IPCA fecha 2020 em 4,52%, acima do centro da meta

Publicação: 2021-01-13 00:00:00
Daniela Amorim e Thaís Barcellos
Agência Estado

A conta de luz mais cara pressionou o orçamento dos brasileiros no último mês de 2020, mas os vilões no ano ainda foram os alimentos. A inflação oficial no País subiu 1,35% em dezembro, o resultado mais elevado desde fevereiro de 2003, segundo os dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) divulgados nesta terça-feira (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

Créditos: Magnus NascimentoA alta no preço dos alimentos foi responsável por mais de 60% de toda a inflação do ano passadoA alta no preço dos alimentos foi responsável por mais de 60% de toda a inflação do ano passado

A inflação encerrou 2020 com um avanço de 4,52%, o maior resultado em quatro anos, acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central (BC), de 4,0%, mas ainda dentro da margem de tolerância de 1,5 ponto para mais ou para menos. No Relatório de Mercado Focus, divulgado na segunda-feira pelo BC, a projeção era de alta de 4,37% no IPCA do ano passado.

Desde que o encarecimento dos alimentos entrou no radar em meados de 2020, economistas vêm apontando para o caráter temporário da alta, mas acompanham eventuais riscos, como o da energia elétrica e encarecimento de bens industriais. "Não é só um choque de alimentos ou de commodities, há uma série de preços subindo", ponderou a economista Elisa Machado, da gestora de recursos ARX Investimentos.

Apesar disso, Elisa espera alta de 3,5% do IPCA de 2021, aquém do centro da meta deste ano, que baixará para 3,75%. A projeção considera o fim do auxílio emergencial, que impulsionou a demanda no segundo semestre, enquanto a oferta foi limitada por diversos fatores, como a falta de insumos. "O fim do auxílio emergencial tende a moderar o ímpeto inflacionário. Estamos olhando muito de perto se vamos ficar só com o Bolsa Família. Vai ser essencial para determinar a inflação em 2021."

O cenário inflacionário ainda tranquilo fez o banco Santander Brasil manter sua aposta para a política monetária, de duas altas no fim do ano na taxa básica de juros, a Selic, subindo dos atuais 2% ao ano para 2,5% ao fim de 2021. "Foi só um número de inflação que surpreendeu para cima. Adiciona risco, mas ainda não muda esse cenário de inflação benigna e atividade fraca, que deve permitir que a Selic fique em nível baixo em 2021", previu o economista Daniel Karp, do Santander.

Em 2020, quando a pandemia se abateu sobre a economia, provocando a recessão global, o IPCA chegou a registrar taxas negativas. Com as atividades econômicas paralisadas, os preços despencaram nos primeiros meses de isolamento social, especialmente os de serviços. As previsões à época apontavam para um IPCA abaixo da meta do BC no ano passado. O cenário virou a partir de meados do ano. Com a concentração da demanda em itens básicos, a alta do dólar e o aumento das exportações, os alimentos comprados em supermercados começaram a encarecer rapidamente.

Alimentação
As famílias desembolsaram 14,09% a mais para comer e beber em 2020. A alta de preços foi responsável por mais de 60% de toda a inflação do ano (uma contribuição de 2,73 ponto porcentual para a taxa geral de 4,53%) e foi a mais acentuada desde 2002, quando os preços subiram 19,47%. O custo dos alimentos para consumo no domicílio aumentou 18,15% e a alimentação fora de casa ficou 4,78% mais cara.

"No ano de 2020 os preços da alimentação para consumo no domicílio foram bastante afetados. Existem vários motivos: tanto pelo isolamento social que obrigou as pessoas a fazerem mais refeições em casa, como pela restrição de oferta, a questão da exportação por conta de câmbio mais desvalorizado, que favorece a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional e restringe a oferta no mercado doméstico", justificou André Almeida, analista da Coordenação de Índices de Preços do IBGE.

Energia
A decisão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de adotar bandeira vermelha patamar 2 - uma taxa extra na conta de luz para compensar o maior uso de usinas térmicas, mais caras - em dezembro era o que faltava para o IPCA de 2020 extrapolar o centro da meta. A taxa adicional no custo da eletricidade foi anunciada no início de dezembro e, portanto, já estava na conta dos economistas antes do anúncio do IPCA de dezembro. 

"A antecipação do reajuste da energia elétrica para dezembro do ano passado faz com que os preços da energia sejam menores neste ano", apontou relatório do Banco MUFG Brasil, que projeta um IPCA de 3,25% este ano. Segundo os economistas do Banco MUFG Brasil, a inflação de 2021 não ficará concentrada nos preços dos alimentos, os aumentos alcançarão mais produtos e serviços, mas sem pressões significativas, devido à demanda doméstica ainda fraca, mercado de trabalho difícil e capacidade ociosa elevada na indústria.