Isolamento social sobe no RN, mas ainda não é o ideal

Publicação: 2020-06-13 00:00:00
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Mariana Ceci
Repórter

Após registrar os mais baixos índices de isolamento social desde a chegada da pandemia durante o mês de junho, o Rio Grande do Norte conseguiu reduzir o número de pessoas em circulação nas ruas durante o primeiro dia do feriado prolongado que teve início na quinta-feira, 11. Dados da In Loco, empresa de geolocalização, apontam que o Estado registrou 49,2% de isolamento na quinta-feira, 11 (dado mais atual), o segundo maior índice do país, atrás apenas de Rondônia, que registrou 50,3% de sua população isolada. 

Créditos: Alex RégisEm alguns pontos da orla de Ponta Negra era possível visualizar aglomeração de pescadores e banhistas, a maioria sem máscarasEm alguns pontos da orla de Ponta Negra era possível visualizar aglomeração de pescadores e banhistas, a maioria sem máscaras


Apesar do aumento, o número ainda está longe daquele considerado ideal pelos especialistas. Revela, ainda, queda generalizada de adesão ao isolamento social em todo o país, não um aumento satisfatório no RN, como explica o pesquisador Rodrigo Silva, do Laboratório de Inovação e Tecnologia em Saúde (LAIS/UFRN). “A gente consegue afirmar que há uma queda nacional na adesão ao isolamento social. Demoramos muito a tomar uma posição mais rígida, e essa dicotomia nos discursos do Governo Federal e Governos Estaduais, que vão em direções opostas, auxilia a tirar credibilidade da quarentena. As pessoas estão ficando desacreditadas e isso reflete nesses números”, explicou Rodrigo. 

Na sexta-feira, 12, a equipe fotográfica da TRIBUNA DO NORTE esteve em algumas das principais praias da Região Metropolitana de Natal para verificar o fluxo de pessoas nessas áreas. Com o tempo nublado e chuvoso durante a maior parte da manhã, as praias apresentavam pouco movimento, com apenas algumas pessoas caminhando ou praticando esportes individualmente, como surfe. 

De acordo com os especialistas, 50% é o valor considerado “mínimo" de adesão. O valor “esperado" é de 60%, e o “ideal" para reduzir de fato a velocidade da transmissão do vírus é que o isolamento fique em torno dos 70%. “Há uma confluente de vários fatores que estão levando a um descrédito da quarentena e, por mais que agora estejamos impondo ações mais rígidas, acho muito difícil voltamos ao patamar mínimo de 50% do isolamento”, afirmou o pesquisador Rodrigo Silva.

Ao longo dos últimos 14 dias, de acordo com a plataforma do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde que acompanha o comportamento social da população do Estado durante a pandemia, a adesão média dos potiguares foi de 41,1%, muito abaixo do ideal.

No dia 5 de junho, foi registrado o menor índice de isolamento, 36,6%, desde o primeiro decreto estadual que impunha o isolamento social, em março. Enquanto em março o Rio Grande do Norte conseguiu atingir a marca de 68,3% de isolamento no dia 27 daquele mês, a maior adesão em junho à política aconteceu no dia 7, quando o Estado registrou 54,2% de isolamento social.

Desde abril, o Estado não é capaz de atingir o nível esperado de 60% o que, de acordo com as autoridades, se reflete na forma como a doença, que vinha com um crescimento relativamente controlado até abril, de acordo com a Secretaria do Estado de Saúde Pública (Sesap/RN), registrou uma explosão de casos em junho.

Em uma tentativa de reduzir a quantidade de pessoas nas ruas, a governadora Fátima Bezerra revogou, no último Decreto Estaduals sobre o isolamento social, a autorização para abertura de salões de beleza, barbearias e armarinhos, que haviam tido funcionamento permitido no fim de abril. Além da retirada dos estabelecimentos, o mais recente decreto traz também regras mais rígidas para fiscalização.  Essas medidas, no entanto, ainda não provocaram efeito nos números. 

