Ivermectina pode ter reduzido casos de covid, diz presidente de Comitê Científico de Natal

Publicação: 2020-08-09 00:00:00
O presidente do Comitê Científico de Combate à covid-19 de Natal, Fernando Suassuna, assumiu durante a pandemia do novo coronavírus uma postura muitas vezes discordante com especialistas do Comitê Científico da Secretaria de Estado de Saúde Pública. Como presidente do comitê, Suassuna é abertamente favorável ao uso da ivermectina, autorizou a retomada das atividades econômicas antes do Estado e, mais recentemente, afirmou que havia segurança para o retorno das escolas privadas - o retorno adiado depois da rejeição de parte dos pais e de uma notificação de aviso do Ministério da Saúde sobre uma inflamação observada em crianças que pode estar relacionada à covid-19.

Créditos: Alex RegisFernando Suassuna, do Comitê Científico de Natal, está levantando dados para provar que Ivermectina reduziu casos da doençaFernando Suassuna, do Comitê Científico de Natal, está levantando dados para provar que Ivermectina reduziu casos da doença

As discordâncias entre os comitês científicos ficaram públicas pelas decisões. Para Suassuna, essas discordâncias levaram a uma politização da pandemia que prejudica a população. “Eu acho que Estado e Município deveriam se entender e utilizar o que cada um fez de bom”, disse. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o presidente do comitê científico fez uma análise da situação da pandemia em Natal, defendeu o uso da ivermectina inclusive no tratamento preventivo (adotado atualmente pela Secretaria Municipal de Saúde de Natal) e o retorno das aulas presenciais "com segurança". Para ele, as medidas de distanciamento social e o uso obrigatório de máscara são “imprescindíveis”, mas “a Prefeitura também adota as suas estratégias próprias para tentar reduzir a doença”. Abaixo, leia a entrevista completa: 

O número de novos casos de covid-19 em Natal reduziram nas últimas semanas, como era esperado desde o início, depois que passasse o pico. Na avaliação do senhor, a cidade corre o risco de uma segunda onda ou já superou a pandemia?
Desde o início da pandemia os cálculos de especialistas previam que se Natal tivesse um isolamento social de 60% a 70% a curva do coronavírus seria achatada e o ‘pico’, o momento de mais casos, seria em julho. Mas não tivemos esse isolamento, e essa curva foi antecipada para metade de junho, mas caiu com um “corte.” Em julho, as pessoas voltaram para a rua, mas o mês inteiro foi de queda, conforme as estatísticas observadas. Praticamente não houve um pico drástico em Natal porque a curva da pandemia foi cortada. Agora estamos experimentando essa redução da curva, que foi atípica e precisa ser estudada. Se você diz que foi apenas o isolamento social que serviu, você está errado porque a curva começou a cair quando as pessoas voltaram às ruas. E nós continuamos em queda. Hoje também temos uma situação confortável, com leitos disponíveis, de UTI e enfermaria.

Por que houve esse “corte”, essa queda, na avaliação do senhor?
Porque entre os dias 9 e 16 de junho houve uma onda de tratamento em massa de ivermectina em Natal. Houve o problema de automedicação, que sabemos que aconteceu e de fato não recomendados, mas fato é que houve essa onda de tratamento. Três semanas depois o número de casos começou a cair. O que se estuda hoje é se a ivermectina tem um evento semelhante ao que se estuda com a vacina BCG. A vacina BCG é eficiente contra outras infecções respiratórias virais e traz uma resposta imunológica em cerca de três semanas. Se pesquisa se ela e se a ivermectina tem esse mesmo resultado com relação ao coronavírus. Ainda estamos tentando levantar quantas pessoa tomaram o medicamento, para ver se há uma relação de causa e efeito. Se há essa causa e efeito precisamos de um tempo para provar que de fato funcionou. A princípio estamos vendo se o tratamento precoce funciona.

O que o senhor apresenta, sobre os resultados da ivermectina, a Prefeitura e o comitê-técnico da Secretaria Municipal de Saúde de Natal considera uma hipótese ou fato científico comprovado?
É uma hipótese. Para você ter hipóteses, tem que ter fatos que a sustentem. Estamos juntando esses fatos para apresentar em um congresso nacional em outubro para ser analisada pelos cientistas para se provar ou não a eficácia. A ivermectina tem pesquisas feitas a partir de 2016 que envolve pesquisas na oncologia, no envelhecimento celular, no ciclo autofágico, que fazem dela uma droga imunomoduladora em potencial. Precisamos juntar todas as peças para relacionar com outras, como a mortalidade da covid-19, grupos de risco.

