Itamar Diniz Júnior: “A gente não pensa economia a longo prazo”

Publicação: 2018-09-16 00:00:00
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

As incertezas que permeiam a disputa eleitoral no Brasil neste ano impacta diretamente na economia nacional. A cada nova pesquisa de intenções de votos para a Presidência da República divulgada, o mercado financeiro responde positiva ou negativamente. A oscilação do dólar, cuja cotação bateu recorde histórico na semana passada batendo R$ 4,20, além do alto custo dos combustíveis são exemplos disso.

Créditos: Lenart VeríssimoItamar Diniz Araújo, especialista em Administração Pública, Auditoria e ControladoriaItamar Diniz Araújo, especialista em Administração Pública, Auditoria e Controladoria

Itamar Diniz Júnior, especialista em Administração Pública, Auditoria e Controladoria

Instável, a economia não consegue engrenar e se desenvolver. O número recorde de desempregados, quase 13 milhões em todo o País, expõe as dificuldades de setores como Serviços e Comércio, cuja recuperação da mais recente crise ocorre de forma lenta.

Sobre esses e outros temas relacionados ao atual momento econômico nacional, o professor Itamar Diniz Júnior fala à Tribuna do Norte. Na entrevista abaixo, ele analisa quais são as mais urgentes medidas que precisam ser aplicadas para que o País retome o eixo do desenvolvimento e crescimento econômico e destaca como o mercado sofre interferências políticas e quão danosas elas podem ser quando pensadas a curto prazo. Acompanhe.

É possível explicar por quais motivos a economia brasileira está instável e qual a relação do momento político com isso?
Na verdade, a instabilidade econômica passa pela instabilidade política. Isso é o que mais nos faz compreender esse momento. Na hora em que as pessoas vêem que a tendência do governo é para um determinado segmento, principalmente os investidores que investem de fora no Brasil, quando eles iniciam a avaliação dessa vertente, deixam de investir no Brasil. Quando isso acontece, a nossa moeda começa a perder força. E mais: se fosse só o fato deles deixarem de investir no Brasil, seria um agravante. O pior é que eles estão tirando do Brasil para colocar em outros países com estabilidade. E aqui, permanece a instabilidade. Ora o presidente é denunciado, ora não é. Uma série de fatores que influenciam a própria Petrobras. E aí, qual investidor irá desembolsar seu dinheiro no Brasil? Principalmente o internacional. Aí quem tem dinheiro no Brasil está investindo lá fora. É o que mais a gente vê: as pessoas tirando do nosso, do que temos, para investir lá fora.

Outros países atuam na captação desses empresários?
Os Estados Unidos, por exemplo, captam essas pessoas. Como eles são a âncora da economia mundial, eles têm uma base e elevam os juros. Isso é ruim para quem pega dinheiro emprestado, pois a taxa de juros está alta. Mas, para quem está investindo, isso é ótimo. O retorno é alto. E aí os Estados Unidos aumentam a taxa de juros. Quem investe no Brasil, cuja taxa está baixa, corre pros Estados Unidos porque o retorno será maior em relação aos investimentos. E nós estamos perdendo porque as empresas deixam de vir para o Brasil primeiro pela burocracia. O trâmite para a constituição e legalização de uma empresa, por exemplo, é gigantesco. Hoje, se não fosse a terra, o que a gente produz internamente, a dificuldade seria maior. Na economia, há a terra, o trabalho e o capital. E nós não temos capital porque ele é mau investido e, principalmente, mau cuidado. Mas nós temos a terra – nossa produção interna é grande – e a gente consegue se manter e se sustentar diante das crises que assolam o nosso país. O brasileiro é muito flexível e se acostuma muito rápido com as coisas.

Em que sentido?

Perceba que quando o preço da gasolina sobe, se você é acostumado a colocar os R$ 130 por semana, não deixará de fazê-lo. Mas irá montar um roteiro para que se possa continuar gastando os mesmos R$ 130. Por exemplo: há uma mudança de itinerário. Ao invés de se sair do Centro e ir, por exemplo, para a zona Norte mais de uma vez, se adapta um novo roteiro para uma única ida. Ou seja, o preço da gasolina sobe, a gente se adapta e continua pagando. A gente se manifesta, bate panela, vai para a rua, mas continua do mesmo jeito. O caso da paralisação dos caminhoneiros é um exemplo.

Há falta de consciência e educação financeira entre os brasileiros?

Sim. É uma das coisas que eu mais trabalho em sala de aula. A gente tem que começar a ensinar Economia na raiz, na base. Hoje, cerca de 70% da população brasileira não sabe como funciona e economia no nosso país.

