João Paulo

Publicação: 2020-08-14 00:00:00
Rubens Lemos Filho
rubinholemos@gmail.com

Houve um tempo, distante, em que jogador de futebol se garantia nas peneiras. Filas e filas de gente suburbana querendo um espaço no time do coração ou no time da vez. Os habilidosos guardavam na ponta da língua a palavra da esperança, consolidada ou destruída por veteranos que conheciam talento no sangue do olho. “E aí, moleque, joga de quê?”. O coral da resposta multiplicava-se um a um: “Sou meia-esquerda”.

Créditos: Luciano Marcos/ABC FC


Jogar no meio-campo, de volante ou mais adiante, de meia-direita ou esquerda significava a superioridade do homem no campo. Para se dar bem, não bastava levar debaixo do braço a melhor chuteira ou ser apadrinhado de diretor de clube. Precisava saber driblar. Tocar macio e com precisão, organizando a equipe e dominando os quadrantes do campo, tal pequeno imperador.

Quem comparecia às peneiras, que morreram com a introdução de teóricos, eles próprios, ruins com a pelota, trazia com a ansiedade a prerrogativa de rei da rua, bom do bairro, Garrincha dos calçamentos duros ou de campinhos de areia. Na hora de encarar outros na mesma briga, o medo paralisava as pernas e a volta para casa, de ônibus, provocava choro contido e molhado de vergonha.

Trataram de destruir as duas funções primordiais no futebol bonito. Os dois meias passaram a ser brucutus marcadores e quem demonstrava raro talento, para ficar no clube se submetia à ordem tosca de quem nada sabia de arte ou sequer conseguia fazer duas embaixadinhas sem deixar o balão cair.

O último camisa 10 brasileiro foi Rivaldo, um gênio silencioso e mortal no brilho esgrimista de sua canhota em perna longilínea e corpo delgado de nordestino de sertão seco. Rivaldo brilhou em duas Copas do Mundo(1998 e 2002) e jogaria, sem qualquer problema em lugar de Zinho em 1994 e em 2006 no lugar de qualquer um. Rivaldo, depois de Romário, foi o maior jogador brasileiro pós-Zico. Ronaldo Fenômeno não lhe amarrava a chuteira, direita, a ruim.

Depois de Rivaldo, com bola para jogar até os 50 anos, elegeram – mídia e geração tecnológica -, o bonitinho Kaká, do São Paulo, formoso, bem nascido, bom rapaz, um Tony Ramos das quatro linhas. Reserva em 2002, Kaká fracassou em 2006 e esteve razoável na Copa da África em 2010.

Depois dele, que virou popstar de capa de revista, veio Neymar. Espetacular driblador, consegue fintar a si mesmo. Deram-lhe a camisa 11 e nem sinal de Romário. Deram-lhe a 10 e o seu egoísmo quadruplicou em piruetas inúteis pelo campo, atrasando o jogo e complicando a vida dos precários companheiros ao insistir no toque para trás. O drible é bonito quando a caminho do gol e bisonho como atração de circo.

Neymar está no PSG sem cacoete de camisa 10. Fez um partidaço pela Champions League contra a Atalanta, mas uma das tarefas misteriosas do futebol mundial é descobrir a verdadeira posição do menino arrogante do Santos. É ponta, que inventaram de chamar de atacante de beirada pela direita ou esquerda? Ou pelos dois lados? Meia de criação, ele nunca será. Falta-lhe a capacidade do compartilhamento, da divisão de méritos e derrotas. Ele é atacante. Liberto.

No futebol do Rio Grande do Norte, coitado, quarta divisão nacional, jogos vêm sendo mostrados em plataforma de computador por conta da pandemia do Coronavírus. E o nível fica abaixo do piso de taco da casa mais velha de nossa memória infantil.

A camisa 10 aqui ficou no armário desde a passagem de Lúcio Flávio, pelo ABC e de Cascata, pelo alvinegro e pelo América. Os dois sabiam jogar e sabiam seduzir, artifício quase erótico do meia de placenta.

Hoje, o ABC dispõe de João Paulo(foto), de porte elegante, de batida sutil, de gols bem articulados. A João Paulo, só falta olhar ao campo e perceber que joga com 10 outros de igual camisa. E que a Fifa não incluiu duas bolas (uma só para ele), durante 90 minutos.

Abertos
Dois times abertos e um segundo tempo movimentado fizeram de ABC 5x1 Santa Cruz, o melhor jogo do campeonato. Diá adiantou o time e triturou a boa molecada de Lupércio Segundo.

Vocações
Há dois ou três meninos de futuro no Santa Cruz.

Sexta-feira decisiva
Uma vitória sobre o Potiguar hoje em Mossoró recoloca o América na liderança do segundo turno. Agressividade e acerto nos passes no meio podem facilitar a missão. 

São Marcelinho
Marcelinho Carioca quer ser candidato a vereador de São Paulo pelo PSL. O problema é que ele sofre forte oposição na executiva estadual, que trabalhou para desfiliá-lo e garante que ele não será candidato. 

Chantagem
O deputado federal Júnior Bozella(PSL) usou a palavra "chantagem" para definir a negociação de Marcelinho, que teria teria cobrado R$ 3 milhões pela candidatura. Logo Marcelinho, uma flor de ingenuidade.

Um anjo
Deve ser tudo mentira. Marcelinho Carioca, pelo histórico, é um idealista e tem verdadeira ojeriza a manusear dinheiro. Marcelinho é um caráter angelical. Comparável ao de um frade beneditino.


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