Viver
Jorge Amado: Atrás das cortinas de Estância
Publicado: 00:00:00 - 25/02/2010 Atualizado: 19:48:11 - 24/02/2010
Maria Betânia Monteiro repórter

Em 1936, Jorge Amado foi condenado à prisão pelo governo de Getúlio Vargas. Era a época da Intentona Comunista, quando aliados do Partido Comunista, em nome da Aliança Nacional Libertadora, tentavam derrubar Vargas da presidência. Por ser muito jovem, Jorge Amado não ficou numa cela. Foi confinado na distante cidade de Estância, interior de Sergipe. Este período acabou se configurando como um dos mais criativos de sua vida e obra; nele Jorge Amado escreveu mais de metade de ‘Capitães da Areia’, concluiu ‘Mar Morto’ e levou na bagagem de volta, tipos inesquecíveis, personagens, histórias, que povoaram, depois, alguns de seus principais livros, como Gabriela, Tereza Batista e Tieta do Agreste. Detalhes do cotidiano e da intimidade nesse capítulo da vida do escritor brasileiro só agora poderão ser conferidas na obra “Jorge Amado, uma cortina que se abre”, livro do escritor e amigo de Jorge Amado, Rui Nascimento, que estará lançando em Natal no dia 1° de março, às 19h, no Centro de Lazer e Cultura do Sesi.

Comunista de  carteirinha, o então  jornalista Jorge  Amado ficou durante anos na cidade de  Estância, em SergipeO livro é editado pelo Senai e tem prefácio de Paloma Jorge Amado, filha do romancista e também escritora. “O carinhoso prefácio de Paloma Jorge Amad foi um presente”, disse Rui Nascimento em entrevista por telefone ao VIVER, de Brasília. Segundo Rui, Paloma foi testemunha da grande amizade que uniu João Nascimento, pai de Rui, a Jorge Amado e que remanesce hoje, intocável, entre seus descendentes.

Por conta dessa ligação afetiva, uma parte do livro foi reservada para manifestações literárias da época, artigos de Jorge Amado, noticiário da imprensa local sobre suas atividades, correspondência trocadas entre o escritor e o autor do livro. Fotografias de pessoas e lugares visitados pelo romancista completam o relato, que tem a pretensão de ampliar um ciclo informativo sobre a vida de Jorge Amado na turbulenta década de 1930. “Fiz questão de colocar no livro passagens documentadas, como no caso de relatos e cartas. Não se trata de uma ficção”, explicou Rui Nascimento.

O livro foi escrito com o consentimento e o incentivo de Jorge Amado. Segundo o autor Rui Nascimento, a idéia foi compartilhada com o romancista durante um vôo no Brasil. Na ocasião Rui lembrou que os biógrafos haviam negligenciado o período em que Jorge Amado esteve confinado na cidade de Estância. “Eu disse a Jorge Amado: você não acha estranho que nenhum de seus biógrafos tenha falado dos anos em Estância? Ele fez uma pausa para pensar e em seguida disse ser uma boa ideia a publicação de um material sobre este período. Jorge Amado ainda me disse: mas faça logo isso, não quero que seja uma obra póstuma, ainda quero ler”, relatou Rui e lamentou por não atender à tempo o pedido de seu amigo.

A amizade entre Jorge Amado e Rui Nascimento nasceu justamente em Estância. O pai de Rui tinha uma livraria na cidade, onde intelectuais usavam a calçada para travar inúmeros diálogos. Lá surgiu o convite para uma festa na casa do pai de Rui Nascimento, Jorge Amado foi um dos convidados. “Eu tinha apenas 8 anos e Jorge queria que os convidados ficassem por mais tempo na festa. Então ele trancou as portas da casa e colocou as chaves no meu bolso. Foi assim que nasceu nossa cumplicidade”, revelou Rui Nascimento, que só agora presenteia os admiradores de Jorge Amado os detalhes inéditos de sua vida e obra, feito que poderia partir apenas de um cúmplice.

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