Ion Andrade, epidemiologista: "A pandemia mostrou que o SUS foi o grande herói dessa guerra"

Publicação: 2020-10-18 01:00:00
O médico epidemiologista Ion de Andrade, pesquisador do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (LAIS/UFRN), avaliou que o enfrentamento da pandemia em Natal não foi satisfatório, visto que os números comparativos ficaram abaixo do que se esperava para a capital que tem melhores condições do que os outros municípios do estado. Para ele, o principal desafio para os gestores é compreender que a pandemia provou como é importante fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS). Análise é feita com base nos dados da quinta-feira (15/10).

Como Natal o senhor avalia o enfrentamento da pandemia da covid-19 em Natal?

Natal é um dos municípios que tiveram piores resultados em relação a aspectos relevantes na pandemia, como a mortalidade a cada 100 mil habitantes que é uma das maiores do Estado, ficando em torno de 4.1, ou seja, 113 por 100 mil habitantes. A média do Estado, incluindo Natal é de 69,46 por 100 mil habitantes. Natal também está mal no que toca à letalidade, que é quantos morreram entre os que adoeceram, ficando em 3,7 óbitos por 100. O RN fica em 3,3. Mas não é só isso. Em Natal o número de casos por 100 mil é 2.833. O RN tem 2.128 casos a cada 100 mil. Natal se sai mal no que toca a casos confirmados, óbitos e letalidade por 100 mil habitantes em comparação com o Estado.

Créditos: Adriano AbreuIon Andrade é médico epidemiologista Ion Andrade é médico epidemiologista


Por se tratar da capital, esse resultado surpreende?
Nos deixa perplexos porque, em função do nível de consciência da população, capacidade tecnológica e proximidade dos serviços de saúde, além de parte da ter recebido assistência na rede privada, esperava-se que resultados melhores, por isso não considero satisfatório enfrentamento.

A pandemia deixará algum legado para a saúde municipal?

 Fica de legado a perspectiva de que não somos poderosos e nem estamos acima de uma pandemia, do ponto de vista da percepção da vulnerabilidade. Na questão social, as desigualdades tornaram ainda mais grave a doença no país. O legado é o de refletir sobre as desigualdades e responsabilidade pública.

E em estrutura da rede, o que fica?

Para o SUS, ficarão os leitos de UTI, o sistema de regulação da covid, a capacidade de monitorar as doenças de forma mais naturalizada. Coisas que ajudam o SUS a se fortalecer.

E qual lição ficará para a população e para os gestores?

A pandemia mostrou que o SUS foi o grande herói dessa guerra, pois a quantidade de internamentos foi muito superior à da rede privada. Se não fosse o SUS, as mortes seriam em quantidade maior. O futuro depende das lições que as autoridades tomarem sobre a importância do SUS e de que não pode haver continuidade da política de desmonte do sistema, de subemprego dos profissionais da saúde.