David Ricardo e o francês Jean-Baptiste Say batizaram, durante o século dezoito, a clássica “Lei” da Procura e da Oferta. Na realidade, eles não criaram nada de novo. Apenas constataram o que acontecia nas relações econômicas. Ou seja, eles observaram que quando a procura por um determinado produto aumentava, o preço subia. E quando a procura diminuía, o preço também diminuía. E do lado da Oferta acontecia o contrário: quando a oferta aumentava, o preço baixava.

Mas, isso não tira o pioneiro mérito desses três brilhantes e talentosos economistas; porque foi a partir dessas constatações que eles formularam as doutrinas do pensamento econômico, as quais serviriam de fundamentos para as teses da economia clássica liberal, evoluindo posteriormente para o neoliberalismo. O moderno modelo neoliberal tem como ponto forte a prática da economia de mercado, em que predomina a livre concorrência da iniciativa privada, tendo o Estado (governo) menor poder de intervenção na economia. Já o modelo estatizante, no qual é forte a presença do governo na economia, tem como base o estado socialista. Esse sistema econômico socialista fracassou na grande maioria dos países do bloco oriental. 

Mais tarde, com o advento do capitalismo, surge a formação do mercado financeiro, representado, sobretudo, pela venda de “papéis” (títulos e ações). Estavam assim, criadas as sociedades anônimas (S.A) — as chamadas empresas de capital aberto.

Hoje, com a globalização, o mercado financeiro é o termômetro mundial da economia e ainda funciona baseado na velha prática da “Lei” da Procura e da Oferta. Quando a cotação das ações da Bolsa de Valores sobe, o Câmbio desce, e vice e versa. 

Com base na movimentação das relações econômicas que acabamos de comentar, vamos agora analisar o que está, atualmente, acontecendo na economia brasileira. Antes, porém, precisamos entender que o fluxo monetário de pagamentos que produz o mecanismo de funcionamento da economia, chama-se Meio Circulante.

Observa-se nos últimos sete meses, que um considerável montante de dinheiro ingressou no meio circulante da economia brasileira. 

Montante este, proveniente da liberação do FGTS; do auxílio emergencial; liberação de crédito para micro empresas; concessão de empréstimos para pequenas e médias empresas; e desoneração da folha de pagamento salarial. Esse grande volume de dinheiro foi muito importante para compensar as perdas salariais, dos desempregados pela pandemia. Isso aumentou o potencial de consumo das famílias.

Como a economia estava parcialmente paralisada, operando apenas com 30 ou 40% de sua capacidade instalada, o grande fluxo de dinheiro representando a Procura tornou-se muito maior do que a Oferta (representada pela baixa produção devido a pandemia). Por isso é que, no mês de agosto, tivemos uma espécie de “bolha inflacionária” com índice acima do esperado, em somente dois setores da economia: alimentos e material de construção. Não esquecer que ainda estamos em regime econômico de excepcionalidade, e esses dois setores são de forte apelo de consumo. A ligeira inflação que se observa é falso alarme, pois está ligada aos efeitos retardados da entressafra.
 
Por outro lado, o Brasil precisa sair dessa permanente relação conflituosa, dessa infindável “briga de gato e rato”, entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Isso é péssimo para a economia brasileira perante o mercado exterior. Sou fã incondicional do gênio Walt Disney, mas lamento que ele não tenha editado um filme de paz e amor entre Tom e Jerry.








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