Inveja!

Publicação: 2020-11-22 00:00:00
Marcelo Alves Dias de Souza  

Das franquias do cinema – que me perdoem Guerra nas Estrelas, Indiana Jones e Harry Potter, das quais também sou fã –, a minha preferida é, de longe, a que tem como protogonista o espião 007. O Bond, James Bond. 

A personagem James Bond e suas aventuras são uma criação do britânico Ian Fleming (1908-1964), militar, jornalista, escritor e, sobretudo, mestre dos “romances de espionagem”. “Casino Royale”, de 1953, é o livro de estreia. Ele nos apresenta o espião 007: “charmoso, sofisticado, bonito, friamente implacável e mortal”, como consta da edição de possuo, da Penguin Books, de 2006. Ali Bond enfrenta um operador russo denominado “Le Chiffre”. Vence na mesa de baccarat. E envolve-se, claro, com a fêmea fatal de estilo. A “Casino Royale” seguiram-se mais de uma dezena de títulos. Foi logo um sucesso. De público e de crítica. E as estórias de Bond, mesmo após a morte do seu criador, continuaram a ser escritas por outros autores de talento. O legado de Fleming é indiscutível.

Mas foi quando transposto para a grande tela, nos anos 1960, que a legião de fãs do espião 007 explodiu. O primeiro filme foi “Dr. No” (“007 contra o satânico Dr. No”, entre nós), de 1962, direção de Terence Young (1915-1994), com Sean Connery e Ursula Andress no elenco, entre outros. Estou entre esses milhões de fãs. Desde adolescente, pelo menos. Devo ter visto e revisto todos os filmes. Os oficiais (o 25º da franquia deve ser lançado em 2021) e os não oficiais. Não canso. Morando em Londres, inclusive, saí várias vezes em busca de Bond, de M (o chefe do MI6), de Miss Moneypenny, do engenhoso Q e do resto da turma. Cheguei até a ir à sede real do MI6, a agência de inteligência britânica para questões no estrangeiro, que fica em Vauxhall Cross, na margem sul do Tâmisa. Tentativa de ingresso frustrada, mesmo eu afirmando estar a serviço da imprensa livre brasileira. Será que tenho cara de contraespião? 

Na minha opinião, dos atores que interpretaram James Bond – que me perdoem George Lazenby, Timothy Dalton, Pierce Brosnan e Daniel Craig – Sean Connery (1930-2020) e Roger Moore (1927-2017) foram os melhores. Infelizmente, por estes dias, Connery foi mais um que nos deixou. Terei saudades desse grande escocês, tanto pelos seus “007s” como por ter dado rosto ao frade Guilherme de Baskerville, quando da transposição do meu romance preferido, “O nome da Rosa” (“Il nome della rosa”, 1980), para o cinema (o filme é de 1986). 

E eu tenho quatro explicações para essa minha preferência. Primeiramente, talvez Connery e Moore sejam simplesmente melhores atores ou mesmo adaptaram-se melhor ao papel. A segunda é puramente nostálgica: eles foram os primeiros atores a interpretar Bond em sequência, seis ou sete filmes cada, e tendemos a ser saudosos de um tempo que não volta mais. A terceira explicação mistura nostalgia com o próprio enredo dos livros/filmes de James Bond: originalmente, na concepção de Fleming, eles estão quase sempre relacionados à guerra fria, algo que até hoje continua no imaginário de quem viveu aquele embate EUA/OTAN x URSS/Pacto de Varsóvia. E os filmes produzidos naquele período representam melhor esse imaginário. A quarta é mais técnica: talvez as estórias do espião 007 sejam de fato datadas, no sentido de representar aquela concepção de espionagem da guerra fria, com MI6, a CIA e a KGB, as tecnologias daqueles anos (sempre revolucionadas pelo engenhoso Q, com suas armas, seus carros e seus gadgets), em suma, as coisas e a história de então. As duas últimas explicações são as que eu mais gosto, porque, sendo já pretensioso, são inteiramente minhas. De toda sorte, tudo isso me faz preferir – e acredito ser essa uma opinião amplamente prevalente – os “primeiros Bonds”. 

Bom, como eu invejei as aventuras do espião 007, seja na pele de Connery, de Moore ou de seus sucessores. Sobretudo cobicei as bond girls. Honor Blackman, Diana Rigg, Lois Chiles, Maud Adams e a oficiosa Kim Basinger, entre as minhas preferidas. Mas olhem que eu só cito as garotas mais “experientes”. Para me evitar, hoje, qualquer problema.