Economia
José Henrique Paim: “é importante que tenhamos a cultura do acompanhamento”
Publicado: 00:00:00 - 28/11/2021 Atualizado: 14:52:28 - 28/11/2021
Ao falar sobre os desafios da governança na 39ª edição do Seminário Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte, o  ex-ministro da educação, José Henrique Paim Fernandes, abordou diversos aspectos que estão postos num cenário de retomada da educação brasileira com vistas no desenvolvimento econômico. Um dos destaques foi a necessidade do acompanhamento de cada aluno, identificando as habilidades e competências que precisam ser recuperadas. É através desse processo, que envolve desde o professor até os gestores, que precisam também de suporte do Ministério da Educação, que o ex-ministro diz que as escolas conseguirão repor as perdas  na aprendizagem que foram agravadas pela pandemia da covid-19. O ex-ministro também destaca a importância de se adotar um novo conceito de educação e trabalho colaborativo, aliado à ciência, pesquisa e inovação. 

Cedida


O senhor participou como palestrante do 'Motores do Desenvolvimento”. Como avalia as discussões abordadas no evento?
Foi um evento excepcional, no qual discutimos um tema essencial que é o desenvolvimento econômico com a educação e a ciência no pós-pandemia,. Sem dúvidas é o debate que o país precisa fazer a partir do Rio Grande do Norte para que possamos pensar numa retomada que venha garantir a recomposição da nossa educação. A pandemia da covid-19 trouxe uma crise histórica e perdas para educação do País.

E para recuperar essas perdas, o que o senhor propõe?
Quando se fala em governança, precisamos pensar no atingimento de metas e no acompanhamento de metas. Isso está ligado primeiro à questão do compromisso, desde o professor com cada criança, com cada jovem, passando pelo diretor das escolas, pelo coordenador pedagógico, com a aprendizagem em cada turma, em cada classe, e por fim, da secretaria de educação em acompanhar cada uma das escolas. Para que isso aconteça é importante que tenhamos a cultura do acompanhamento.

É possível fazer esse acompanhamento sabendo que boa parte dos alunos sequer conseguiu acompanhar as aulas remotas e ainda se contabilizando quantos não retornaram?
O acompanhamento faz a diferença, mas precisamos também que dentro desse processo de governança, além do acompanhamento, criar condições para que o gestor público, seja o secretário de educação estadual ou municipal, possa também se desonerar dessa parte toda que a gente chama de processo de suporte. É fundamental que a gente consiga fazer com que todos esses processos funcionem para que a gente tenha boa aprendizagem para todos. A gente sabe que tem um grande processo de exclusão e que, com a pandemia, a gente projeta muita dificuldade do ponto de vista de evasão. Por isso, a importância desse acompanhamento de cada uma dessas crianças e de cada um desses jovens.

O que é necessário para superar essa dificuldade e fazer esse acompanhamento?
É importante que a gente consiga construir um projeto de retomada que resgate os elementos mais importantes da educação, que é a aprendizagem e a questão da inclusão. Tudo isso deve ser feito, a partir de uma ação coordenada. Essa discussão foi feita no Motores do Desenvolvimento, pensando não só nas dificuldades  que a gente tem enfrentado e que estão também associadas às dificuldades sociais e às desigualdades do país, mas pensando também no futuro. Isso é essencial para que possamos construir um projeto de nação integrado às questões da nova economia, do desenvolvimento pleno e no qual precisamos trabalhar fortemente para termos resultados melhores.

O que pudemos aprender sobre a necessidade da pesquisa e inovação na pandemia?
Uma transformação grande está acontecendo no mundo de forma acelerada e o Brasil precisa acelerar para não perder esse bonde da história. Conseguimos resolver o problema grave da pandemia em um ano com a vacina porque trabalhou-se com o conceito de inovação aberta. Este é o futuro, onde a produção é coletiva e colaborativa cada vez mais. Assim vimos pesquisadores de várias partes do mundo, com empresas diferentes, em laboratórios diferentes buscando uma solução.

