José Ivonildo do Rêgo: “Temos soluções tecnológicas disponíveis”

Publicação: 2019-05-26 00:00:00 | Comentários: 0
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

O Instituto Metrópole Digital (IMD) irá realizar, no próximo dia 29 de maio, a partir das 15H30, na sede do Instituto no Campus Universitário da UFRN em Natal, a primeira edição do IMDTech. O evento é uma mostra de tecnologia com foco em licenciamento de soluções em Tecnologia da Informação (TI). A ideia é que sistemas desenvolvidos em projetos do Instituto tenham suas funcionalidades e tecnologias apresentadas para empreendedores, que poderão licenciá-los e customizá-los para uso no mercado.

Instituto Metrópole Digital realizará a primeira edição do IMDTech no próximo dia 29 de maio com o objetivo de aproximar estudantes, desenvolvedores de softwares e mercado empresarial
Instituto Metrópole Digital realizará a primeira edição do IMDTech no próximo dia 29 de maio com o objetivo de aproximar estudantes, desenvolvedores de softwares e mercado empresarial

Esse tipo de parceria entre empresa privada e universidade pública é algo que vem crescendo nos últimos anos, mas que ainda é algo incipiente no Brasil em comparação com outros países. Na entrevista a seguir, o diretor do Instituto Metrópole Digital, Prof. José Ivonildo do Rêgo, detalha a importância do IMDTech para o desenvolvimento da produção científica e tecnológica do Estado, bem como as oportunidades de geração de emprego e renda que poderão surgir com a mostra. Acompanhe.

Como o IMDTech foi concebido e qual o objetivo desse projeto?

Esta é a primeira edição do IMD Tech e o evento foi concebido para o Instituto demonstrar às empresas de TI as tecnologias que estamos desenvolvendo aqui. Algumas delas já estão registradas, outras estão em processo de desenvolvimento e o IMD Tech é um momento de expormos isso e de sabermos a respeito do interesse por essas tecnologias. São tecnologias dos mais diferentes tipos, nas áreas de saúde, de segurança, do Judiciário, etc. Então, esse é o momento para se conhecer esses produtos e, mais ainda, para que se possa fazer críticas, sugestões e, claro, demonstrar interesse para fazer parcerias, quer seja eventualmente para construir novos produtos, quer seja para aperfeiçoar aqueles que já existem, ou mesmo para obter o licenciamento desses produtos, para que possam ser explorados.

De que maneira um projeto desenvolvido no IMD pode ser licenciado e customizado? Como se dá o processo de negociação entre desenvolvedores e empresários interessados?

Na realidade, existe uma legislação específica no país, que é o chamado Marco Legal da Ciência e Tecnologia, que regula isso. Também essa matéria foi regulada pela Emenda Constitucional nº 85/2015. Essa legislação trata, sobretudo, desse processo de relação das instituições científicas e tecnológicas com o setor produtivo, inclusive de processos de licenciamento e de formas como a universidade pode participar de empreendimentos. Como 95% da produção de científica e tecnológica está nas universidades públicas e nos institutos públicos, isso precisava efetivamente de uma regulação para facilitar e mediar essas relações, que é exatamente essa legislação a que me refiro, que prevê várias formas e uma delas é o licenciamento. A empresa licenciada passa a usar aquela tecnologia para exploração econômica, pagando royalties. Outra forma é a própria empresa trabalhar em um projeto conjunto com o Instituto, para desenvolver uma tecnologia na qual tenha interesse de colocar no mercado.

Quantas ideias/serviços já foram licenciados pelo IMD e quanto isso envolveu? Qual o perfil de quem os adquire e como os aplica?

O IMD já tem já tem algumas tecnologias registradas, que é o termo usado no caso de softwares e isso é feito no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). No caso de outros tipos de tecnologias, você faz a patente, também no INPI. Mas, além disso, também temos outras soluções tecnológicas já disponíveis, mas ainda sem o registro. Muito disso foi feito através de uma série de parcerias, visando atender diversos setores da sociedade, especialmente o setor público. Temos, por exemplo, parcerias com o Judiciário, feitas por meio de turmas da Residência em Tecnologia da Informação, e que resultou no desenvolvimento de tecnologias que estão sendo usadas por diversos tribunais no Estado. Também desenvolvemos um conjunto de tecnologias em parceria com a Prefeitura de Natal e a Secretaria de Segurança do Estado, através do Projeto Smart Metropolis. Nos outros casos o financiamento é feito com parcerias com órgãos públicos, para que eles possam dispor desses produtos.

Como funciona a Residência em TI?

É o mesmo modelo da residência médica. Você troca o hospital pela instituição ou pela empresa, e esses alunos, juntos com os nossos professores e profissionais da instituição conveniada, vão estar desenvolvendo soluções de interesse de cada uma delas. Essas soluções podem ser licenciadas e funcionar para a criação startups, ou podem ser licenciadas para empresas já existentes para disseminá-las em todo Brasil. Um exemplo disso são os Sistemas de Informações Gerenciais da UFRN, que já foram licenciados para quatro empresas, que tem disseminado essas tecnologias para todo o país, gerando e empregos aqui no RN. Então, esse é um processo muito interessante, nós geramos as tecnologias aqui, formando profissionais. E são soluções que resolvem problemas de instituições do Estado e que depois podem ser licenciadas e empregadas fora daqui, apesar de continuarem gerando empregos no Rio Grande do Norte. No IMD Tech vamos  mostrar todas essas possibilidades, discutir com as empresas e ver quais são os caminhos mais viáveis, para depois disso, de fato, abrirmos editais e realizarmos o processo de licenciamento das tecnologias.