De que forma a oscilação do dólar irá interferir na economia do cidadão comum?
Iremos ter alteração na alimentação daqui uns dias. Os produtos começarão a ficar mais caros se não adotarmos uma política diferente em nosso País. E isso precisa ser feito. Uma nova política econômica e tributária. O melão que é vendido Do Rio Grande do Norte para Portugal, por exemplo, é comercializado mais barato para lá do que internamente. Então, é mais viável para uma empresa do estado vender seu produto para fora porque a burocracia é menor e o retorno é melhor daquele investimento. Isso é um atrativo. E nós não temos atrativos. Nós temos cargas tributárias muito altas, temos burocracia em si e uma série de fiscalizações e elementos que impõem um cerco e as empresas não conseguem tomar fôlego. Por quê? Porque as taxas de juros nos bancos são altas e não se consegue contratar empréstimos, as pessoas ficam reféns disso e quando acontecem essas situações precisamos de uma política de enfrentamento para alterar isso daí. E aí vem a grande oscilação do momento que estamos vivendo. Quando a gente tende a um presidente que não tem filosofia de mudança na economia, quem está lá fora assistindo ao que está acontecendo no Brasil, não irá investir. Esse empresário irá deixar o dinheiro onde está. E gera uma série de dificuldades.

A Petrobras alterou a forma de precificação dos combustíveis com base nas oscilações internacionais do dólar. O senhor acredita que isso ocorreu num momento no qual o País não tinha um lastro necessário?
Claro. Mas há o ponto de que como a Petrobras é uma empresa de capital aberto, tem muitos investidores que são de fora. E aí, a gente fica nessa dependência dos investidores que vem de fora para investir na Petrobras. Acontecem, com isso, justamente essas questões que estamos vivendo hoje em dia. Uma pressão de fora para dentro. O Brasil adotava uma política que dava um prejuízo gigantesco. Para não arcar mais com esses prejuízos, passou para quem? Para o consumidor final que é quem está lá no posto de gasolina abastecendo o carro. O governo federal tentava, até 2016, manter a estabilidade da inflação e, com isso, tentava manter o preço e se equilibrar para não se equivocar. Mas, enquanto ele fazia isso, a Petrobras entrava em prejuízo porque não acompanhava o ritmo do dólar.

A empresa entrava no negativo e, para suprir essa necessidade, hoje se adota a retirada do prejuízo. O que acontece no Brasil é muito imediatista. Pensa-se em mandatos, em períodos de mandatos. A gente tem que pensar que, economicamente, é necessário um pensamento de longo prazo. Por exemplo: um programa de governo, como o Luz Para Todos, foi bom para uma época. Hoje, a gente paga o custo de algo que foi feito num momento anterior. Quanto se trabalha com Economia, tem que se pensar a longo prazo. Quais decisões tomadas hoje refletirão mais lá na frente? Nem toda decisão boa hoje será lá na frente. É melhor enxugar a máquina, fazer um sistema que as empresas consigam respirar para que, lá na frente, se possa colher os frutos. Mas colocar na cabeça dos agentes públicos que isso é interessante, que estão à frente dessas políticas, é totalmente complicado. Eles querem pensar no ambiente atual, pois é mais satisfatório dizer que, no meu mandato, foi bom. No seu está ruim, independente de ser causa do meu. Eles fazem muito essa interface.

O Brasil perdeu, ao longo deste ano para outros países, cerca de dois mil milionários. O que a saída dessas pessoas do nosso País pode causar?
O Brasil perde muito com isso. Esse dinheiro que eles ganharam provavelmente é fruto do que foi produzido no Brasil. E aí, gera um déficit. Eu produzo no Brasil, tenho uma gama gigantesca aqui e do dinheiro que ganhei, inclusive com incentivos fiscais locais, depois que consegui me tornar um milionário, passo a investir lá fora. E tudo o que foi feito pelo governo local para incentivar esse empresário, não retorna para o País. Há incentivos do BNDES, de outras instituições estatais, inclusive. Existem empresas que nascem, se desenvolvem no Brasil e depois migram para outros países, pois é melhor. E todo o investimento anterior, como fica? Se junta dinheiro no Brasil para se gastar lá fora.

Há culpados para essa situação?
Eu acredito que a culpa maior é da falta de controle econômico do País. Ele se perdeu. De onde vem esse fator? Vem da instabilidade política. A gente vem cometendo os mesmos erros de alguns anos para cá. Muitas pessoas, em anos de campanha, dizem que não gostam de política. Mas, o mundo gira em torno da Política. As decisões que são tomadas no campo político afetam todos. Seja uma alíquota que vai diminuir, uma empresa que terá um incentivo para continuar no mercado, uma série de fatores. Na hora em que os investidores, até brasileiros, percebem que uma tendência não para uma mudança mas para a manutenção do que está, seguram o investimento ou o farão lá fora. A culpa não está numa pessoa, nem num grupo. A culpa está no sistema que é trabalhado, na maneira como a economia se desenvolve em nosso país. Ela precisa começar a ser trabalhada e pensada a longo prazo. A gente não pensa economia a longo prazo, mas a um curto intervalo. É isso o que está faltando colocar na cabeça das pessoas. A gente não para para entender porque empresas fecham, porque há um déficit. Tudo se credita à crise. A gente trouxe a crise para dentro de nós e isso se polarizou. A gente vem massacrando a crise, mas em algumas situações ela pode ser resolvida sem se fazer um alarde.










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