Como isso tudo dialoga com a educação?
Isso tem a ver com a educação porque quando vamos ver os países desenvolvidos, vemos que estão mudando seus currículos. Estão preocupados em fazer com que no currículo se tenha visão de respeito às opiniões diferentes. Precisamos ter colaboração, sabendo conviver com as diferenças para encontrar soluções. Para isso, a questão da tolerância é fundamental, baseado na democracia, nos direitos humanos, nas ciências humanas. Entendo como vértice fundamental a democracia, isso vai permitir que o jovem através do pensamento critico, transforme a sua curiosidade em criatividade e futuramente em inovação. Para que isso aconteça é importante trabalhar a tolerância e o convívio com as diferenças, mais  ainda num cenário em que vivemos de muita polarização.

Também está relacionado à inclusão ao ensino superior? Essa inclusão, através de programas de financiamento, está enfraquecida?
Nos deparamos com uma importante questão de permitir políticas que garantam que o estudante de escola pública tenha acesso através de políticas afirmativas, seja pelo Prouni ou pelas leis de cotas. Vemos hoje uma outra fotografia desde que implantamos essas políticas, na medida em que conseguimos fazer as pessoas mais pobres, negros e indígenas acessando o ensino superior. O outro elemento é que ainda temos uma demanda muito forte de pessoas que dependem do apoio governamental para cursar o ensino superior e, por isso, apoio como o Prouni e o Fies são importantes. Sem dúvidas essas políticas são fundamentais e é importante que retome essa agenda para a democratização do acesso ao ensino superior. Se o estado brasileiro não se preocupar em garantir políticas para que o jovem possa acessar a universidade vamos ter situação muito grave no Brasil.

Então, para se pensar em desenvolvimento econômico, precisamos também promover mais inclusão?
Crescimento econômico é diferente de desenvolvimento econômico, que é mais amplo e requer um processo social e de coesão, relacionado à educação e à cultura, que se não forem bem trabalhados como propulsores do desenvolvimento teremos problemas mais na frente. Pensar em desenvolvimento sem pensar em educação e cultura, é correr o risco de termos crescimento sem inclusão social, que não funciona e mais na frente nos obrigará a pagar um preço muito alto. O Brasil, ao longo da sua história teve janelas de oportunidades com ciclos de crescimento acelerado, desenvolvimento industrial importante, reforma do Estado como em 1930, mudança importante do ponto de vista da modernização da agricultura e tudo isso sem conexão direta com a educação e isso trouxe prejuízos que precisam ser recuperados hoje. Por isso, a governança da educação é fundamental.

O senhor falou em integrar educação com o mundo do trabalho. Como isso pode se dar?
Precisamos aumentar matrículas vocacionais. Em comparação com outros países a média de ensino integrado com profissão é de 44% e no Brasil é 11%. O Rio Grande do Norte é um dos que mais atua no ensino vocacional com o ensino médio, mas na média brasileira é muito pequena. Esse atraso precisa recuperar e aí o esforço é duplo.

Essa integração também deve ocorrer entre universidades e setor produtivo?
O futuro da educação e da ciência passa necessariamente por esse casamento que precisa ser feito entre mundo produtivo e universidade. É fundamental que consigamos avançar nesta questão. Há questões ligadas ao regramento que trava a possibilidade das universidades terem mais agilidade em responder as demandas do setor produtivo, mas também é papel do mundo produtivo. As empresas precisam alterar sua forma de trabalhar, organizar seus processos, assim como os estados brasileiros precisam organizar esse processo podendo fazer com que a produção científica brasileira esteja voltada para a pesquisa aplicada que necessita de demanda organizada pelo Estado brasileiro. 

A tecnologia no ensino se tornou uma necessidade?
Nós estamos falando de desafio de forma dupla. Falar no futuro precisa estar alinhado a ele. A questão tecnológica na educação básica passou a ser tema central. O tema da inclusão digital deve ser também incluído na assistência estudantil para que os estudantes tenham acesso a internet. Se vamos ter que usar ensino hibrido para recompor educação brasileira é importante que tenhamos acesso a internet e é importante que o Governo federal crie um programa nesse sentido.

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