Irreverência e alegria nascida do lixo

Publicação: 2018-02-04 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Ramon Ribeiro
Repórter

Antes do carnaval de Caicó se tornar o que é hoje, um dos mais procurados no Estado, muita história aconteceu. Em meados dos anos 80, a festa na cidade praticamente se restringia aos clubes. E para entrar, era preciso ter grana. Uma turma, no entanto, resolveu acanalhar. Se juntaram a uma ruma de papudinhos e presepeiros e saíram às ruas com fantasias e instrumentos improvisados do lixo. O nome do bloco, claro, era Bloco do Lixo. Dentre os fundadores estava ninguém menos que Ronaldo Batista Soares, o Magão, que futuramente comandaria o famoso Bloco do Magão, há anos a maior atração do Carnaval de Caicó.
Ronaldo Batista, o Magão, carnavalesco e artesão
Ronaldo Batista, o Magão, carnavalesco e artesão

Nos anos 80 Magão era um simples marceneiro, bom de copo e de papo. Foi sua insistência de abrir o carnaval de Caicó para todos os públicos, resgatando os blocos de rua e as brincadeiras, que o fez ilustre no Estado. Do Bloco do Lixo, depois de anos sofrendo preconceito da sociedade local e tendo que aturar a polícia, ele chega aos anos 90 com uma nova ideia. Junta a turma e cria o Ala Ursa do Poço de Santana, fazendo referência à tradição dos blocos Ala Ursa – somente nos anos 2000 o nome Bloco do Magão passar a ficar mais conhecido.

Já de saída os foliões do Ala Ursa levantaram como bandeira uma reclamação: era preciso recuperar o Poço de Santana, mais antiga fonte de água do município, que na época se encontrava poluído. Eles não conseguiram sensibilizar o poder público para a situação do poço – até hoje ele permanece abandonado –, mas fizeram algo tão importante quanto. Mudaram definitivamente a cara do carnaval de Caicó.
Bloco do Magão desfila todos os anos com 12 novos bonecos, todos confeccionados pelo carnavalesco fundador
Bloco do Magão desfila todos os anos com 12 novos bonecos, todos confeccionados pelo carnavalesco fundador

“Dos bailes nos clubes, o carnaval de Caicó passou a ser nas ruas. Hoje todo mundo pode brincar. O bloco é aberto, sem cordas, com bonecos gigantes, papangus, burrinhas e orquestra de frevo. Outros blocos foram nascendo e somando na festa. A nossa insistência deu certo”, diz Magão, que virou artesão. É ele que todo ano faz 12 bonecos novos para o bloco, homenageando figuras caricatas da cidade.

Tamanho sucesso do Bloco do Magão levou a agremiação à prévias em vários municípios do Estado. Desde janeiro eles já passaram por Pipa, Natal, Serra Negra do Norte e até em casamento eles fora, em Currais Novos. Nesta entrevista, o Magão lembra boas história do bloco e de Caicó.

Bloco do Lixo

Antigamente o carnaval de rua em Caicó era fraco. Quem tinha grana alugava um mercedes desfila pela cidade até os clubes. Quem acanalhou o carnaval foi a gente. Botamos todo mundo pra brincar. Tornamos a festa popular. Chamamos os papudinhos e os doidos e misturamos tudo no Bloco do Lixo. Preservamos essa característica até hoje no Bloco do Magão.

Discriminação

Sofremos muito preconceito. Tudo que fazíamos era proibido. Se a gente passasse em frente as escolas de samba a polícia expulsava. Já sofri 17 boletins de ocorrência. Eu era intimado num ano e no outro eu fazia a mesma coisa. A gente sabia que não estava fazendo nada de errado. O Bloco do Lixo era alegria, não tinha descriminação. Já saímos com uma ruma de gay no bloco. As dondoquinhas da época se sentiam mal com aquilo.

Música para o Cabo Marinho

Já fui preso pela polícia por sair com o bloco de madrugada. Não podia. Quem me prendeu foi um amigo meu, o Marinho. Tinha acabado se virar cabo e eu fui sua primeira prisão. Gente boa, mas eu tava dando trabalho, ele teve que agir. Depois fizemos uma música sobre essa história. Somos amigos até hoje.

Poço de Santana

Nos anos 90, a ideia era sair fazendo uma reclamação. Nossa primeira fonte de água, o Poço de Santana, estava podre, e a capela de São Sebastião estava caindo. Toda a Caicó do meu tempo aproveitou o poço de Santana. Ia lá tomar banho, conhecia as lendas. A capela hoje está bonita, mas o poço nunca limparam. O bloco no início reunia minha família e amigos, pessoas simples sem ligação com políticos e que por isso não tinham medo de reclamar.

Bloco do Magão

No final dos anos 90 arranjamos uma orquestra. O bloco passou a ficar mais popular. Ganhou o apelido do Magão. Já nos anos 2000 ele é de fato valorizado pela população. O moradores começam a brigar por ele, vestir a camisa e lutar para que ele saísse todo o ano. Hoje, qualquer morador sabe a história do bloco. Os mais jovens cresceram brincando o carnaval no bloco.

Bonecos gigantes e burrinhas

Nós que trouxemos os bonecos gigantes para o carnaval de Caicó. Antes só tinha a burrinha, uma tradição aqui que estava se perdendo e reforçamos com o bloco. Também apimentamos os frevos. De marceneiro e lustrador eu me tornei artesão. Faço os bonecos e as burrinhas. São 12 novos bonecos todo o ano. A gente faz homenagens a pessoas simples, algumas pobres, mas de coração bom e honestas. Já fizemos a Juju, Das Dores, Gracinha, uma senhora que só anda de preto, os papudinhos da cidade. Nosso carnaval tem a cara deles.

Um carnaval histórico

Um carnaval histórico foi no ano que inauguraram a Ilha de Santana. Deu gente demais em Caicó. Nesse ano eu pedi esmola pra botar o bloco na rua. Tinha brigado com o prefeito então não ia ter apoio. Tive que botar um barril no meio da rua pedindo pras pessoas ajudarem com o que fosse possível. Deixei o barril lá por vários dias. Deu certo. Ninguém roubou o barril e conseguimos juntar uma boa grana.

Carnaval no Seridó

O carnaval de Caicó é a festa dos seridoenses. Todo mundo da região vem pra cá. Somos um povo hospitaleiro. Nossa comida é boa. Tem caldo de mocotó, tira-ressaca, cabeça-de-galo, queijo manteiga, tudo isso é muito bom. No Seridó se come muito bem e no carnaval não é diferente. No lado do mercado dá encontrar uns caldos que põem o folião novamente de pé. E se ficar muito doido, temos mototaxi que deixa o bebo na porta de casa.

Oito dias de folia

Em Caicó a gente sai com o Bloco do Magão oito dias seguidos. Da quarta que antecede o carnaval até a quarta-feira de cinzas. Tem dia que a brincadeira é voltada apenas para os policiais e bombeiros, ganhando o nome de Camburão na Folia, noutro, a turma sai com os usuários do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), é o Psicofolia. Na sexta é o dia das Quengas do Magão, quando as ruas ficam tomadas por homens vestidos de mulher e as mulheres, de homem. O domingo é dia de se fantasiar de papangu e burrinha para tocar o terror. E nos outros dias seguem na mesma levada. Quem não conhece tem que vir conhecer.

continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários