Júlia, a mãe de Thomas Mann

Publicação: 2020-08-06 00:00:00
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Daladier Pessoa Cunha Lima
Reitor do UNI-RN

A nação brasileira se ressente de não ostentar um Prêmio Nobel, nas diversas áreas contempladas por tão importante láurea da Academia Sueca.  Embora, ao longo do tempo, vários brasileiros tenham sido indicados ao Prêmio, até agora essa frustração persiste, às vezes sem uma causa plausível para a exclusão dos nomes que trazem as cores do Brasil, a exemplo de Érico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado.  Não que possa servir de consolo, ou de evasiva para minorar nossa frustração, mas deve-se ressaltar que Thomas Mann, autor do famoso romance A Montanha Mágica, e Prêmio Nobel de Literatura 1929, é filho da brasileira Júlia da Silva Bruhns, nascida em 1851 no litoral do Rio de Janeiro, entre Angra dos Reis e Paraty.

O pai de Júlia é João Luiz Germano Brunhs (1821-1893), membro de uma família de comerciantes de Lübeck, Alemanha, que emigrou para o Brasil em 1840. Depois de se fixar no litoral do Rio de Janeiro, em Angra dos Reis, casou-se com Maria Senhorinha da Silva, que faleceu durante um parto, em 1856. A pequena Júlia, quarta filha do casal, tinha cinco anos à época, e, dois anos depois, foi levada pelo pai para a Alemannha, onde ficou sob os cuidados de um internato e de uma educadora.  Júlia da Silva Bruhns jamais voltou ao Brasil, e, pouco antes de completar 18 anos, casou-se na cidade de Lübeck, com o senador vitalício Thomas Johann Heinrich Mann.  Ela faleceu em 1923, quase dois anos antes da 1ª edição de A Montanha Mágica.

Em 2001, o Museu da República do Rio de Janeiro celebrou os 150 anos de nascimento da menina Júlia, que se tornou matriarca de um clã de escritores e de intelectuais de língua alemã, conforme consta no ensaio escrito pelo professor e escritor Paulo Astor Soethe – Posfácio do livro A Montanha Mágica, tradução de Herbert Moritz Caro.  Além de Thomas Mann e do irmão Heinrich Mann, dois escritores consagrados da Europa no século XX, também filhos e netos de Thomas, portanto, netos e bisnetos de Júlia, destacaram-se na vida intelectual da Alemanha e de toda Europa.  No tocante aos filhos de Thomas Mann, há de se citar os escritores Erika e Klaus, o historiador Golo e o músico Michael.  O neto Frido, filho de Michael, é autor de romances e de obras de ensaio.  Ele é o membro da família Mann que mais se relaciona com o Brasil.

São poucas referências de Thomas Mann sobre sua parcial origem brasileira.  Vale a pena a citação de uma carta que o famoso escritor enviou para a norte-americana Agnes E. Mayer, em 1939:  “Minha herança paterna e materna divide-se exatamente segundo o modelo goetheano:  do pai a ‘estatura’, ao menos uma dose disso, e o ‘jeito sisudo de ser’; da mãezinha, tudo que Goethe resume simbolicamente nas palavras ‘alegria, candura’ e a vontade de histórias tecer.” Ele escreveu poucos textos sobre sua mãe brasileira, mas ressalta que dela herdou o gosto e a aptidão para a música.  Thomas Mann encontrou e manteve cordiais conversas com destacados escritores brasileiros:  Sérgio Buarque de Holanda, em Berlim, a 18 de dezembro de 1929, e Érico Veríssimo, no dia 15 de março de 1941, em Denver, nos Estados Unidos.  Em seu livro Gato Preto em Campo de Neve, Veríssimo mostra destalhes da sua impressão pessoal sobre Thomas Mann, bem como da conversa com o grande escritor que chamava o Brasil de terra mátria. 


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