'It – A Coisa 2' retrata adultos traumatizados

Publicação: 2019-09-05 00:00:00 | Comentários: 0
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Há dois anos, It - A Coisa ultrapassou 4,4 milhões de espectadores no Brasil. Foi, também, um sucesso planetário. Não admira que o 2 tenha sido providenciado rapidamente e esteja estreando amanhã em salas de todo o País. Stephen King! Na verdade, Stephen Edwin King. Difícil colocar num só nicho um escritor de ficção científica, terror, suspense, fantasia. Melhor abrigá-lo sob o amplo guarda-chuva do fantástico. O "rei" Stephen virou um fenômeno editorial e de bilheterias quando Carrie - A Estranha estourou na tela, promovendo aquele banho de sangue, nos anos 1970. King ainda não tinha 30 anos. Nasceu em Portland, em 1947. Carrie é de 1976.

Pennywise, a entidade maligna criada por King em forma de palhaço, volta a atormentar
Pennywise, a entidade maligna criada por King em forma de palhaço, volta a atormentar

O homem é uma máquina de fazer dinheiro. Só de adaptações para cinema (e refilmagens), contam-se mais de 60 títulos, 64 para ser exato. E ainda tem as séries de TV, os telefilmes. It: A Coisa - Capítulo 2, que agora estreia, não é só mais um Stephen King nas telas. É um dos maiores, o que não representa pouca coisa quando se pensa que já houve Stanley Kubrick (O Iluminado) Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade e À Espera de Um Milagre) Brian De Palma (Carrie) e Rob Reiner (Conta Comigo). Andy Muschietti conseguiu - alçar-se ao plano dos grandes. "Hola, soy Andrés, mucho gusto." Alto, simpático, com pinta de galã, o argentino de Buenos Aires, de 46 anos, esteve em São Paulo com a irmã produtora, Barbara, para promover seu filme.

Andrés ganhou projeção internacional com um curta de três minutos que realizou na Argentina, Mamá. Foi parar em Hollywood, cooptado pelo cinemão, expandindo seu curta para Mama, com Jessica Chastain, em 2013. Se Mamá/Mama já eram eficientes na arte de provocar o medo, era natural que 'Andy' chegasse a Stephen King.

It - A Coisa era sobre pré-adolescentes que enfrentavam aquela entidade maligna em forma de palhaço, Pennywise.

Passaram-se muitos anos na ficção de 2017, e os garotos e garotas de It - A Coisa viram adultos traumatizados pela experiência juvenil. O ex-gordo que sofria bullying virou um cara inseguro, Beverly apanha do marido, tem o enrustido que não saiu do armário, etc. Formam um compêndio de neuroses e o diretor conta com atores talentosos como James McAvoy, Jessica Chastain, Bill Hader, Isaiah Mustafa, etc, para lhes dar vida. "Não queria fazer desses personagens adultos uma síntese dos problemas do mundo, mas queria que fossem verossímeis e que o público se interessasse por eles, de verdade." A própria cidade de Derry, onde os fatos se deram, no passado, faz parte dessa integração realista. "Não conseguimos encontrar nossa Derry ideal, mas, como era importante filmar em locações, para capturar a atmosfera, pegamos as igrejas de uma cidade, a rua principal de outra e a ponte de uma terceira. A fantasia do cinema nos permite criar uma unidade de tempo e espaço, e foi o que fizemos."

De forma impressionante, os garotos e as garotas permanecem exatamente iguais nas cenas em flash-back. Elas já haviam sido filmadas há dois, três anos, prevendo uma eventual continuação? Afinal, jovens em fase de crescimento mudam de um dia para outro, quanto mais ao longo de dois anos. Seria impossível para o público não perceber a diferença. "Não, não havíamos filmado cenas de reserva nem estamos repetindo cenas do outro filme", explica Andy. "Foi difícil, mas, como você vê, não impossível. Houve todo um trabalho de pós-produção para manter a garotada sempre jovem. Saiu caro, mas na tela beira a perfeição."