Por quais razões a parceria entre a iniciativa privada e as Universidades brasileiras ainda é incipiente nesse campo? O que precisa mudar para que ocorra uma aproximação dos dois segmentos?

O Brasil está entre os 15 países que mais produzem ciência no mundo, mas quando você vai para inovação tecnólogica – que significa pegar o conhecimento e transformar em produtos, processos e gerar riquezas – aí o Brasil está lá pela posição de número 60. Isso é falta de um casamento entre universidade, instituições produtivas e o setor produtivo. No mundo todo, a maior parte dos registros de patentes é feito pelas empresas. Já no Brasil quem mais produz patentes são as universidades. Isso está errado, não porque as universidades estejam produzindo muitas patentes, mas porque as empresas produzem poucas, ou seja, fazem pouca inovação. Então, o Brasil precisa urgentemente resolver essa situação com políticas industriais que facilitem esse processo. Ao invés de cortar orçamento na área de ciência e tecnologia,  como vem acontecendo desde 2014 e 2015, é preciso investir e estimular essa integração das instituições de pesquisa com as instituições do setor produtivo como um todo. Um outro dado é que, apesar de no Brasil o setor público ser quem aplica mais em ciência e tecnologia, ainda aplicamos pouco. O país investe atualmente 1% do seu PIB nessa área. Usando referência de outros países, o ideal é que estivéssemos aplicando 3% e isso é o que os países desenvolvidos e outros em desenvolvimento fazem. Então, esse é o grande gargalo, essa é a grande discussão que o país devia estar fazendo, para descobrir por que o seu desenvolvimento está travado.

O senhor considera o Rio Grande do Norte um polo de desenvolvimento tecnológico ou ainda temos um longo caminho a trilhar para conseguirmos ser referência nacional?
Temos um longo caminho a trilhar, mas temos boas notícias nessa questão. O Estado tem um conjunto de instituições na área de ciência, tecnologia e inovação bastante significativo, e essas instituições formam bastante gente, produzem conhecimento. Temos três universidades públicas, mais um instituto federal, que estão capilarizadas em todo o estado. Tratam-se de instituições com boa produção científica e tecnológica, que fazem pesquisa de qualidade e com condições de, a partir de boas políticas estaduais e federais, acelerar a construção de uma economia em que o conhecimento tenha um peso maior. Temos Na região Nordeste que estão fazendo isso bem, Pernambuco e Ceará, por exemplo. O que precisamos é criar iniciativas e programas como o IMD, além de outras iniciativas que peguem o conhecimento produzido na universidade e gere valor agregado na nossa economia, que ainda é muito baseada em commodities.

Diante dos cortes anunciados pelo governo federal no âmbito da educação pública, o senhor avalia que essas parcerias com o setor produtivo são a solução mais adequada para a injeção de recursos nos centros universitários?
Não. São duas coisas diferentes. Uma universidade de pesquisa, como são as universidades públicas, são instituições caras em qualquer parte do mundo. Então, os recursos, as parcerias com instituições privadas, ou com outras instituições públicas, são importantes para o processo de desenvolvimento local, mas elas não se constituem na sustentação de qualquer universidade do mundo. Se você pegar o IMT, que é a universidade que produz provavelmente mais tecnologia no mundo, a receita deles advinda desse tipo de parceria não chega a 15% do orçamento. Em Havard não deve chegar a 7%. Essas parcerias são importantes, mas não para substituir o financiamento público. Elas se fazem necessárias para gerar desenvolvimento econômico e social, a partir do conhecimento produzido na universidade. Elas não financiam o grosso do orçamento, nem o custeio. É importante que as pessoas entendam claramente essas questões.

O senhor teme que ocorram retrocessos na educação pública com a atual política desenvolvida pelo MEC? Como o Instituto Metrópole Digital pode ser afetado com isso?
O país passa por uma crise econômica muito forte e é preciso fazer um ajuste nas suas contas. Agora a questão é a seguinte: onde fazer? Em educação, ciência e tecnologia, o que você deixa de investir agora, você não recupera quando a crise passar. Países que passaram por crises semelhantes à nossa reagiram melhorando os investimentos na área de educação, ciência, tecnologia e educação. Eu acho que esse debate tem sido didático, porque houve uma reação muito forte a essa questão dos cortes nas universidades. Ou seja, parece-me que a sociedade adquiriu uma consciência de que não é possível cortar nessa área, porque compromete o futuro do país. Eu acho que, mantido esse nível de mobilização e de discussão, certamente se vai produzir uma consciência maior do papel da universidade, da educação e da ciência e tecnologia. Dessa forma, essa discussão assumirá um outro patamar. No caso do IMD, ele é uma unidade acadêmica da universidade e vai sofrer caso esses cortes venham a se concretizar. Primeiro porque os orçamentos das universidades já vêm sofrendo cortes há alguns anos. Os dados têm mostrado, e a Folha de São Paulo noticiou recentemente, que as universidades, neste ano, estão no mesmo patamar de orçamento do ano de 2009. Só que, de 2009 para cá, elas cresceram bastante. Então, isso mostra que, com o orçamento que nós tínhamos, a universidade ia terminar o ano numa situação já muito difícil. E ela já vinha fazendo muitos ajustes nos anos anteriores. Não tem mais como fazer ajustes.















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