João Almino, “Entre facas, algodão” (2017, Record, 192 p.)

Publicação: 2017-12-06 00:00:00 | Comentários: 0
A+ A-
Alexandre Alves
Doutor em Literatura e professor da UERN, alexandrealvesuern@gmail.com

A diatribe da temática sobre o tempo está bem acesa no atual cenário da prosa nacional. Saído há muito tempo da desértica Mossoró, o hoje diplomata João Almino fez de Brasília o espaço de narrativas anteriores. Porém, aqui nos 07 capítulos, um protagonista sem nome e já em seus 70 anos se separa da esposa de longa data, intencionando retornar ao sertão de infância numa atração entre nostalgia e vingança, além de reencontrar Clarice (clara perturbação infante-amorosa). De Brasília ao interior do Ceará, num diário entre 31 de março e 21 de setembro, passado e presente do aposentado deixam a densidade esperada em um romance não consolidada enquanto enredo, muito pelo raso conflito interno do narrador, indeciso e quase sempre sem ímpeto. Nos poucos protagonistas, quando acontece a volta ao solo cearense, o ritmo frenético de cenas e curtos diálogos deixam a narrativa quebradiça como um quadro confuso. O foco nas ações da vingança contra o (suposto) assassino do pai do narrador e o (anti)clímax da relação com Clarice são, ao menos, uma antítese ao gosto do leitor comum, ouriçado pelo final feliz, que não ocorre. Fica a impressão daquele romance tratando de vida e morte (várias, aliás), temas milenares e com exemplos mais robustos desde o Modernismo ou antes. Assim, as entrelinhas de João Almino merecem preparar mais facas e menos algodão.

Marcelo Dolabela, “Lira dos 60 anos” (2017, Independente, 64 p.)
Eminência obscura da poesia da terra de Drummond desde o decênio de 1970, o inquieto Dolabela (famoso pelo livro “ABZ do rock brasileiro”) publicou dezenas de obras, passeando pela poesia prontamente influenciada pelo Concretismo e Poema-Processo do começo de carreira, adentrando na prosaica Poesia Marginal em fins de 1970 e depois se arriscando – sem muito alarde – na múltipla poesia contemporânea dos dias de hoje. Sem fazer muito esforço para ser reconhecido, mas mantendo constante ação em Belo Horizonte e arredores, suas obras circularam pouco além das montanhas mineiras e os exemplares poéticos presentes endossam uma produção febril entre o verbal, como na sequência “Palavra de pórtico”, e não-verbal, a exemplo de “Lenin antropofágico” e “Versículo zero”. De todo modo, o mineiro viu o mundo da poesia continuar girando ao longo dos últimos sessenta anos, aqui expostos em forma de coletânea auto selecionada, dando também seu veredito muito particular no catártico e irônico “Autobiografia capilar”: “que um dia eu receba / da morte um abraço / e ouça o mote: / chega de fracasso”. Aos poetas que almejam (alguns contemporâneos almejam um milagre!) o estrelato, os versos e anti-versos de Dolabela trazem uma antítese dos polidos poetas do século XXI, aqueles que, provavelmente sob o efeito do instante, durarão pouco mais que um verão.


continuar lendo



Deixe seu comentário!

Comentários