Jeanine Will, “Pará-choques” (2018, Córrego Editora, 54 p.)

Publicação: 2019-09-18 00:00:00 | Comentários: 0
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Alexandre Alves, doutor em Literatura e professor da UERN
alexandrealvesuern@gmail.com

No meio da avalanche da mediana (e, por vezes, bem medíocre) poesia brasileira contemporânea, pequenas editoras fazem a diferença, para o bem e para o mal. Neste segundo volume da paulista – a estreia se deu no “Caminhão de mudança” (2017) –, ela explora o poema bem curto, indo do monoverso ao sexteto, com a ecológica vantagem de imprimir os versos nos dois lados do papel (aprendam, potiguares!). Bifurcado nas seções “No Px” e “Na banguela”, esta última bem mais curta que a primeira, quem ganha atenção é o haicai tropicalizado, mas aqui e ali ainda com vestígios do original japonês (“Memoria rã”, “Por trás das árvores”). Apesar de ainda trazer certa veia humorística (o relógio do mosteiro/ passa o dia inteiro/ horando) da Poesia Marginal herdada do Modernismo de 1922 – aparentemente, dois fantasmas sobre a lírica nacional dos anos 2000 –, quando Jeanine acerta o alvo, a síntese alcançada é de alta ignição. Entre outros, eis os casos do retrato da solidão em “Cidade inalcançável” (As mensagens chegarão em garrafas/ quando esta cidade for quebra-mar/ até lá, nossos braços estendidos/ não saberão se abraçar), do flash imagético em “3x4 abandonado” (tua cabeça na calçada/ devia pesar nos ombros do mundo), do sombrio “Achados e perdidos” (somos noturnos guardados/ nos bolsos da madrugada/ evitando as mãos do amanhecer) e do fatídico terceto sem título: “Temo envelhecer na corrente/ como um cão traído/ por um prato de comida”. Se tais versos estivessem nos para-choques das estradas brasileiras, a vida seria bem melhor. Esperemos agora mais bilhetes de passagem de Jeanine.

Ricardo Aleixo, “Pesado demais para a ventania” (2018, Todavia Editora, 200 p.)
Eminência parda da poesia negra brasileira, o mineiro já segue com quase três décadas publicando sem muito alarde (nada de “Prêmio Jabuti” ou aparições midiáticas com rapaduras). Nesta antologia de várias obras, o autor seguiu – mimetizou? – a mesma ideia de Drummond de dividir os poemas em 06 seções temáticas, deixando o leitor sem saber de qual livro os textos foram extraídos. Esquecido o embaraço, o poeta transcorre seus versos indo do haicai tropical (“Brasília visto de perto”) ou do quarteto (“Re:provérbio”) ao poema mais longo, caso de “O poemanto”, com 27 estrofes de tamanhos variados. Há um gosto de Aleixo pelo poema visual de fontes diferentes e variação nas partes da página, demonstrando uma experimentação já exaurida pela Poesia Concreta, assim como textos em inconsistente ritmo de prosa (“Cabeça de serpente”, “Travelling”, “Einstein remix”, “Passagens”, “Monstro”). Porém, acima de tudo, há o lirismo contrabandeado do ínfimo cotidiano urbano, como o já antológico (Drummond aprovaria!) “Antiode: Belo Horizonte”, insólito exemplar para poetas potiguares que deliram sobre suas cidades sem ver os problemas delas, e o sinistro “Labirinto” (como os cegos/ conheço o labirinto/ [...]/ conheço a/ cidade toda [...] e nela – à / custa de me perder – me/ reconheço). No multicultural “Estação primeira de Manhattan”, o lirismo cita Hendrix, Hélio Oiticica e o... samba da Mangueira(!). No fatal “Conheço vocês pelo cheiro”, o poeta – famoso por suas performances – faz o leitor imaginar como ficaria sua envolvente leitura ao vivo, avisando sobre o dia a dia.



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