O repórter aponta o cartaz. Bill Skarsgård e seu sorriso maligno. Os personagens são todos individualizados e 'psicologizados', mas Pennywise permanece um enigma. Quem é? Um mito, o mal. "Bill superou nossas mais otimistas expectativas", avalia o diretor. "Ele usa uma prótese de borracha na testa, tem outra na boca e com todas essas limitações o que consegue fazer com os olhos e o sorriso é verdadeiramente assustador."

Numa cena, na marquise do cinema, aparece um título - A Nightmare On Elm Street, A Hora do Pesadelo. Outra saga assombrada por um personagem - não de Stephen King - que irrompia, destruidor, nos sonhos de crianças e adolescentes. Freddy Kruger, com sua cara derretida e as unhas afiadas. A Hora do Pesadelo está lá para situar a época, os anos 1980? "Um pouco sim, mas também se trata de uma homenagem a um terror que mexeu muito com nosso imaginário. Foram filmes como aquele que despertaram em Barbara e em mim o desejo de fazer cinema. Há uma grande tradição no cinema que consiste em jogar com as emoções do público, construindo o medo. O cinema é contemporâneo da interpretação dos sonhos, de Freud. Não podemos esquecer disso. Filmes podem ser muito complexos, depende do espectador. Gostaríamos que os nossos fossem, ajudando as pessoas a olharem para o próprio interior, encarando e superando medos."

Stephen King é atual em um universo próprio
Stephen King é uma fonte inesgotável de inspiração para o cinema e TV desde 1976, quando o diretor Brian de Palma adaptou Carrie, com roteiro de Lawrence D. Cohen. Mas o que explica este movimento contínuo? As obras do escritor são atuais e tratam das mazelas humanas, utilizando fantasmas, pessoas com poderes psíquicos e portas (não apenas aquelas convencionais que você tem em casa) para outras dimensões, como pano de fundo.

O universo criado pela imaginação privilegiada de King te apresenta o medo em diferentes níveis. Os monstros fictícios servem para, muitas vezes, revelarem aqueles que realmente vão te fazer mal. Esqueça o palhaço assassino de IT. São adultos abusivos, colegas de escola sádicos, pais desajustados... Cenários reais e atuais.

Carrie pode até ter poderes telecinéticos, mas, lá em 1974, quando seu livro foi publicado, King, na verdade, já tratava do bullying. Pedras caíram do céu para exemplificar o sofrimento da menina que, enfim, conseguiu sua vingança contra os colegas de escola que insistiam em humilhá-la. A luta para eliminar uma entidade maligna pode até ser o tema central da trama. Mas a presença de Beverly Marsh em IT coloca o dedo na ferida do machismo intrínseco na sociedade e joga luz na situação dos abusos sexuais feitos por familiares.

Mas não basta ter livros atemporais. King escreve de si mesmo. O sentimento verdadeiro que ele coloca em suas obras aumenta o nível de realismo mesmo no meio de tanta fantasia. Ele descreve tão bem os sofrimentos físicos e psicológicos dos personagens porque viveu algumas das situações, com uma infância traumática, convivendo com um lar desfeito (foi abandonado pelo pai) e problemas financeiros. O pai alcoólatra e violento de O Iluminado nada mais é que uma maneira encontrada por King para justificar a ausência da figura paterna. Mais uma vez um problema social por de trás de uma história de um garoto com poderes paranormais e assombrações, que, na realidade, não passam de delírios da mente de Jack Torrance.

Outro facilitador é que King tem uma escrita bastante descritiva. Ele fornece todos os detalhes do ambiente e dos personagens para o leitor mergulhar, sem medo, em seu universo. Claro que, muitas vezes, sua viagem para lugares distantes, seja em mundos dentro de quadros ou mulheres que se transformaram em casulos e vão para uma realidade alternativa, desafiam uma adaptação.




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