Janeiro

Publicação: 2019-01-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Dácio Galvão
daciogalvao@globo.com

Meu amigo Bissau não conseguiu entender bem esse desenlace de Cesare Battisti. Repercussão na mídia global. Espantado com a tendência mundial ao neoliberalismo extremado ele presta a atenção para não ser tragado pelo excesso de qualquer lado. Obviamente há um bombardeio de notícias sobre o episódio da prisão e extradição.

Intrigado, se debatia    com o assunto. Uma coisa é fatos e cronologias. Outra coisa é a história! Acentuou meu interlocutor. Cesar, é figura no mínimo controversa. Nos últimos trinta anos mobilizou em torno de si uma rede de interesse curioso envolvendo personalidades expressivas no mundo político, jurídico e intelectual: François Mitterrand, Jacques Chirac, Bernard-Henri Levy, Lula da Silva, Tarso Genro, Michel Temer, Jair Bolsonaro, Evo Morales, Silvio Berlusconi, Matteo Salvini, Dias Toffoli, Luiz Fux, Mino Carta... Contra ou a favor.

Nada sei sobre Cesare Battisti. Falei. Só o superficial que vem rolando nas redes sociais. Criminoso comum, terrorista é a predominância adjetiva. Substantivamente foi militante de extrema-esquerda da organização Proletários Armados pelo Comunismo atuando na Itália entre os anos de 1976 e 1979. Em território francês escreveu romances policiais onde misturou na ficção narrativas autobiográficas. O periódico inglês, The Guardian afirmou que o episódio da extradição foi em decorrência de pacto direitista ítalo-brasileiro. Editorial da Carta Capital diz: “A decisão de Lula de manter Battisti no Brasil, ao fim de seu mandato, em dezembro de 2010, gerou críticas internacionais, principalmente do governo italiano, e figura entre os grandes erros de avaliação do ex-presidente. O italiano alimentou o mito de ser um militante político de esquerda perseguido por seus ideais, mas o histórico de suas condenações revela apenas um ladrão comum e um assassino covarde”.

Bissau, por fim, que estava assistindo na telinha a chuva de granizo que interrompeu o jogo da copinha São Paulo sub20 continuou com mais dúvidas na cabeça do que tinha antes. Entre a verdade e o mito...

O mito tem para psicanálise um dado valor simbólico. Para certo substrato da população pode significar mentira, criação fantasiosa ou figura acima da média do pensamento comum. A idolatria... Ou seja, pode ser mentira, verdade ou cortina de fumaça ufanista. Os gregos através da mitologia narravam fenômenos naturais, fatos reais. Misturavam o tangível e o inatingível. Alimentaram fé, crença e assim nos legou como campo do pensamento imponderável.

No meio das divagações de Bissau vou me molhando entre um e outro respingo que cai da chuva de verão. Na beira de mar. Um selvagem levanta o braço abre a mão e tira um caju. Um momento de puro amor. Decido por um mergulho, chupo e mastigo o fruto. Mas também não desgrudo da manga-espada durinha que vou rangar. Banho de mar chupando e comendo manga é um grande barato. O território livre e democrático da República da Pipa é louco como o fundo do mar. Convencional e inusitado. O litoral sul brilha e estampa sua luminosidade tropical. Os torsos sobressaem sob os raios do astro-rei. Modelados e bronzeados na estética greco-romana. Desenhos apolíneos é opção preponderante nos modelos masculinos. As mulheres mais difusas (gordas, magras, grandes, pequenas, medianas) diversificam parâmetros. Cada vez mais explodidas em exuberância e sensualidade. Mulheres traços-Carybé. Mulheres rotundas, esculturas-boterianas. As nativas-Gauguin. As douradas-Klint.  Mulheres negras-Di Cavalcanti...  Ah! Apolo como padrão. Afeição e aferição. E Afrodite como chavão de comportamento. Hefesto sem domínio ou condução. Empoderamento.  E as ondas no vai e vem trazendo espuma. Água e sal lavando o rosto e a alma. Bem de longe insiste em pairar na Praia do Amor, a voz melancólica de Baco, o Exu do Blues, decantando livres girassóis de Van Gogh. É janeiro, irmão!


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