Jorge Barbosa, “Arquipélago” (2018, Livraria Pedro Cardoso, 64 p.)

Publicação: 2019-06-05 00:00:00 | Comentários: 0
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Se o Modernismo foi de difícil parto no multifacetado Brasil, imagine em uma ainda colônia portuguesa na década de 1930. Na importante publicação de 1935 (marco do início do Modernismo de Cabo Verde ao lado da revista “Claridade”, de 1936), os oito poemas de Jorge Barbosa deram início à atualização nas letras do arquipélago, então sob domínio lusitano. O moderno já se dá na capa do artista plástico Jaime de Figueredo e nos versos já constam uma consciência dos problemas cabo-verdianos, como a sensação de isolamento/esquecimento a que teóricos (Manuel Ferreira, Simone Caputo Gomes, entre outros) deram o nome de “insularidade”, a aflição entre o partir e o permanecer dos povos (África, Portugal). Nos poemas fica bem clara a intenção de trazer o verso livre para expor as agruras afro-cabo-verdianas. A angústia de se sentir isolado fica transparente em “Panorama” (Destroços de que continente,/de que cataclismos,/de que sismos,/de que mistérios?), gerando um antiverbalismo existencial típico da poesia moderna (Ilhas perdidas/no meio do mar/esquecidas/num canto do mundo). Os problemas ambientais do ilhéu – bem além da limitante Ecocrítica anos 2000 – se mostram nos brevemente narrativos “A terra” (As encostas áridas, as planícies secas/[...]/ imitam rictos de uma dor profunda/e fantasiam carnes ao sol mumificadas) e “Povo”: “conflito num sangue só/do forte sangue africano/com o sangue aventureiro/dos homens da Expansão”. Para reler várias vezes na busca do humano presente nas ilhas de Cabo Verde.

Márcio Simões, “Fúrias de Orfeu” (2017, Sol Negro, 94 p.)
Nesta seleção de 04 obras não publicadas (!) e excluindo a única já impressa (“O pastoreio do boi”), o jovem potiguar coloca aqui uma auto seleção de sua lírica entre 2001 a 2016. Nela está clara a influência da geração beat – o próprio Simões já traduziu uma seleta do seminal Gregory Corso –, mostrada no uso das imagens fragmentárias e margeando a tensa percepção do cotidiano como mote. Sem cair na tolice metalinguística da recente lírica nacional, contra isso vem o visceral “O aceno das possessões” (vermicidas oxigenam/pulmões/mentes florescem como chagas/no intestino grosso das metrópoles) e as fusões de “Clarão”: “desnorteados sinais sem trânsito/dispersam luzes epilépticas/se debatendo por suas faixas/que marcam laboriosamente minha idade”. Enquanto alguns povoam a capital potiguar com coqueiros-e-cajueiros, Simões propõe uma ida à outra cidade minoritária – e não menos parte da urbe – no surreal “Athanor”, no qual coexistem anarcopunks, músicos enluarados, Cascudo, Zila Mamede, o Bloomsday natalense e a imundície do Rio Pitimbu causada pelo pavoroso ser humano. Já nos divididos “O balé letal” (16 partes) e “Fúrias de Orfeu” (18 seções), Simões exercita o pequeno truque de escrever poemas curtos disfarçados de poema longo. O único senão fica na fixação já bem traçada pelos franceses modernos Apollinaire ou Mallarmé, pelos beats ou por Roberto Piva: começar versos em espaços mais à frente da linha, cacoetes visíveis que marcaram também a Poesia Concreta. Porém, fechando olhos a isto, a poesia ganha corpo nestas páginas de fúria e lirismo contemporâneos.




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