Rubens Lemos Filho
Jogo antes do jogo
Publicado: 00:00:00 - 06/08/2021 Atualizado: 23:19:20 - 05/08/2021
Rubens Lemos Filho 
rubinholemos@gmail.com

Quando dirigia a redação da Tribuna do Norte na segunda metade dos anos 1980, o jornalista Antônio Melo sabia de minha preferência clubística: eu torcia pelo ABC. Era repórter da Editoria de Esportes comandada por Madson Fernandes e composta por mim, pelo repórter Veraílton Silva, pelo professor Everaldo Lopes e a sua coluna Numeradas e Justino Neto cobrindo os times do interior. 

Divulgação


Melo ordenou o revezamento meu com Veraílton. Eu não seria exclusivamente ABC. Num dia estava na velha Vila Olímpica, barroca, mas cheia de bons jogadores e no outro no campo General Everardo, do América, onde hoje existe uma faculdade local. 

Melo sempre duvidou de tudo. No caso, da isenção dos dois repórteres. Nunca recebeu uma reclamação. Eu e Veraílton trouxemos belas reportagens de página inteira, especialmente para os domingos, todas adormecidas no Setor de Arquivo e Pesquisa. 

 Morava nesse tempo uma filosofia na qual embarquei como um chato militante, porque todo militante é insuportável. Os clubes faziam coletivos, que eram jogos entre titulares e reservas para moldar o esquema de jogo e aperfeiçoar talentos. 

Quando cobria o ABC, os jovens Alciney e Adalberto, pratas da casa, dominavam o setor com refino e faro de gol, no caso do neguinho Adalberto, um craque perdido para ele mesmo. Os coletivos ocorriam sempre às quartas e sextas-feiras, quando os “aprontos”, antecipavam, dependendo da malandragem do técnico, as escalações para o jogo de domingo no Castelão.

Passei um ano na Editoria de Esportes e percorri todos os caminhos de uma redação, até chegar a redator de primeira página. Longe da obrigação profissional, pude me dedicar a ir aos treinos, dependendo do meu horário na escala de serviço, quase sempre de sete a oito horas diárias e de quatro a cinco pautas cumpridas. 

Assistir coletivo é uma delícia. Você sentencia o sujeito. Sabe logo se ele é bom ou ruim. Percebe a sacada do treinador ao modificar o esquema com uma substituição que mexe na defesa e no meio-campo, no meio-campo e no ataque. 

Telê Santana adorava coletivos. A seleção brasileira de 1982 treinava como se jogasse nos preparativos para cada jogo, Telê observando e consolidando ideias. Como a que fixou Paulo Isidoro na ponta-direita e que foi pulverizada pelo próprio Telê Santana no Mundial da Espanha, quando um canhoto, Dirceuzinho Guimarães, que Deus o tenha, ficou torto na extrema-direita, ele, canhoto dos melhores. 

No São Paulo, Telê Santana levava os jogadores à loucura, exigindo a repetição de jogadas defeituosas. O grandalhão e precário volante Bernardo chegou a quase empurrar o técnico numa sexta-feira, conta Rai no documentário sobre Telê Santana. 

Os coletivos não são mais as principais armas de um time. Hoje, é preciso gastar tempo e máquinas de ginástica a criar marombeiros de chuteiras e separar setores, como a defesa do meio e o meio do ataque. Alguém me explique como é encontrado padrão, forma, conceito, estilo na hora em que juntam-se todos. 

Até meu time de futebol soçaite, o Rio Ave, 11 anos invicto entre 1999 e 2010, fazia treino coletivo. Danilo Menezes, ídolo do ABC e seu maior meia-armador em todos os tempos, exigia o máximo em técnica, em fundamentos, em domínio de artes como o drible e a caneta progressiva, de jogadores absolutamente talentosos. 

O futebol é association, portanto, coletivo nele. Ou se verá beleza ou, quase certeza, o baixo nível das peladas que assistimos em 800 canais de TV por assinatura ou mesmo na Velha Globo, que perdeu o monopólio da opinião pública e o poder de decisão de quem era a centroavante da comunicação social brasileira. 

Quem não viu um coletivo, por exemplo, com Dedé de Dora(vi no  ABC de torcedor  e no América, de repórter), perdeu a chance de (tentar) imitar o canhoto que chutava como encestasse no basquete, que lançava como  carteiro enviando a mensagem com a mais linda declaração de amor ao destinatário.

CPI Viúva Porcina 
É como estão chamando a quase natimorta CPI da Arena das Dunas. Nas duas primeiras sessões, o presidente, deputado Coronel Azevedo, não participou. O depoente, controlador Pedro Lopes se fez presente. 

Revolta 
O suficiente para provocar revolta na relatora, Isolda Dantas, do PT, que soltou o verbo contra o presidente da comissão.  Com o time desentrosado, ninguém ganha jogo. Azevedo e Isolda jogam em extremos opostos: Direita e Esquerda. 

Bastidores 
Advogados da empreiteira responsável pela Arena das Dunas estariam trabalhando e nos bastidores. Com argumentos convincentes, segundo informações de arquibancada vazia. 

Bob Gel 
Perdeu em casa o duelo para outro ex-americano, Evaristo Piza, na derrota do Santa Cruz para o Manaus no Arruda por 2x1. O Santa Cruz, segundo os matemáticos, tem 98% de chances de cair para a Série D. Que venha e abra vaga para ABC ou América. 

Eu e eu 
Roberto Fernandes envelhece e piora. Culpa os jogadores pela fase. Tomara, nunca volte ao Rio Grande do Norte.






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