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Economia
'Investidor não tem medo de taxa de juros', diz Ricardo Abreu
Publicado: 00:00:00 - 27/03/2022 Atualizado: 16:03:33 - 26/03/2022
Felipe Salustino
Repórter

O empresário potiguar Ricardo Abreu, da Abreu Imóveis, assumiu essa semana a presidência da Associação Brasileira do Mercado Imobiliário (ABMI). A entidade foi fundada no final da década de 1990 e está presente em 23 estados brasileiros. É a primeira vez que um potiguar assume a presidência da ABMI, que tem como objetivo estimular a competitividade e criar um espaço para troca de informações entre os associados. 

Adriano Abreu


Ricardo Abreu diz, em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, que a recente alta na taxa básica de juros (Selic) — alcançando hoje 11,75% —  não deve  causar efeitos negativos imediatos para o setor imobiliário. Para ele, o  atual cenário econômico do Brasil, que registra avanço na inflação e alta no preços das commodities, é reflexo direto da crise derivada  pela guerra na Ucrânia.  “A gente espera que o Brasil volte a ter uma taxa de juros de 3% ou 4%”, diz. Ele também saúda a chegada do novo Plano Diretor em Natal. “Nosso mercado vai crescer de forma sistemática e bastante relevante”. Leia entrevista:

Como o senhor avalia o setor imobiliário atual, após a fase mais grave da pandemia?
Em relação ao mercado local, a gente teve um tempo difícil, porque nós já vínhamos numa recessão. A chegada da pandemia foi catastrófica para toda a economia, mas o mercado imobiliário foi um dos poucos que conseguiram surfar uma boa onda. As pessoas começaram a olhar para o bem-estar da família e para a forma como estavam criando os filhos. Isso fez com que houvesse uma procura muito grande para mudar de casa e sair de um apartamento, que muitas vezes está ali num ambiente fechado. Também houve uma procura por condomínios de segunda residência ou para a construção de casas. Esse movimento aconteceu no Brasil inteiro. Houve uma busca intensa por moradias com mais conforto, mais espaço para os filhos e ambientes ao ar livre. Isso fez com que o mercado imobiliário tivesse dois anos muito bons, mesmo com a pandemia. Claro, teve toda a questão de saúde pública e não podemos nos esquecer da transformação das empresas, que tinham um ambiente físico e migraram para o digital. Isso fez com que as imobiliárias se movimentassem com processos novos para atender ao cliente e tirou todo mundo de uma zona de conforto. Mas, posso dizer que o mercado respondeu muito bem.

Mas houve perdas? O senhor considera que elas já foram superadas?
Acredito que não houve perdas. Acho que tivemos bons anos, tanto para o setor de locação quanto para as vendas. 

Vamos falar sobre o Plano Diretor de Natal, que deve impulsionar a construção civil na capital potiguar. Como as imobiliárias avaliam esta movimentação? 
O PDN vai oxigenar muito o mercado imobiliário de Natal com um crescimento que eu espero que seja muito forte. Já estou sendo bastante procurado por empresas de fora, além das locais, que estão em busca de terreno para desenvolver novos projetos bem interessantes para o nosso mercado. E nesse ponto, é importante frisar: a construção civil é sempre uma locomotiva de desenvolvimento no Brasil, porque ela emprega muita gente e tem uma indústria por trás que carrega também vários outros serviços. Com as mudanças no Plano Diretor, nosso mercado vai crescer de forma sistemática e bastante relevante. O mais interessante do Plano é que ele é algo novo e é preciso aprender com essa novidade. Todos os profissionais da construção civil estão buscando entendê-lo melhor. Há todo um arcabouço que está sendo digerido pela indústria, mas eu acredito que o PDN é um avanço bastante significativo para Natal, porque nós temos zonas que podem ser mais adensadas.

O setor imobiliário ainda é um bom investimento? 
Olha, em janeiro de 2020, um amigo comprou um terreno por R$ 1 milhão. É um valor alto, mas esse mesmo terreno foi vendido esta semana por R$ 2,7 milhões. O lote de um importante condomínio de Natal, que custava R$ 150 mil, agora é R$ 450 mil. Como é que triplicou de preço? O que garante essa valorização? Sinceramente, eu não sei, mas nós conseguimos perceber que o mercado imobiliário ainda permite muitos ganhos. Em Natal, existem vários bairros que não eram valorizados, mas, com o Plano Diretor, isso vai mudar. Muitos investidores caem naquele conto de apostar na bolsa ou em aplicações, mas é algo que, às vezes, pode dar ruim. No mercado imobiliário é diferente, porque você não perde dinheiro. Pode até demorar a vendar um produto, mas jamais perderá dinheiro.