Qual deve ser a prioridade do Município a partir de agora para tratar a pandemia?
A prioridade é a de manter o que já vem fazendo. O Município vai priorizar o tratamento precoce, dos grupos de risco nas unidades básicas de saúde (idosos, diabéticos e hipertensos), recomendar e oferecer a possibilidade do tratamento preventivo e vai defender os grupos de risco. O retorno das pessoas para as suas atividades normais também deve permanecer, se resguardando, claro, os grupos de risco. A gente trabalha com o um protocolo próprio e estamos tendo resultados, e esses resultados não podem ser simplesmente desprezados.

Essa também deve ser a prioridade do Estado?
O Estado e o Município devem entender que os dois tem razão. O que um faz de bom e o que o outro faz de bom deveriam ser utilizados juntos em prol da população. O Rio Grande do Norte foi um dos primeiros Estados do Brasil a adotar o distanciamento social. Isso foi criticado na época, mas hoje se mostrou muito positivo. Isso evitou logo de início que houvesse uma situação caótica, que foi visto em outros locais. O uso da máscara obrigatório também é muito eficaz. Agora, existe a possibilidade da gente cortar e diminuir ainda mais a letalidade dentro do protocolo municipal. Convencer o Estado a usar o protocolo do Município é complicado porque existe um pensamento de infectologistas mais radicais, ligados à universidade, que tem outra maneira de pensar. Não digo que estão errados, mas o nosso ponto de vista é outro. Nosso ponto de vista é que a gente estamos aprendendo com a pandemia, observando o que está acontecendo.

Existiu uma politização em torno da pandemia no Rio Grande do Norte?
A politização é mundial, e aqui não foi diferente. Discordâncias são comuns, mas na hora que essa polarização política começa a destruir o trabalho do outro, ela começa a ser nociva à população. E eu entendo que ainda está na hora de chegar a um acordo entre a classe política para mostrar o que cada um tem de bom, entender de onde veio os resultados atuais da pandemia e saber o que é melhor à população. Entre os médicos também teve muita discórdia se remédio y ou x eram bons ou não. Acho que a discórdia entre os médicos está mais um pouco acalmada porque isso foi muito ruim para todo mundo no início. O fato de pensar diferente não significa que você esteja errado, certo, ruim ou bom. O que queremos é que a população fique livre dessa doença e para isso usamos o que está ao nosso alcance.

Aqui em Natal, tivemos aglomerações praia de Ponta Negra e, mais recentemente, aglomeração nos bares. Na avaliação do senhor, os riscos de um novo aumento de casos em Natal são altos por causa dessas aglomerações?
A prefeitura fechou alguns estabelecimentos no fim de semana por descumprir as ordens de aglomerações. A gente trabalha respeitando todas as normas internacionais de distanciamento e uso obrigatório de máscara obrigatório. De forma nenhuma a gente diz que o tratamento precoce e preventivo sozinhos reduziu o número de casos, antes que a gente tenha o resultado científico disso. O que a gente quer é somar, que as medidas adotadas sejam amplificadas pelos tratamentos precoce e preventivo. Mas jamais podemos descuidar das medidas de distanciamento.

Quanto tempo após os acontecimentos de aglomerações os especialistas da Secretaria Municipal de Saúde estimam que as consequências podem ser observadas, para avaliar os riscos ou não? Isso afeta a volta às aulas presenciais?
Sim, também olhamos para esse tempo de 15 dias e estamos preocupados com possíveis aumentos, mas a gente observa que por enquanto a transmissão continua diminuindo. Por isso mesmo nenhuma das medidas tomadas serão negligenciadas, pelo contrário. A volta das aulas a gente tinha uma previsão de voltar precocemente, mas tomamos mais cuidados porque fatos novos apareceram, com crianças apresentando uma doença inflamatória. Crianças aqui no Município de Natal foram atingidas, e também fomos notificados pelo Ministério da Saúde. O que observamos agora é a gravidade e a amplitude dessas doenças, por isso a cautela. Tudo indica que a doença é autoinflamatória, como algumas crianças já tivessem uma disposição prévia a elas. Quando o vírus atinge essa pessoa, ela tende a ter mais gravidade. 

Existem critérios estabelecidos para avaliar a segurança sanitária do retorno das escolas? Quais?
Os critérios estão sendo revistos e replanejados (por causa da Síndrome Inflamatória). A princípio, todos os parâmetros epidemiológicos para se retornar às aulas do ponto de vista da segurança do número de casos estavam sendo cumpridos. Estamos com uma taxa abaixo de 1, que é o seguro, e com baixa ocupação de leitos. Com a abertura das retomadas econômicas se cria uma série de expectativas, que complica a própria compreensão da população. Por exemplo, a criança pode ir ao shopping, mas não pode ir à escola? E aí também lidamos com questões da segurança dos profissionais, dos professores. E é por isso que estudamos qual o melhor modelo para retornar. Mas quanto mais tempo demorar para reabrir as escolas, mais escolas vão fechar e vai ser pior.