“A princípio, o que a gente tem notado é que, por hora, o novo decreto ainda não surtiu o efeito desejado. A forma mais rígida de quarentena não está fazendo muito efeito na população. A gente teve um aumento, mas ainda assim está muito abaixo do esperado. As semanas passadas foram muito semelhantes às semanas anteriores”, relatou Rodrigo Silva.

Algumas cidades dão exemplo de isolamento social
Apesar do RN não estar próximo aos índices ideais de isolamento, alguns municípios tiveram maior adesão da população à medida. É o caso de Timbaúba dos Batistas, no Seridó, que registra 60,7% de isolamento, e Ruy Barbosa, no Agreste potiguar, que apresentava 61,9% de isolamento social até o dia 11. 

Em ambas cidades, nenhum óbito foi registrado pela Covid-19, e a quantidade de casos é baixa: Ruy Barbosa teve 23 casos notificados até a última quinta-feira, dos quais 12 foram confirmados, e 9 descartados. Já Timbaúba dos Batistas teve 9 casos notificados e 4 confirmados até a mesma data. 

Algumas cidades, no entanto, estão muito abaixo do ideal. É o caso de Taboleiro Grande, no Oeste potiguar, que registrou o pior índice de adesão ao isolamento no Estado: 21,1%, inferior ao que já era registrado normalmente no Rio Grande do Norte antes da pandemia. A cidade teve um óbito confirmado pela doença, e 6 casos confirmados. Outra cidade que registrou índices baixos de adesão foi São Francisco do Oeste, na mesma região, com 27,6% de isolamento. 

A região Oeste foi apontada pelos especialistas como uma área de cautela necessária pela proximidade com o Ceará, o Estado que registra a maior quantidade de casos e óbitos pela covid-19 no Nordeste. Até esta sexta-feira, 12, 4.480 pessoas já haviam morrido infectadas pelo novo coronavírus no Ceará.

Fila por UTI tem 49 pacientes no RN
De acordo com dados da plataforma Regula RN, que reúne os dados oficiais sobre a ocupação de leitos públicos no Estado, 49 pessoas aguardavam leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) até esta sexta-feira, 12. Dessas, 4 estão na Prioridade 1 e 45 na Prioridade 2. 

Outras 86 pessoas aguardam leitos de estabilização, sendo 85 na Prioridade 3 e 1 na Prioridade 4. Mais uma vez, os hospitais com leitos disponíveis para o Sistema Único de Saúde (SUS) no Rio Grande do Norte amanheceram com 100% de ocupação. Dos 10 hospitais da rede, 8 estavam com os leitos integralmente ocupados. As únicas vagas existentes estão no Hospital Coronel Pedro Germano, da Polícia Militar, que apresentava 90,9% de ocupação, e o Hospital Regional Telecila Freitas Fontes, de Caicó, que apresentava 74,1% de seus leitos ocupados. 

A ocupação geral dos leitos é de 93,9% no Estado, com 753 pacientes internados. “Esse número infelizmente vem se apresentando de forma cada vez mais expressiva ao longo dos dias”, afirmou Alessandra Lucchesi,  subcoordenadora de vigilância epidemiológica da Sesap/RN.

Novos casos
Entre a quinta-feira, 11, e a sexta-feira, 12, o Rio Grande do Norte teve 310 novos casos confirmados de coronavírus. De acordo com os dados apresentados pela Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), o RN contabiliza 13.544 casos da doença. Não houve confirmação de novos óbitos por parte da Secretaria, mas 8 foram adicionados à lista de investigação, que passa a contar com 114 mortes.

Até a quinta-feira, 11, o RN tinha 509 mortes por covid-19.

