José Pinto Júnior, “Hotel Los Toros e outras histórias” (2019, Sol Negro, 72 p.)

Publicação: 2019-06-12 00:00:00 | Comentários: 0
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Alexandre Alves, Doutor em Literatura e professor da UERN
alexandrealvesuern@gmail.com

No prefácio do jornalista Alexis Peixoto consta que o autor era médico nas imediações do eixo Natal-Recife e foi colega de Mário de Andrade em sua famosa passagem pelo nordeste no fim dos anos de 1920. O amplamente desconhecido José Pinto Júnior publicou dois livros, “Cachimbo de barro” (1953) e “Cão de luxo”, de 1957, e justamente deste último os organizadores fizeram uma seleta de seis contos. Nestas narrativas, o foco recaiu sobre seus múltiplos personagens, se não decadentes, ao menos desnudam o lado menos brilhante do ser humano. Na prosa de abertura, “O nome não tem importância”, o narrador chega a ser tão convincente que o leitor é capaz de sentir o aroma da zona portuária de Recife através de uma das personagens principais, Alda Mendes, experiente meretriz femme fatale e dona de uma espelunca com pessoas de variadas intenções em noite de chuva forte. No delirante “Enterrar os mortos”, o protagonista Chico do Vigário, “pobre velho, ex-sacristão e caçador sem rumo”, perdido após uma caçada – ou teria sido um pesadelo? –, conta a trágica morte do pequeno Ananias e as reviravoltas do sepultamento da criança. Os contos “O Sen-Nang” e a história título parecem conectados em sua atmosfera marítima narrada entre Natal e Touros, repleta de personagens entre a decadência e a sobrevivência. Apenas “O ilustre Doutor Pombo” não brilha com seu enredo musical burguês. No mais, como relata o prefaciador, “Para os que se ligam em boa literatura e não dispensam um passeio pelo subterrâneo, já é mais que suficiente”.

Yasmin Nigri, “Bigornas” (2018, Editora 34, 120 p.)
Nestas bigornas de dois gumes, a presença das midiáticas (e medianas) Ana Martins Marques e Angélica Freitas, ambas citadas como títulos (!) na seção “Recibos”, já diz sobre metade das intenções literárias. Quando a autora homenageia o russo Tchekhov, por coincidência, o verso até flui melhor: “estamos pisando sobre os restos/única maneira de não esquecer/ [...] / como é mesmo o olhar dos motoristas/de caminhão pipa/que não tem água em casa”. Comparando os onze poemas quase pueris da seção inicial, cujo nome é “Rua de ontem” e contém textos como “Pastilhas Garoto” e “Largar você não vai ser fácil” (desde os títulos já evocam o lado mais básico da Poesia Marginal), com as vias mais adultas de “Mulher Malevich” e seus dezoito poemas, parecem até duas pessoas distintas escrevendo. A perda da inocência no poema “Partida” (como os animais fogem/ se você tenta machucá-los/e uma alface não reage quando é cortada/estou de partida) e no fragmentário “Gosto de deserto” surgem como insólitos contrapontos aos clichês propostos em aura intimista, como em “Cúmplices”, “Lençóis” e “Acidentes”, escapando da repetição no semi-laconismo dos poemas “Mãe” e “Notívaga”, da série “Bigornas”. Com menos de 30 anos, a autora multimídia (artista visual, mestra em Filosofia, redatora web, entre outras) se arriscou no peso-pesado da poesia e veio com uma bigorna de plástico. Material contemporâneo, verdade, mas podendo ser bem poluente, dependendo da densidade. E pulem o exagerado prefácio do também poeta Tarso de Melo, embora bem informativo sobre a bigorna.




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