Interdição de casa de shows teria motivado exoneração de comandante

Publicação: 2018-05-16 00:00:00 | Comentários: 0
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Yuno Silva
Repórter

A exoneração do coronel Luiz Monteiro da Silva Júnior do cargo de comandante geral do Corpo de Bombeiros Militar do RN, publicada na edição desta terlça-feira (15) do Diário Oficial do Estado, “está diretamente ligada à interdição da Shock Casa Show”. A afirmação é do próprio oficial, que estava no comando da corporação há apenas dois meses. O CBMRN interditou a casa de eventos, localizada em São Gonçalo do Amarante, na sexta-feira (11), após identificar irregularidades em quesitos de segurança. Contudo, mesmo com a restrição chancelada por vistoria técnica, os três shows agendados para o sábado (12) aconteceram.

Tenente-coronel Monteiro (D) diz que foi exonerado por contrariar determinação do governador Robinson Faria para liberar casa de shows
Coronel Monteiro (D) diz que foi exonerado por contrariar determinação do governador Robinson Faria para liberar casa de shows

A TRIBUNA DO NORTE teve acesso ao Auto de Interdição, documento expedido pelos Bombeiros no dia 11 de maio, onde é informado que “o responsável pelo evento não protocolou projeto de proteção contra incêndio e pânico, item primordial para constatação das condições de segurança necessárias, como também não possui Atestado de Vistoria do Corpo de Bombeiros das estruturas fixas”.

O coronel Josenildo Acioli Bento, subcomandante do CBM, responde interinamente pelo comando geral. Questionado sobre a possibilidade de ser efetivado no posto, Acioli assegurou que ainda não tem nada oficial: “Estou aguardando a decisão do governador Robinson Faria com tranquilidade”, informou. Sobre os motivos que levaram a exoneração do Coronel Monteiro, ele preferiu não se pronunciar.

O ex-comandante geral de 43 anos, 20 dos quais dedicados ao Corpo de Bombeiros Militar do RN, acredita que a exoneração teve caráter político. “Não queremos que o episódio da Boate Kiss (onde um incêndio vitimou 242 pessoas em janeiro de 2013) se repita aqui no Estado, nem em canto nenhum do mundo. A casa de eventos em São Gonçalo do Amarante estava irregular, por isso a decisão de interditar. Infelizmente o governador Robinson Faria não entendeu, ao ponto de ligar já determinando que a gente liberasse o evento mesmo estando irregular. Tentei explicar, meio sem conseguir, porque ele (o governador) estava muito alterado e, como o posicionamento final foi pela permanência da interdição, disse que ia me exonerar e assim o fez. Comandar dessa forma é bem complicado, como não tinha competência para contrariar as normas fui exonerado”, disse o coronel Monteiro à reportagem. Ele explicou que o CBM exige o mínimo necessário para garantir a segurança do público. “E o que é o mínimo necessário? É ter o atestado de vistoria do Corpo de Bombeiros”.

Interdição de casa de festas teria sido o motivo da exoneração
Interdição de casa de festas teria sido o motivo da exoneração

Através de nota, o Governo do RN limitou-se a afirmar que “tem feito ajustes pontuais nas equipes de algumas secretarias e órgãos, comuns na constante busca em dar mais dinâmica à gestão. Novos secretários e coordenadores têm se somado a este esforço contínuo e os que saem deixam sempre um reconhecido legado de trabalho e competência. A troca no comando do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Norte faz parte deste processo”.

O coronel Luiz Monteiro informou que os produtores da casa de eventos começaram a se preocupar com a falta do atestado de vistoria quando a PRF cobrou a documentação licenciando o funcionamento. “Como queriam que a PRF fizesse o patrulhamento na área, começaram a correr em cima da hora. Recebi informações da PRF na sexta-feira (11), sobre a pendência para o evento no sábado (12), fizemos tudo que foi possível para ajudar, considerando que o governador Robinson Faria julgava ser um evento de interesse público e do interesse dele. Mas quando o caso entra no campo da legalidade, a decisão tinha que ser técnica e temos que fazer cumprir a norma".

Ato arbitrário
O tenente-coronel Jerbes de Oliveira Lucena, vice-presidente da Associação dos Oficiais Militares Estaduais (ASSOFME-RN), criticou a exoneração e chamou o ato de “arbitrário”: “Foi um ato arbitrário. Liberar um evento irregular vai de encontro à legislação”, avaliou o militar. Segundo Lucena, “a casa de eventos está irregular há um certo tempo e o Ministério Público Estadual em São Gonçalo do Amarante tem conhecimento disso”.

Ele contou que a PRF, acionada para patrulhar a área durante o evento do sábado (12), cobrou a documentação do Corpo de Bombeiros. “Como não havia atestado de vistoria, fizeram contato com o CBM e a partir daí desencadeou essa situação. O evento aconteceu à revelia, e a Delegacia de Plantão Zona Norte foi comunicada: nós fazemos a fiscalização legal, enquanto que o cumprimento das determinações deve ser feito pela polícia”, afirmou. Lucena garantiu que “está tudo documentado” e que o ex-comandante está respaldado. “O coronel Monteiro tem mais de 20 anos de carreira, não dá para jogar todo um trabalho na lama”.

Ouça o áudio:


Descrição do áudio
Declarações do coronel Monteiro que circularam nas redes sociais:

“Procuramos o tempo todo viabilizar o evento, porque tinha interesse do Governo. Mas entrou no campo que a lei impedia, saiu do campo discricionário e entrou no campo legal, e a decisão tinha de ser técnica. E infelizmente o governador não entendeu, não entendeu ao ponto de ligar já determinando que a gente liberasse o evento. Eu tive que explicar, meio sem conseguir porque ele estava muito alterado, e o posicionamento final foi que ia permanecer interditado, e ele disse que ia me exonerar e assim o fez. infelizmente, comandar dessa forma é bem complicado. Tentamos muito ajudar. Inclusive analisamos o projeto na sexta, no sábado de manhã, de tarde, de noite, e não conseguiram se regularizar. E aí tivemos que tomar aquela atitude. Estou tranquilo, consciente de que tinha que ter tomado essa decisão. Estava fora da minha alçada decidir diferente do que a lei determinava".


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