De acordo com a subcoordenadora de vigilância epidemiológica da Sesap/RN, Alessandra Lucchesi, “A situação epidemiológica do Rio Grande do Norte continua muito grave. É necessário que as medidas de distanciamento social continuem a ser adotadas", disse. Ao todo, o Estado possui 22.613 casos suspeitos da doença em investigação.

“O comportamento da pandemia segue muito parecido. Temos um aumento constante de casos na Região Metropolitana de Natal, que é onde há maior distribuição, número e incidência de casos. Ela é seguida pela região de Mossoró e do Vale do Assú", destacou Alessandra. Outras regiões, como é o caso de João Câmara, no entanto, tem apresentado um número crescente de casos nas últimas semanas, de acordo com a subcoordenadora.

Contaminação em agentes aumenta
A força de Segurança Pública do Rio Grande do Norte sofreu uma baixa de 412 trabalhadores afetados pela Covid-19. O número foi repassado pelas corporações e corresponde aos casos suspeitos e confirmados nas Polícias Militar, Civil e Penal do Estado até esta terça-feira, 9. Entre profissionais da ativa e aposentados, já foram confirmados quatro óbitos em decorrência da doença, todos de policiais militares. 

Em números, o efetivo da Polícia Militar é a Corporação  mais atingida. Além dos quatro óbitos, o número policiais militares que estão, ou já tiveram a infecção confirmada chegou a 115. Outros 196 casos suspeitos estão sob investigação. Dentre os policiais penais, são 22 casos comprovados da doença e 56 suspeitos. Já na Polícia Civil, 12 profissionais testaram positivo para o novo coronavírus e sete estão no grupo com suspeita de contágio. Outros 116 policiais civis estão afastados preventivamente por pertencerem ao grupo de risco.

De acordo com o secretário de Segurança Pública e da Defesa Social do RN, Cel. Francisco Araújo, o grande número de infecções dentro da PM se dá por conta da maior exposição desses policiais ao vírus, já que estão diretamente envolvidos nas ações que visam garantir o cumprimento das medidas de isolamento social, inclusive em contato com a população. 

“A PM, das instituições de segurança, é a primeira da linha de frente. São os agentes que estão no primeiro contato com as pessoas, tanto contaminadas portadoras da Covid-19 ou de outras doenças. Além do enfrentamento à criminalidade, de ocorrências policiais, trânsito, socorro, no momento da pandemia, a Polícia Militar também é um ente que garante as medidas de isolamento social, barreiras sanitárias”, afirmou o secretário em entrevista à TRIBUNA DO NORTE.

Prevenção é adotada pelas corporações
Para evitar um impacto mais expressivo da pandemia, as corporações adotam medidas de prevenção e combate ao vírus. A Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (SEAP) isolou o sistema prisional desde o dia 13 de março, suspendendo visitas presenciais, assistência religiosa e serviços sociais. O contato de parentes e advogados com os internos, agora é feito através de videoconferência. Segundo a SEAP, foram redobrados os cuidados em relação a limpeza das celas e áreas comuns dos presídios. 

O porta-voz da PMRN, tenente-coronel Eduardo Franco, afirma que a tropa toma todos os cuidados para evitar o contágio, além de estabelecer um controle rígido de higiene das viaturas e unidades policiais. Outra medida é o controle e apoio aos policiais que apresentam sintomas ou tenham contato com alguém infectado. “Temos um corpo médico atento para acompanhar esses casos", esclareceu Franco.

Os profissionais de segurança são afastados em situação de testagem positiva, suspeita, caso pertençam ao grupo de risco ou convivam com pessoas inseridas nesse contexto. Esses trabalhadores estão inseridos nas categorias prioritárias, assim como os trabalhadores da saúde, para aplicação dos testes rápidos da covid-19 enviados pelo Governo Federal.

Casos
Entre os casos conhecidos que envolvem agentes da segurança pública está o do sargento reformado da Polícia Militar Francisco das Chagas Freire de Sousa, de 59 anos, que faleceu em Mossoró, no dia 26 de maio, por complicações da covid-19.











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