Irmãos de sangue e som

Publicação: 2019-08-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Dois dos maiores nomes da músicas potiguar, reconhecidos nacional e internacionalmente, os irmãos Roberto e Eduardo Taufic celebram a solidez de dez anos do projeto Duo Taufic com o lançamento em Natal do novo disco “D’Anima”. A apresentação será neste domingo (18), às 19h, na Escola de Música da UFRN. Os ingressos são gratuitos e podem ser retirados uma hora antes do espetáculo.

Formado pelos irmãos Roberto e Eduardo, o Duo Taufic apresenta álbum que ressalta a musicalidade particular da dupla, um som que emociona a partir do entrosamento entre dois instrumentos
Formado pelos irmãos Roberto e Eduardo, o Duo Taufic apresenta álbum que ressalta a musicalidade particular da dupla, um som que emociona a partir do entrosamento entre dois instrumentos

Gravado na Itália em 2017, o álbum ressalta a musicalidade particular da dupla, um som que emociona a partir do entrosamento entre dois instrumentos extremamente complexos, o violão (de Roberto) e o piano (de Eduardo). “Não existem muitos duos de violão e piano. São instrumentos muito complexos. É difícil não brigar. É como colocar duas orquestras para tocar juntas”, descreve Eduardo. Seu irmão Roberto complementa com uma analogia curiosa: “É uma formação muito arriscada. São como dois exércitos juntos”.

Músicos experientes, Roberto e Eduardo conseguiram ao longo de dez anos de carreira do Duo aproximar os dois instrumentos de um modo que cada apresentação flui como uma conversa entre velhos amigos que não se viam há muito tempo, mas que ao se encontrarem dialogam espontaneamente como se sempre estivessem ali, um perto do outro.

“Acho que hoje temos uma autonomia maior sobre a nossa música. A questão de saber dosar, não carregar nos solos. Fazemos música instrumental mas sem necessidade de exuberar na técnica. Tem os momentos de improviso, do jazz, mas fazemos isso sem perder a respiração, as dinâmicas, as flutuações, mantendo a melodia forte, que são características da música clássica. Somos dois arranjadores, já produzimos mais de 700 discos de outros artistas, pensamos a música como algo organizado, mas fazendo as coisas de forma espontânea”, argumenta Eduardo. “A música instrumental é muito sublime. No fundo nossa maior preocupação é em emocionar as pessoas. O tipo de música que a gente faz é da alma pra fora”.

Roberto também dá seu olhar sobre o momento atual do Duo. “Somos autodidatas, nossa escola é a prática, e nesses dez anos tocando juntos aperfeiçoamos bastante nosso som. Por exemplo, a gente viu que a melodia é uma questão fundamental pra gente. Sempre damos uma importância grande a esse ponto. Mas a música que a gente faz é uma música viva. É um tema, certo?, mas toda vez que a gente toca ele sai diferente, sai de acordo com o nosso humor no dia”, conta o violonista.

“D’Anima” é o terceiro disco autoral do Duo - os outros são “Bate Rebate” (2011) e “Todas as cores” (2015). A decisão de gravá-lo se deu de forma repentina, em meio a turnê do ano passado na Itália, país onde Roberto mora há quase 30 anos e onde o Duo excursiona todos os anos. “Neste disco, mais do que nos outros, tivemos um cuidado melhor com o produto final, buscando sempre algo mais limpo, mais expressivo. Ele é resultado de um longo processo de amadurecimento artístico, onde adquirimos confiança, experimentamos e compomos bastante, vimos como algumas músicas eram recebidas ao vivo”, diz explica Roberto.

Mas ouvindo o músico falar assim é difícil imaginar que as treze faixas do álbum foram todas gravadas em apenas uma tarde. Eduardo explica. “Chegamos no estúdio de manhã, passamos o som e gravamos as 13 músicas à tarde, de uma vez. Já temos nossa identidade, sabemos nos colocar nas músicas. E pela característica do nosso som, o tipo de gravação é diferente. Gravamos cada música sem interrupções, ao vivo, os dois tocando juntos. Não tem como separar, fazer um de cada vez [e depois montar na finalização], senão a gravação fica fria, até porque na hora não tem o público. Somos só nós dois”.

O resultado, além de encher de orgulho a dupla, reforça uma identidade autoral pela qual já são reconhecidos. “Conseguimos ser marcados pela nossa sonoridade. As pessoas que nos ouvem comentam isso. Na Itália somos reconhecidos pelo nosso repertório autoral. Nas nossas apresentações 95% das músicas são composições nossas. E mesmo as versões que fazemos de outras músicas, ela tem a nossa identidade”, fala o pianista.

Da alma, e ao pai
O título “D’Anima” - da alma, em italiano - é uma saudação àquele que já se referiu à música dos irmãos Taufic como de timbre “lindo e orquestral”, que “jorra feito fonte abundante, incontáveis pontos de nascente, água fresca, límpida, harmoniosa e afetiva”, que “parece representar um amor que deu certo, que não tem rivalidade ou dúvida, que é solidário, íntegro e cúmplice”. No caso, o mestre Egberto Gismonti. “O violão e o piano são os dois instrumentos que ele toca. O cara é referência pra nós. E ele tem um disco chamado ‘Alma’, lembramos disso e resolvemos prestar essa homenagem”, conta Eduardo.

O álbum homenageia outra pessoa extremamente importante para os músicos: o pai Taufic José Hasbun Yacaman, falecido em 2008, ano em que os irmãos se apresentaram como dueto pela primeira vez - e justamente para prestar um tributo ao pai. Artista plástico, é dele a imagem da capa e do encarte do disco, em que se vê, de modo abstrato, o braço de um violão sequenciando as teclas de um piano. Uma pintura premonitória. “Em 2018 eu tinha a minha carreira, o Roberto tinha a dele. Nunca tivemos essa disposição para fazer um duo. Foi nosso pai que proporcionou isso”, lembra Eduardo. “Ele enxergou essa união da gente na música antes de nós”.

Serviço
Show “D’Anima”, do Duo Taufic

Dia 18 de agosto, às 19h

Escola de Música da UFRN

Entrada gratuita (retirada do ingresso uma hora antes)




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