Inteligência, razão e emoção (2)

Publicação: 2019-07-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Dr. Jorge Boucinhas
Médico e Professor

Considerado a partir do ângulo evolutivo o cérebro humano compreende duas partes básicas. No seu centro, nas camadas encefálicas mais profundas, está a mais primitiva, comum a mamíferos e mesmo a répteis, chamada de Cérebro (Sistema) Límbico. Seu tamanho, proporcionalmente ao tamanho do corpo da espécie animal, em geral varia pouco de uma para outra. Ele controla as emoções e a fisiologia geral do organismo, e tem uma organização muito simples. Em maioria, suas áreas não estão organizadas em grupos organizados de células nervosas que o capacitem a processar

informação. Até o contrário, pois em algumas delas, mais centrais, como numa chamada amígdala, os neurônios parecem ter se juntado ao acaso. Devido a essa estrutura rudimentar, ele, que responde pelo lado emocional do comportamento, processa informações de modo primitivo embora seja rápido e ágil, automático mesmo.

Este Sistema Límbico é uma central de controle que processa continuamente informações de diferentes partes do corpo. Regula respiração, circulação e pressão sangüíneas, apetite, sono, desejo sexual, Sistemas Endócrino e Imunológico. Sua missão aparenta ser manter essas diferentes funções em equilíbrio, num auto-ajuste dinâmico que assegura a vida. Olhando desse lado do prisma, as emoções talvez não sejam mais do que experiências conscientes do conjunto de reações fisiológicas, supervisionadas e reajustadas pela atividade dos sistemas corporais em resposta às exigências dos ambientes interno e externo. Tal lado emocional do funcionamento cerebral, então, está mais relacionado ao físico do que ao raciocínio, e é por isso que é mais fácil acessar emoções pelo corpo do que pela linguagem verbal, podendo-se trabalhá-las diretamente através de exercícios físicos, alimentação ou Acupuntura. Em contrapartida, relacionamentos emocionais, mesmo a interação com os outros seres, têm uma enorme repercussão física, com impacto direto na sensação de bem-estar geral.

Ao redor da estrutura mais primitiva, no curso de muitos milhares de milênios de evolução, uma camada mais nova formou-se. Trata-se do Neocórtex, cuja superfície dobrada dá ao cérebro sua aparência enrugada característica. Está na superfície porque, do ponto de vista evolutivo, é a camada mais recente. Controla a cognição, a linguagem, a abstração e o raciocínio. Compreende neurônios dispostos em camadas organizadas e, como um microprocessador de computador, elas estão ajustadas para o processamento mais favorável de informações. Ele também tem meios extraordinários de trabalhar sons, pelo que se abrem as portas para a integração musical.

Em seres humanos, a área do Neocórtex localizada por trás da testa é chamada Córtex Pré-Frontal, o qual é especialmente bem desenvolvido. O Córtex Pré-Frontal humano representa uma proporção muito maior do encéfalo total do que nos demais

animais, exceto golfinhos. É responsável pela concentração intelectual, pela regulação das relações sociais e pelo comportamento ético. Faz planos para o futuro e trabalha com símbolos abstratos. Por tais características é que o cérebro cognitivo é o componente essencial da civilização.

Nos fins do século passado um grande médico norte-americano, então na direção do Departamento de Neurologia da Universidade de Iowa, de nome Antonio Damásio, conseguiu oferecer uma teoria coerente para explicar a tensão constante entre os aspectos emocional e racional do comportamento humano (em outras palavras, o conflito tão comum entre paixão e razão). Ademais, ele foi além e também tentou explicar porque sua interação é imprescindível à vida. Segundo teorizou, a vida mental desenrola-se através de uma batalha constante entre dois elementos, numa verdadeira “busca pela supremacia”. De um lado, o Neocórtex (“cérebro” cognitivo, consciente, racional, voltado para a vida de relação), do outro, o Sistema Límbico (“cérebro” emocional, inconsciente, vegetativo-metabólico, ligado às sensações corporais), ambos altamente interligados e interdependentes, emulando uma integração na qual cada qual contribui de modo diverso para o comportamento humano final. Os dois recebem informações do mundo exterior mais ou menos simultaneamente. Desse momento em diante, eles podem cooperar ou competir entre si sobre o controle do pensamento, das emoções, do comportamento. A partir disto orientam-se as sensações internas e as relações interpessoais. A discórdia entre os dois, pouco importa a forma que tome, gera infelicidade. Pelo contrário, quando colaboram entre si, vivencia-se harmonia, o “cérebro” emocional dirigindo o ser em direção às experiências prazerosas desejadas e o cognitivo fazendo com que se as alcance do modo mais eficiente possível. Desta colaboração sintônica resultam paz e auto-satisfação.

O que os cientistas sugerem alcançar-se, isso ver-se-á no próximo Artigo.







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