E o que pode melhorar, na sua avaliação?
Nós poderíamos ter produtos aprovados sem tanta burocracia. Poderíamos ter um custo Brasil mais em conta e também é preciso atrair investidores. Acho que o Rio Grande do Norte precisa ter um plano, como o Ceará e a Paraíba têm, para captar investimentos de outras empresas. Aliás, a gente precisa de grandes empresas para se associarem às locais, com projetos que desenvolvam o RN.

Nos últimos anos, houve crescimento no interesse por fundos imobiliários. As recentes altas na taxa Selic (de 11,75%), podem afastar investidores?
Não podemos olhar o mercado imobiliário reservadamente nesse momento. Estamos saindo de uma pandemia e já entramos numa guerra, que envolve um país com o maior arsenal atômico do globo. O conflito afetou as commodities, o petróleo e isso fez com que o mundo inteiro mergulhasse numa inflação, que nos Estados Unidos é de quase 8%, em dólar. A Europa tem uma inflação de dois dígitos, a maior do continente. O Brasil teve que subir sua taxa de juros para conter a inflação, porque tudo começou a faltar. Agora, é preciso esperar. Quem está pensando no mercado imobiliário, não pode pensar no curto prazo. Se você comprar um empreendimento hoje, por exemplo, só recebe daqui a três anos. Então, até lá, a gente espera que o Brasil volte a ter uma taxa de juros de 3% ou 4% ou até mesmo de 2%, como aconteceu antes da pandemia.

Mas o senhor acredita que a alta recente afaste investidores?
O investidor não tem medo de taxas de juros. Ele tem mais medo de não conseguir vender, de comprar um terreno e a regra do jogo mudar, como não poder construir em um determinado local, a exemplo do que aconteceu em Ponta Negra, numa época dessas. Ele tem medo da insegurança jurídica. O investidor já está acostumado às taxas de juros. Todo brasileiro sabe que, quando a gente pega dinheiro em banco, a taxa é 20 vezes maior do que a que ele toma para comprar um imóvel. A gente fala de 11,75% numa taxa Selic, mas num financiamento imobiliário, é menos de 8% ao ano, às vezes. Para uma geladeira ou um carro, a taxa é alta (de 3% ao mês). Acredito que o aumento da Selic não é algo que afete tanto o mercado nesse primeiro momento.

O programa Casa Verde e Amarela, que substitui o Minha Casa Minha Vida, será retomado este ano. O governo federal quer investir R$ 740 milhões em 2.450 unidades habitacionais. Como o senhor avalia este programa? Está aquém do previsto?
Eu acho muito pouco para um País que tem um déficit ainda muito grande de moradias (são 15 milhões), além de muitas [moradias] de baixa qualidade. Mas a gente também não pode resolver esse problema do dia para a noite. O Minha Casa Minha Vida e o Casa Verde Amarela são dois programas excelentes, enquanto subsídio, para a pessoa que está comprando seu primeiro imóvel. Acho que é uma evolução nesse mercado da indústria da construção civil. E é uma oportunidade de crescimento para as imobiliárias. Em Natal, nós temos várias empresas especializadas no segmento.

O senhor assume agora a Associação Brasileira do Mercado Imobiliário (ABMI). Qual a importância da ABMI e o que isso representa para o setor imobiliário potiguar?
A Associação tem mais de 25 anos de existência e abrange imobiliárias em todo o Brasil. São empresas focadas em administração de condomínio, de imóveis, locação, compra e venda. Trata-se de grandes imobiliárias que têm como objetivo trocar experiências para que as empresas cresçam num ambiente de melhorias. É a primeira vez que um potiguar assume a presidência da ABMI, com um mandato de dois anos. Todos assumem por esse período para que haja uma mudança de processos e atitudes e para que o presidente esteja sempre com gás para trabalhar pela instituição. Há 20 anos que eu estou na Associação. É um momento de muita satisfação para o nosso mercado e é um reconhecimento também. Conseguimos colocar o RN à frente de outros estados e fizemos com que entendessem que a gente poderia desenvolver um bom trabalho em um mundo digitalizado. A partir de agora, a gente vai ensinar um pouco da cultura e do jeito potiguar. Aqui nós temos grandes cases, em diversas áreas e podemos mostrar um pouquinho do nosso mercado imobiliário para o resto do País. 

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