Jornalismo de luto

Publicação: 2020-07-07 00:00:00
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Tádzio França
Repórter      

Uma parte importante da história do colunismo social potiguar foi vivida e escrita por Paulo Macedo. O jornalista faleceu na tarde do último domingo por complicações do Covid-19, aos 88 anos. Antes de ser jornalista formado, na década de 60, Macedo já era um comunicador desenvolto que circulou pelos mais variados espaços da sociedade potiguar, construindo dessa forma o nome que veio a ter no cenário cultural e jornalístico do estado. Segundo os muitos amigos, um homem que viveu apenas para fazer amizades.    

Créditos: Canindé SoaresPaulo Macedo atuou em diversos setores de sua profissão. Sua morte deixa uma grande lacuna no jornalismo localPaulo Macedo atuou em diversos setores de sua profissão. Sua morte deixa uma grande lacuna no jornalismo local


Paulo Macedo completaria 89 anos em dezembro. O jornalista foi levado ao médico na quarta-feira após sofrer uma queda no flat onde morava na Praia do Meio. Foi atendido no pronto-socorro do Walfredo Gurgel, e no dia seguinte transferido ao Hospital Memorial para realizar uma cirurgia no fêmur, fraturado no acidente doméstico. No entanto, o aparecimento de sintomas do coronavírus complicou seu estado de saúde e rapidamente levou ao óbito.

Um típico decano da comunicação, Isaac Faheina de Paulo Macedo atuou em diversos setores de sua profissão, da assessoria política à televisão. Nascido no Ceará, veio morar em Patu, interior do Rio Grande de Norte, no começo da década de 50. Iniciou a trajetória em Natal sob os cuidados do prefeito Djalma Maranhão, que o indicou para o jornal Folha da Tarde. Os primeiros passos na crônica social se deram na Rádio Nordeste, uma particularidade do colunismo potiguar.

Paulo Macedo começou a década de 60 como secretário-chefe do gabinete civil do prefeito Djalma Maranhão. Durante um tempo sua coluna foi escrita na Tribuna do Norte, e na década seguinte levada para o Diário de Natal. Em 1963 fez vestibular na Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza e formou-se com a primeira turma em 1966, antes da federalização da instituição. O jornalista também foi o primeiro secretário de turismo da cidade na gestão do prefeito Agnelo Alves. Macedo ainda popularizou sua figura na televisão com o programa Sala Vip, na TV Ponta Negra, nos anos 90 e começo dos 2000.

Comunicador e amigo
Ao longo de 60 anos de jornalismo, Paulo Macedo só fez amizades. Muitas. É uma característica sempre ressaltada pelos muitos colegas que teve durante a carreira. O advogado e escritor Diógenes da Cunha Lima destaca o fato de Macedo ter sido seu vice na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras durante 34 anos. “Além do colunismo social, foi um homem que exaltou a cultura. Ele ocupou muitas funções ao longo da vida. Pouca gente lembra ou sabe que ele foi um dos grandes responsáveis pela estátua em frente ao Memorial Câmara Cascudo”, diz. Diógenes ressalta ainda o fato de Paulo só ter exaltado o lado bom das pessoas, nunca apontava as falhas. “A glória de Paulo Macedo foi fazer a glória dos outros”, diz. Ele é a quarta cadeira vaga na academia das letras potiguares.

O jornalista Albimar Furtado trabalhou com Paulo Macedo no Diário de Natal por 25 anos. “Ele fazia um colunismo que era realmente social. Tinha espaço para pessoas de todas as classes”, diz. Albimar lembra que a sala de Macedo no jornal era uma das mais procuradas, estava sempre cheia, recebendo desde autoridades a pessoas simples. “Era um homem muito solidário com os amigos, daqueles capazes de gestos de grandeza e lealdade. Um cara simples, apesar de todo respeito que tinha”, afirma.

Cassiano Arruda é outro colega de redações que teve uma longa convivência com Paulo Macedo. “Fomos colegas de faculdade e também de Diário de Natal. Foram 50 anos de convivência. Era uma pessoa amena, que deixava todo mundo à vontade”, diz. O jornalista afirma que o colunismo de Macedo teve seu auge nos anos 70 e 80, quando o Diário de Natal era o jornal mais lido da cidade, e Macedo concorria com Jota Epifânio, o outro peso pesado da área, na Tribuna do Norte. Cassiano também lembra que Macedo foi por anos coordenador do concurso Miss RN. Apesar de atuar num meio de muita concorrência, Cassiano ressalta que o colunista viveu só para fazer amigos.

“A fortuna maior de Paulo Macedo era não fazer mal a ninguém. Até quando era agredido, não revidava. Fazia questão de viver de bem com a vida”, afirma Vicente Serejo. O jornalista conta que Macedo saiu de cena sem ter feito inimizades e que sempre esteve à disposição dos amigos – que souberam retribuí-lo no momento certo. Nos últimos anos de vida Paulo Macedo esteve dedicado à academia potiguar de letras.  

Homenagens
O falecimento de Paulo Macedo rendeu notas de pesares de variadas instituições com as quais ele se relacionou ao longo da vida. A prefeitura de Natal declarou que a morte do colunista “representa uma perda inestimável à Comunicação potiguar, ao mundo das letras e às relações humanas, dada sua postura invariavelmente elegante e pautada por um alto grau de civilidade com as pessoas. Em nome da população de Natal, prestamos nossos sinceros tributos ao ilustre jornalista”.

A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte prestou solidariedade à família do jornalista e resumiu parte de sua trajetória. “Paulo Macedo escreveu coluna social durante mais de 40 anos no jornal impresso Diário de Natal, despedindo-se da rotina da redação em 2011. Também consagrou-se como apresentador do programa televisivo Sala Vip e recebeu homenagens e honraria durante toda carreira profissional”, postou.

O Governo do Estado também lamentou profundamente o desaparecimento do colunista. “Paulo Macedo deu importantes contribuições para o Colunismo Social do RN. Sendo ele um dos pioneiros e um dos mais longevos profissionais da área e que se manteve sempre atuante, chegando a ser o vice-presidente da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Era dono de uma gentileza e de uma simpatia que vão deixar saudades e que esperamos servir de inspiração para as gerações futuras”.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Norte lamentou o falecimento do colega, e lembrou que Paulo Macedo era sócio fundador da instituição sob o número 30, tendo se sindicalizado no dia 05 de julho de 1979. O colunista esteve presente na posse da diretoria do Sindjorn, sendo convidado a compor a mesa e a discursar. “Aos familiares e amigos nossos sentimentos de pesar e nossas orações nesse momento de dor e de perda”, declarou.

O prefeito Álvaro Dias também se manifestou. “A partida repentina do jornalista Paulo Macedo representa uma perda inestimável à comunicação potiguar, ao mundo das letras e às relações humanas. Figura marcante da história da nossa cidade, Natal foi a grande inspiração do seu trabalho”.

A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte – Fiern emitiu nota oficial. “A Fiern se soma ao lamento pela morte do jornalista Paulo Macedo, cearense de nascimento, potiguar de coração, decano do colunismo social e do jornalismo automotivo no RN, imortal da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Paulo marcou história no jornalismo potiguar e sua partida nos deixa mais pobres. Rogamos ao senhor que a sua família e amigos encontrem o conforto necessário ao enfrentamento da dor dessa hora”, assina a nota, Amaro Sales, presidente da entidade.